DONA ROSA, MÃE DE HONESTINO: “O TEMPO NÃO APAGA MARCAS”

“Porque o tempo não apaga marcas”, como dizia dona Rosa, mãe de Honestino Guimarães

No  momento em que o Brasil passa pelo vexame da negação do golpe de 1964, da existência dos anos de chumbo da ditadura militar, e do assassinato de líderes revolucionários como Honestino Guimarães, recuperamos e compartilhamos o depoimento de Maria Rosa Leite Monteiro, mãe de Honestino, à equipe da agência de comunicação da UnB em 30 de maio de 2008.

Ainda que nos prendam, ainda que nos matem, mesmo assim voltaremos e seremos milhões.”               Honestino Guimarães 

 
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Na memória da mãe, o líder estudantil surgiu ainda aos cinco anos de idade, em brincadeiras com os irmãos jeito suave de gesticular, o olhar terno e a voz aveludada provam que o tempo foi generoso com Maria Rosa Leite Monteiro, mãe de Honestino Guimarães.
 
Companheira de primeira hora do filho revolucionário, Dona Rosa, como prefere ser chamada, viu de perto quase todo tipo de injustiça. Uma mistura de mãe e militante, ela compartilhou também vitórias importantes.
 
A memória emocional reservou mais espaço para as lembranças boas, nenhuma amargura. “Eu nunca chorei pelos cantos. Eu choro de alegria. Poucas vezes, choro de tristeza. E eu não tenho tristeza”, diz a senhora de 76 anos (em 2008).
 
Nos momentos mais duros da ditadura, aprendeu a conciliar trabalho com maternidade. Protegeu Honestino até o limite do impossível. Os encontros às escondidas e as fugas planejadas preencheram sua rotina quase que naturalmente. Mesmo como diretora de colégio, Rosa fazia questão de ir a comícios organizados pelo filho. “Já que não consegui impedi-lo, resolvi acompanhá-lo”, recorda.
 
Durante a invasão da polícia na Universidade de Brasília (UnB), em 29 de agosto de 1968, Rosa não conseguiu chegar a tempo. Até hoje conta, frustrada, um dos capítulos mais tristes de sua história. “Havia muitos soldados armados. Não consegui entrar e não sabia se meu filho estava vivo ou morto”, completa.
 
As lembranças da repressão, a preocupação em não deixar Honestino só e as conseqüências para a família, Rosa relembra nesta entrevista a Daiane Souza, da UnB Agência. Leia os principais trechos de mais de três horas de conversa no início de outubro:
 
UnB AGÊNCIA – Por que vocês vieram para Brasília?
 
MARIA ROSA – Para meus filhos Honestino, Luís Carlos e Norton estudarem. Morávamos numa cidade do interior (Itaberaí, em Goiás) e Brasília era desejada. A UnB era tudo. Viemos em 1960 e Honestino estava na 4a série ginasial. Ele foi para o Colégio Elefante Branco e depois passou em primeiro lugar para o curso de Geologia no vestibular da UnB.
 
UnB AGÊNCIA – Alguma vez a senhora pediu para que seu filho desistisse da luta?
 
ROSA – E adiantava? Ele não deixava de ouvir, mas tinha os argumentos dele. Falava que tinha de ser feito, era uma missão. Ele me dizia: “Mamãe, e se todo mundo fugir? Quem é que fica? Quem é que vai defender?”.  Eu disse a ele que se ficasse iria morrer. Ele me respondeu: “Eu prefiro viver pouco tempo aqui a viver no exterior. Lá eu estarei morto. Se eu morrer na minha pátria, morro feliz”. Ele era realmente brasileiro. Um dos motivos de eu estar aqui viva e forte até hoje é não deixar a luta dele morrer junto.
UnB AGÊNCIA – Depois dessa prisão ele voltou à universidade?
 
ROSA – Não. Em setembro de 1968, ele foi expulso. Depois que o Honestino foi para Goiânia, dia 12 de dezembro de 1968, ele não pisou mais lá em casa. Nos encontramos outras vezes. Ele passou por diversas cidades.
 
UnB AGÊNCIA – Como personagem político, o que o Honestino representa?
 
ROSA – Ele é o estudante símbolo da UnB. Deixou registrado um protesto contra tudo. Não se deixou calar.
UnB AGÊNCIA – Mas o tempo não apagou as marcas…
 
ROSA – Não. Principalmente, nos meus filhos. Essas marcas são terríveis. Eu tive de ser um pára-raio. Tenho orgulho e dou graças a Deus por ter sido mãe dele. Cumpri meu papel ao meu modo.
 
UnB AGÊNCIA – Como assim? Por causa da rotina?
 
ROSA – O dia anterior ao AI-5, 12 de dezembro de 1968, foi o dia em que ele ficou foragido. Foi para a clandestinidade. Nos dias em que iam instituir o AI-5, houve um burburinho na cidade. Aí ele foi embora para Goiânia. Meu marido estava no trabalho, ele trabalhava na W3 Norte e foi para Taguatinga, pois estávamos montando uma loja.
 
Tínhamos ficado três noites sem dormir porque eles pegaram o Norton em casa e ficaram com ele três dias. Eles (o Exército) nos ligaram e mandaram a gente ir pegar o Norton. Fui buscá-lo. Nessa noite, dormimos. O Monteiro saiu cedo com o Norton para deixá-lo em proteção.
 
E ainda ficou até tarde da noite, pois o serviço estava todo atrasado e estávamos perto do Natal. Dia 17. Atrasou o trabalho que ele estava fazendo na montagem da loja. Aí ele cochilou e bateu num caminhão e morreu na hora. E eles ainda se aproveitaram da situação para pegar o Honestino. O pai estava morto e no enterro havia muitos policiais à paisana. Honestino queria muito vir. Ele era apaixonado pelo pai. E não o deixaram vir. Mas seria até melhor porque assim ele seria preso na presença de todos e aí não poderiam matá-lo.
 
UnB AGÊNCIA – A senhora acredita que o acidente foi provocado?
 
ROSA – Não. Ele estava com sono. Três dias sem dormir, muito cansado. Simplesmente dormiu. Foi uma cochilada. É muito rápido.
 
UnB AGÊNCIA – A vida da senhora mudou muito depois disso?
 
ROSA – Olha, o que dizem por aí é verdade: eu sou uma lutadora. Foi tudo muito difícil, mas na luta fui superando. Eu tinha de proteger os meus filhos. O Norton foi o primeiro a cair. Fizeram muita coisa com o Norton. Mesmo depois de prenderem Honestino, ou melhor, depois de matarem. Eu nunca chorei pelos cantos. Eu choro de alegria. Poucas vezes eu choro de tristeza. E eu não tenho tristeza. Nossa vida não começou aqui e nem vai acabar aqui.
 
UnB AGÊNCIA – A senhora guarda algum sentimento em relação ao regime militar?
 
ROSA – Olha, odiar eu não odeio. Sempre fui muito cristã. Mas sentir bem também não. No Natal, pedi autorização para vê-lo na cadeia. Disseram que não estava. Mandaram-no para São Paulo. Foi lá que o mataram, foi lá que tudo acabou. Esse dia para mim foi um dia de morte. Até então, eu tinha esperança total. Para mim, eu havia ganho a batalha.
 
UnB AGÊNCIA – Se a senhora tivesse uma última chance de falar com seu filho, o que falaria?
 
ROSA – Iria abraçá-lo, beijá-lo, fazer todas as coisas que ele gostava de fazer. A parte mais importante para mim do Honestino é ele, como filho. Embora, eu ache que o que ele deu ao Brasil foi muito grande e importante. Até hoje, falo com Honestino. Não sou uma mãe chorosa. Eu não preciso querer ver meu filho, eu tenho meu filho. Eu estou aqui e é como se ele estivesse aqui com a gente, naquele retrato, olhando para nós. Para mim, morte não é morte.
 
UnB AGÊNCIA – Como foi paga a indenização?
 
ROSA – Eu detesto falar sobre isso. Não receberia dinheiro nenhum em troca do meu filho. Mas eu recebi o troco. Eu não recebi indenização, mas a Isaura (primeira mulher de Honestino) recebeu. Ela não é a família de Honestino. Só não se separou legalmente porque eles viviam na clandestinidade. E pediu mais, e recebeu mais.
 
Um dia eu estava na fila de banco e um sujeito me parou e disse: “A senhora está boa? Está cheia de dinheiro, ficou rica, está bem de vida”. Eu nunca vendi filho nenhum. E se a Isaura tivesse conversado comigo para pedir permissão para entrar na Justiça, eu não daria. O pedido foi feito por ela. Ela entrou com advogado. Se você me perguntar quanto foi, eu não sei. O que foi feito com o dinheiro, não sei. As pessoas tinham inveja de um dinheiro que não recebi e nem receberia. Mãe é mãe e só eu sei tudo o que passei. É muito sofrimento.
Honestino, o bom da amizade é a não cobrança
O livro “Honestino, o bom da amizade é a não cobrança“, escrito por Maria Rosa Leite Monteiro, mãe do líder estudantil, relata momentos importantes da vida do militante símbolo de uma época de luta e repressão. Com uma linguagem coloquial e um tom de conversa de mãe e filho, o livro mostra a união e o orgulho que todos da família, ainda hoje, sentem por Honestino Monteiro Guimarães. A obra tem ainda fotos de família, cópias de documentos, jornais e poemas de Honestino. Publicado em Brasília pela Da Anta Casa Editora, em 1998, o livro possui 270 páginas.
ANOTE:
Frase de Honestino Guimarães:  publicada em um trecho do livre “Honestino, o bom da amizade é a não cobrança.
Fonte citada: http://www.secom.unb.br/especiais/honestino4.htm.
Fonte da matéria: http://sejarealistapecaoimpossivel.blogspot.com/2008/05/depoimento-de-maria-rosa-leite-monteiro.html
Honestino Guimarães foi “sumido” pela ditadura militar em 10 de setembro de 1973, aos 26 anos de idade. Sequestrado, torturado e assassinado nos porões da ditadura, em São Paulo, seus restos mortais nunca foram entregues à família. Dona Rosa faleceu em 20 de setembro de 2012, aos 84 anos de idade.
Ela foi uma das primeiras vozes a denunciar os desaparecimentos e as torturas de jovens militantes durante a ditadura militar no Brasil (1964-1989). A foto de dona Rosa com o retrato de Honestino é de Raimundo Paccó (2000), publicada em várias matérias do Correio Braziliense sobre dona Rosa.

LEIA TAMBÉM:

A Festa do Mundo

“… Eu luto pela festa do mundo”.
Por Honestino Monteiro Guimarães
– Eu espero a festa do mundo inteiro
a cantar a manhã que chegou
mais bela que as outras manhãs,
porque a noite que a precede é uma noite
mais negra que o comum das noites todas.
Eu espero a festa do mundo
mas também eu construo
anônimo entre todos, mas ligado a todos
porque a festa do mundo vai ter que chegar
é a festa da manhã geral.
Eu construo a festa do mundo
armado das minhas convicções
que são as verdades do mundo,
que são as verdades do homem.
Pois eu construo a festa
cantando e lutando por um mundo
liberto e igual,
pelo mundo que vai chegar
com a manhã mais bela que as
manhãs todas,
com a festa dos homens livres.
E eu luto pela festa do mundo.
Honestino Guimarães (27 de novembro de 1965).

 

HONESTINO GUIMARÃES: A FESTA DO MUNDO

Honestino e a filha Juliana. Foto: Acervo Histórico

HONESTINO MONTEIRO GUIMARÃES 

Honestino Monteiro Guimarães nasceu em 28 de março de 1947 em Itaberaí, pequena cidade de Goiás. Sua infância foi igual à de muitos outros garotos do interior do Brasil, mas desde muito pequeno revelou uma inteligência incomum e paixão pelos estudos e pela leitura.
Entre brincadeiras, livros e castigos das professoras, o menino levado e estudioso crescia sob o olhar atento de seus pais. Convivia com muitas primas e primos, fazia piqueniques à beira do rio das Pedras, nadava e jogava futebol com garotos de sua idade.
Em 1960 a família mudou-se para Brasília, atraída pelas oportunidades que a nova capital oferecia. Moraram na W3 Sul e depois na superquadra 405/406 Norte. Honestino, adolescente, era fanático por leitura e namorador.
Terminou o curso ginasial e começou o científico no Centro de Ensino Médio (Elefante Branco). Em 1964 transferiu-se para o Centro Integrado de Ensino Médio (Ciem), experiência pedagógica inovadora em Brasília. Já participava da política estudantil e ingressou na Ação Popular (AP), organização política clandestina de grande penetração no meio estudantil.
Em 1965, antes de completar 18 anos, foi o primeiro colocado no vestibular, em toda a Universidade de Brasília. Na política estudantil, sua liderança logo se revelou. Era muito querido e respeitado pelos estudantes da UnB.
Mas ações como pichar muros, participar de manifestações e distribuir panfletos contra o governo resultaram em prisões – a primeira em fevereiro de 1966, durante uma greve; em fevereiro de 1967 fazendo pichações; em abril de 1967, durante manifestação na Biblioteca Central da UnB. Em agosto de 1967, na prisão pela quarta vez, foi eleito presidente da Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília (Feub).
Por sua atuação no movimento estudantil, Honestino passou a ser perseguido pelos órgãos de repressão política. Seu pai representou-o por procuração no casamento com Isaura Botelho, militante estudantil. Em 29 agosto de 1968, vinte dias depois do casamento, a UnB foi invadida para que se cumprisse um mandado de prisão contra ele e outras lideranças estudantis.
Honestino foi preso. Em setembro, dois meses antes de concluir o curso de geólogo, foi excluído da universidade. Foi libertado em novembro. No dia 16 de dezembro de 1968, três dias depois da edição do AI-5, seu pai faleceu em um acidente de carro. Sem respeitar o luto e a dor da família, policiais ocuparam o cemitério com viaturas e ele não pôde ir ao funeral.
Com o AI-5, os habeas corpus não tinham mais valor e Honestino e Isaura passaram a viver como clandestinos em São Paulo, onde, em 1970, nasceu a filha Juliana. Em outubro de 1971 separaram-se e mudaram-se para o Rio de Janeiro, onde no ano seguinte ele passou a viver com sua nova companheira.
Foi eleito vice-presidente da UNE em 1969, na gestão de Jean-Marc von der Weid e em 1971 foi eleito presidente. Cumpria, na clandestinidade, suas tarefas na UNE e militava na Ação Popular Marxista-Leninista. Acreditava que a transformação social brasileira só poderia ocorrer pela ação dos trabalhadores organizados e todo o seu esforço dentro da organização política tinha esse objetivo.

 

HONESTINO GUIMARÃES: A FESTA DO MUNDO

Foto: Acervo Histórico

Honestino nunca participou de ações armadas, para ele iniciativas dissociadas das massas trabalhadoras. Estudava economia e política incansavelmente.
Mas seus escritos, acumulados em vários cadernos e entregues por sua companheira a um militante da Ação Popular, infelizmente perderam-se em uma enchente.
Apesar da perseguição policial, mandava cartas para parentes e amigos, mantinha contato com a mãe e os irmãos e visitava a filhinha com frequência. C
om os cabelos pintados de preto para disfarçar-se, ia à praia, ao cinema, ao futebol no Maracanã, ao desfile de Escolas de Samba no carnaval, tomava chope com amigos e até jogava peladas no Aterro do Flamengo.
Mas a repressão nunca descobriu seu endereço no Cosme Velho, onde morava com sua companheira. Há indícios de que a última prisão deveu-se à delação de um companheiro de partido, que apavorado diante das ameaças e da perspectiva de tortura, tornou-se informante da polícia.
Os órgãos de repressão admitiram ter prendido Honestino, mas ele nunca foi visto por outros presos. Mesmo depois de longos anos de incansável busca, sua família não conseguiu saber o que aconteceu com ele, que passou a fazer parte da lista de desaparecidos da ditadura de 1964.

 

HONESTINO GUIMARÃES: A FESTA DO MUNDO

Foto: Acervo Histórico

OUTROS DADOS DA BIOGRAFIA DE HONESTINO 

O líder estudantil Honestino Monteiro Guimarães  foi estudante de Geologia e  presidente da Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília (FEUB). Em razão de sua militância no movimento estudantil foi preso  por quatro vezes.
Depois de sua quarta prisão, no ano de 1973, nunca mais retornou. Seu atestado de óbito, datado de 10 de outubro de 1973 só foi entregue a família, incompleto, sem a causa da morte,  em 1996, vinte e três anos depois.
Em 20 de setembro de 2013 foi oficialmente anistiado e teve atestado de óbito completado, com a causa de sua morte esclarecida: Honestino morreu em razão  de atos de violência sofridos quando estava sob custódia do Estado brasileiro.
O caso de Honestino foi objeto de investigação pela Comissão da Verdade, que apura mortes e desaparecimentos ocorridos durante a ditadura militar brasileira, que durou de 1964 a 1985.

Placa em Brasília, na UnB, em homenagem a Honestino. Foto: Divulgação/Internet

HOMENAGENS PÓSTUMAS A HONESTINO GUIMARÃES

O óbito de Honestino Guimarães só foi oficialmente reconhecido em 12 de março de 1996. Em 1997, foi laureado pela UnB com o Mérito Universitário.
 
Em sua homenagem, a principal organização estudantil da Universidade de Brasília se chama Diretório Central dos Estudantes Honestino Guimarães. Também em sua homenagem, o Grêmio Estudantil  do Centro de Ensino Médio Elefante Branco, onde estudou, e o centro acadêmico do curso de Geologia da Universidade levam seu nome.
 
Além disso, em 2013 logo após ser declarado oficialmente um anistiado político, a UnB realizou uma solenidade em sua homenagem, como forma de pedido de desculpas a todos os outros estudantes desaparecidos e suas famílias.

Em 28 de agosto de 2015 uma das pontes ao sul do Lago Paranoá, a Ponte Costa e Silva, cujo nome homenageava o ex-presidente da República e General do exército, Arthur da Costa e Silva, teve seu nome trocado para Ponte Honestino Guimarães.
A mudança já havia sido proposta em 2015, pelo ex-deputado distrital Ricardo Vale (PT), e chegou a ser sancionada, mas, em 2018, a Justiça determinou a volta do nome do general. O Projeto de Lei aprovado recentemente foi apresentado pelo ex-deputado distrital Leandro Grass (PV).
A mudança da placa não foi imediata. Em 23 de dezembro de 2022, por conta própria, moradores do DF trocaram simbolicamente a inscrição na placa que fica em frente à ponte.

Em 13 de dezembro de 2022, a Câmara Legislativa do DF (CLDF) derrubou o veto do governador Ibaneis Rocha (MDB) para a troca do nome na ponte, que faz a ligação entre a QI 10 do Lago Sul e a via L4 Sul. O veto ocorreu no fim de 2021.

Em fevereiro de 2023, a Ponte Honestino Guimarães, recebeu, enfim, sua placa definitiva.

 

HONESTINO GUIMARÃES: A FESTA DO MUNDO

Placa da Ponte Honestino Guimarães em Brasília: Foto: Divulgação/Metrópoles
 
NOTA DA REDAÇÃO: Este poema, texto raro de  Honestino Guimarães, foi encontrado pela  escritora Iêda Vilas-Bôas, que o publicou, originalmente, como parte desta matéria composta por ela,  em 18 de maio de 2018. Iêda partiu para o mundo dos encantados em 8 de abril de 2022. Para honrar sua memória, republicamos parte dos artigos memoráveis que Iêda Vilas-Bôas publicou na nossa Revista Xapuri – dela ou, como neste caso, encontrados por ela. A biografia de Honestino vem da página de Honestino Guimarães. Os dados complementares sobre Honestino foram extraídos da wikepedia. As fotos utilizadas nesta matéria são do acervo de honestinoguimaraes.
 
 

HONESTINO GUIMARÃES: A FESTA DO MUNDO

Bandeirão foi posicionado nas rampas da reitoria no dia em que o Conselho Universitário anulou a expulsão e concedeu diploma post mortem a Honestino Guimarães. Foto: Beto Monteiro/Ascom GRE

REPARAÇÃO HISTÓRICA

A reunião, que lotou o Auditório da Reitoria, foi marcada pela emoção. Este é o primeiro registro de diplomação post mortem da UnB. “A Universidade de Brasília sofreu muito com a ditadura militar, quando quase foi fechada. E, depois, em um momento muito difícil, nós perdemos estudantes, perdemos professores e perdemos Honestino Guimarães, estudante de Geologia.
 
Temos esse compromisso histórico com a verdade. Isso representa não só a reparação ao Honestino, mas a tudo que ele representa. Eu, como geóloga formada pela Universidade de Brasília, tenho esse compromisso com meus colegas e com Honestino, que, tenho certeza, seria um excelente geólogo”, destacou a reitora Márcia Abrahão.
 
HONESTINO GUIMARÃES: A FESTA DO MUNDO
Decano de Ensino de Graduação, Diêgo Madureira leu seu parecer favorável à anulação da decisão de desligamento de Honestino Guimarães da UnB e à concessão do diploma post mortem ao geólogo. Foto: Beto Monteiro/Ascom GRE

“O simbolismo desse ato transcende esses aspectos mais diretamente relacionados ao próprio Honestino para compor uma inequívoca mensagem da instituição a toda a sociedade, deixando explícito o compromisso da UnB com a justiça, a democracia e a história, a despeito daqueles que insistem em contestar os fatos de inúmeras formas testemunhados de um período sombrio no nosso país, um negacionismo que precisa ser combatido com todas as forças, sobretudo em respeito a cada vítima, direta ou indireta, da ditadura, a cada mãe que sofre a perda prematura de um filho ou a eterna angústia de seu desaparecimento, a cada pessoa torturada por insistir em fazer valer seu direito de ser livre para discordar, a cada instituição também ferida pelo autoritarismo e a cada ser humano que condena a barbárie”, disse o decano de Ensino de Graduação, Diêgo Madureira, durante a leitura do parecer que recomendou a aprovação da proposta. O parecer foi aplaudido de pé por todos os presentes, que entoavam as palavras de ordem: “Honestino presente!”
O vice-reitor Enrique Huelva avaliou que a memória de Honestino Guimarães impacta até hoje a atuação da Universidade de Brasília. “Ficou muito claro que o que nos inspira há décadas é um estudante. A gente não tem como mudar aquilo que foi, mas podemos trazer para o presente, repará-lo, dignificar a nós e a Universidade e construir um futuro em que esses elementos da história não se repitam nunca mais”, comentou.
Reitor da UnB entre 2009-2012, José Geraldo de Sousa Junior salientou a resistência política da UnB desde sua fundação e principalmente durante o regime de repressão. “A ditadura militar sempre escolhe um alvo preferencial, que é o pensamento crítico, e trabalha com métodos como a censura, a tortura e a morte.
Ainda não superamos o negacionismo, que insidiosamente se instalou como uma postura antidemocrática, antipovo, anticiência. Um ato como esse reforça a nossa responsabilidade com a verdade estabelecida no livre intercâmbio das ideias”, analisou. Foi na gestão de José Geraldo que houve a criação da Comissão Anísio Teixeira de Memória e Verdade da UnB.

 

HONESTINO GUIMARÃES: A FESTA DO MUNDO

A reitora Márcia Abrahão, geóloga formada pela Universidade de Brasília, ressaltou seu compromisso com sua unidade e com seus colegas geólogos. Foto: Beto Monteiro/Ascom GRE

O diretor do Instituto de Geociências (IG) – unidade na qual Honestino estudava e que aprovou em seu conselho a concessão do diploma –, Welitom Borges, vê a concessão do diploma a Honestino Guimarães como mais um marco no legado da UnB.
“A gente está fazendo história com esse reconhecimento de um estudante de graduação que sempre lutou pela igualdade social e foi abruptamente extraído da nossa sociedade. Isso para o IG é extremamente gratificante, e mais gratificante ainda é isso ser realizado na gestão da reitora Márcia Abrahão, que é geóloga. É um reconhecimento histórico diante desse movimento antidemocrático que houve no Brasil e que a gente espera que nunca volte. Todos os estudantes de geologia veem o Honestino como um símbolo de luta”, disse.
Durante a reunião, três estudantes falaram como representantes do Diretório Central dos Estudantes (DCE), que leva o nome de Honestino Guimarães. “Para nós, Honestino é uma figura central de inspiração. Quando entrei na Universidade, conheci a história e a trajetória de luta de Honestino.
Que Honestino não seja apenas o nome de um estudante que se foi”, ressaltou o representante do DCE André Doz. “Honestino nos mostrou que nós devemos ser resistentes e lutar até o fim. Honestino ainda vive, ele está aqui. Todos os dias, nós aprendemos com Honestino”, reforçou a também representante do DCE Milena Moraes.

 

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Representantes do DCE Honestino Guimarães. Foto: Beto Monteiro/Ascom GRE

Representante da Associação dos Docentes da Universidade de Brasília (ADUnB), Eliene Novaes afirmou que a memória do estudante de Geologia assassinado pela ditadura militar está cravada em diversos espaços da UnB. “Mataram Honestino, mas não sabiam eles que Honestino era uma semente e que cada um de nós, da Universidade de Brasília, é fruto da luta e da história de Honestino contra qualquer tipo de ditadura e cessão de direito”, citou.
A decana de Extensão, Olgamir Amancia, destacou a “coragem, ousadia e insurgência” da Universidade de Brasília em anular a expulsão e conceder o diploma post mortem. “Honestino é símbolo dessa caminhada, que não pode ser interrompida, de luta pela democracia. Com certeza, Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro estão comemorando esse ato.” A decana lembrou da importância do movimento estudantil em defesa da educação, no qual Honestino Guimarães teve intensa participação, sendo presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UnB e da União Nacional dos Estudantes (UNE).
MEMÓRIA – Em março de 2024, a reitora Márcia Abrahão, familiares, amigas, produtores do filme sobre a vida de Honestino, membros da administração superior, o ex-presidente da Associação dos Docentes da UnB (ADUnB) professor Jacques de Novion, o diretor do Instituto de Geociências (IG), Welitom Borges, e o ex-reitor José Geraldo de Sousa Junior se reuniram para tratar dos trâmites da diplomação.
Honestino Monteiro Guimarães nasceu em 28 de março de 1947, em Itaberaí/GO. Ele foi o primeiro colocado no primeiro vestibular para Geologia realizado na UnB, em 1965, e presidente da Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília, em 1968. No mesmo ano, o estudante foi preso na invasão militar da UnB, sendo solto meses depois, e expulso da Universidade. Entre 1968 e 1973, Honestino viveu na clandestinidade. Em 1973, foi sequestrado, aos 26 anos, não sendo mais visto. A confirmação pública de sua morte ocorreu em 1996. O corpo nunca foi encontrado.
Em novembro de 2023, o Conselho Universitário da UnB divulgou nota manifestando-se pela elucidação do desaparecimento de Honestino, cinquenta anos depois do ocorrido.
 

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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