Olhos de ressaca
minha deusa negra quando anoitece
desce as escadas do apartamento
e procura a estátua no centro da praça
onde faz o ponto provisoriamente
eu fico na cama pensando na vida
e quando me canso abro a janela
enxergando o porto e suas luzes foscas
o meu coração se queixa amargamente
penso na morena do andar de baixo
e no meu destino cego, sufocado
nesse edifício sórdido & sombrio
sempre mal e mal vivendo de favores
e a minha deusa corre os esgotos
essa rede obscura sob as cidades
desde que a noite é noite e o mundo é mundo
senhora das águas dos encanamentos
eu escuto o samba mais dolente & negro
e a luz difusa que vem do inferninho
no primeiro andar do prédio condenado
brilha nos meus tristes olhos de ressaca
e a minha deusa, a pantera do catre
consagrada à fome e à fertilidade
bebe o suor de um marinheiro turco
e às vezes os olhos onde a lua
eu recordo os laços na beira da cama
percorrendo o álbum de fotografias
e não me contendo enquanto me visto
chego à janela e grito pra estátua
se não fosse o espelho que me denuncia
e a obrigação de guerras e batalhas
eu me arvoraria a herói como você, meu caro
pra fazer barulho e preservar os cabarés.
Geraldo Carneiro
Fonte: Revista Bula
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Era uma vez um coqueiro alto chamado buriti
Era uma vez…
Por Adelino Machado
Era uma vez…
Um lugar onde corria água,
Mas chegou um homem e comprou.
Trouxe um operário e um trator.
Hoje, onde corria água, tem cinza!
Era uma vez…
Um lugar onde tinha um brejo.
Uma família de pés de BURITIS,
E muitos sapos a festejar.
Hoje, quem reside lá são eleitores!
Era uma vez…
Uma grota que escorria pela encosta.
Onde escondia à tarde, a coruja noturna,
E cantava o caburé adivinhador de chuvas.
Hoje, mal cheira nossos excrementos!
Um coqueiro alto chamado BURITI.
Que foi ficando solitário e triste.
Depois, desviaram o córrego para construir o bueiro.
Hoje, é apenas saudade em um triste poema…!

Nota do autor: Diante da tragédia ambiental que vivemos, ofereço mais uma vez esse poema, com intento de refletirmos sobre as ações das pessoas, das empresas e do poder público, que agindo “naturalidade” destrói tudo em benefício do dinheiro. Mas o que adianta dinheiro, poder, lucro, sem chuvas e sem água? Esse poema foi escrito no ano 2000.
MACHADO, Adelino Soares Santos. Suspiros poéticos do Nordeste Goiano. Editora e distribuidora de livros Planeta Ltda. – 1ª ed. Goiânia – GO, 2002, p. 82.
Adelino Machado – Escritor e poeta. Membro da Academia de Letras e Artes do Nordeste Goiano – ALANEG, cadeira 25.


A casca dura do buriti é uma proteção natural contra predadores e contra a entrada de água. A polpa do fruto é saborosa e possui coloração alaranjada, sendo acompanhada, em geral, de um caroço, que é a semente da espécie. Em alguns casos, no entanto, podem ser encontrados dois caroços ou nenhum.
A colheita do fruto é trabalhosa, requerendo que os frutos maduros sejam colhidos do chão, após terem caído naturalmente. Alguns coletores cortam os cachos no pé do buriti, assim que os frutos amadurecem e começam a cair.

O buriti fornece palmito comestível, mas pouco utilizado. O óleo da polpa é usado para frituras e sua polpa, depois de fermentada, se transforma em vinho. Também é possível encontrar produtos beneficiados como doces e picolés. Seus frutos podem ser utilizados ainda na alimentação animal.

O artesanato e a ornamentação se valem da riqueza e beleza desta planta. A madeira pode ser utilizada em áreas externas da casa, as fibras de suas folhas podem ser utilizadas na confecção de esteiras, cordas e chapéus. Sua amêndoa resistente também é utilizada para pequenas esculturas. O fruto do buriti é rico em vitamina C e é um alimento energético.