Procura
Fechar esta caixa de pesquisa.

A armadilha do autoplay nas redes sociais

A armadilha do autoplay nas redes sociais

Autoplay e imediatismo levam pessoas a se radicalizarem em vídeos que inflamam suas emoções

Por Felipe Neto/Jota

Possivelmente você está lendo esse texto de um dispositivo móvel e, se isso for verdade, você faz parte de um total de 221 milhões de conexões móveis que estavam ativas no Brasil no início de 2023. Então, pense na seguinte situação: você abre um aplicativo qualquer, passa por alguns posts e de repente um vídeo surge e você fica preso por alguns segundos. Você pisca e percebe que perdeu duas horas da sua vida assistindo a vários vídeos parecidos em sequência. Soa familiar?

Mas vamos voltar um pouco?

Era setembro de 2013. Ao abrir o Facebook, um som começou a tocar sozinho no meu celular. Imediatamente fechei o app e, ao abrir de novo, descobri que o Facebook estava dando play automaticamente em vídeos na minha timeline. E, sendo o mesmo Felipe que sou, abri rapidamente o Twitter para reclamar e ser insuportável, mas… cheguei tarde. Lá estava uma chuva de ofensas ao Mark Zuckerberg. O mundo inteiro estava indignado e essa nova funcionalidade rapidamente invadiu outras plataformas, timelines e aplicativos. Essa reprodução automática de vídeos recebeu o nome de autoplay. Basicamente, autoplay é o que acontece quando um vídeo é exibido para você sem que você tenha clicado no play (ou no próprio vídeo) em momento algum.

Até pouco tempo atrás, quase ninguém gostava que vídeos começassem a dar play sozinhos. Em 2018, Brian X. Chen publicou um artigo no New York Times falando sobre os perigos do autoplay. Escreveu: “Ninguém parece gostar de vídeos de reprodução automática – nem mesmo as pessoas com quem conversei na indústria de anúncios. Os vídeos indiscretos exigem sua atenção enquanto queimam seu plano de dados móveis e consomem suas baterias”.

O ano é 2023

Corta para hoje e vemos uma sociedade completamente viciada em vídeos que rodam em timelines infinitas e quase impossíveis de fechar. E o que antes era um incômodo, se transformou no maior modelo de negócios do TikTok e influenciou diretamente o Instagram (com a criação do Reels), o Facebook, o Twitter e o YouTube (através do Shorts).

Permita-se fazer um desafio: abra um app de rede social hoje e veja quanto tempo levará para que ele rode um vídeo em autoplay na sua tela. Esse é meu resultado:

  • Twitter – 3,7 segundos: um comercial da cerveja Michelob;
    Facebook – 9,3 segundos: um comercial do jogo Assassin’s Creed;
    Instagram – 0 segundos: um vídeo de um pai chorando com o filho no colo tomando vacina;
    TikTok – 0 segundos: uma entrevista do Wagner Moura;
    YouTube – a plataforma faz um autoplay meio-a-meio, sem executar o som do vídeo, apenas a imagem, na tentativa de te fisgar para abrir o vídeo inteiro. Também leva 0 segundos.

Mas por que isso aconteceu? Se o autoplay era tão odiado, por que as empresas investiram tanto e como elas conseguiram mudar esse cenário?

A resposta, inicialmente, pode parecer simples: dinheiro. O play automático de vídeos imediatamente se provou uma mina de ouro para o Facebook. Ele não só servia para jogar anúncios no rosto do usuário, mas também para fazer com que as pessoas ficassem muito mais tempo no site ou em apps, sem fechar. Além disso, o autoplay servia como ferramenta para inflar números de visualizações de vídeos, mesmo que essas visualizações não fossem reais.

Contudo, pouco tempo depois nós começamos a descobrir os reais perigos do autoplay para a humanidade. Com isso em mente, mergulhei a fundo ao longo dos últimos três anos no estudo dessas ferramentas de navegação destinadas a manter o usuário preso e, embora a literatura e a quantidade de pesquisas ainda seja pequena, o consenso dos especialistas é assustador. Por isso, peço licença para compartilhar com vocês os quatro pontos que listei como os principais para mostrar por que precisamos eliminar o autoplay de nossas vidas.

1) Autoplay vicia

Desde o início dos anos 2000 os cientistas mapeiam e estudam o que chamam de “vício comportamental” e sua relação com a internet. O vício comportamental é aquele que não envolve consumir algum tipo de substância. Em vez disso, o viciado apenas não consegue resistir a algum comportamento que gera uma sensação de alívio ou prazer no curto prazo, a despeito do mal causado no longo prazo.

Em 2010 foi publicado um artigo no American Journal of Drug and Alcohol Abuse, após extensa pesquisa de Jon Grant, Marc Potenza, Aviv Weinstein e David Gorelick, que concluiu: “Cada vez mais evidências sugerem que os vícios comportamentais se assemelham aos vícios químicos em muitas esferas”. O artigo apontou o vício em jogos de azar e em internet como exemplos. Mas se você acha que estou exagerando, talvez essa informação possa te convencer: o nível de vício em celular está tão absurdo que uma pesquisa nos Estados Unidos comprovou que 10% das pessoas checam o smartphone durante o sexo.

É verdade que não é apenas o autoplay que impulsiona nosso vício em smartphones. Praticamente todas as plataformas digitais hoje são construídas com o intuito de te viciar e isso é revelado pelos próprios criadores. Sean Parker, um dos fundadores do Facebook, afirmou em 2017: “O que motiva as pessoas que criaram essas redes é: ‘Como você consome a maior parte do seu tempo e atenção?’” – e continuou: “Você tem que liberar um pouco de dopamina (uma espécie de recompensa que o corpo recebe para se motivar), com bastante regularidade. Daí o like ou o comentário que você recebe em uma foto, uma publicação… Isso fará com que você contribua cada vez mais e, portanto, receba cada vez mais comentários e curtidas etc”. Ele finaliza com: “Estávamos lúcidos, mas fizemos assim mesmo”.

Ainda assim, nada parece ter mais força na criação desse vício do que as timelines infinitas de vídeos curtos em autoplay. Em suma: TikTok, Reels, Shorts e Kwai, principalmente. Essas timelines são projetadas de maneira perversa, intencional, com o objetivo de não permitir sua saída. Elas fazem isso se aproveitando do que chamamos de “Viés da Unidade”, um viés cognitivo que age o tempo todo no nosso cérebro. Funciona assim: sabe quando você está assistindo a um episódio de série, começa a sentir sono, mas sente que precisa terminar o episódio antes de dormir? Esse é o Viés da Unidade agindo. Seres humanos possuem a tendência de sempre querer completar ao menos uma unidade completa de uma tarefa.

E é aí que esses aplicativos te pegam. Um infográfico da Domo nomeado “Data never sleeps” mostra quantos dados são produzidos por minuto na internet – no YouTube, por exemplo, 500 horas de vídeo são postadas por minuto todos os dias. Como a quantidade de vídeos curtos é infinita e surpreendente, nós nunca sentimos que “acabou” e sempre somos deixados com a sensação de “falta mais um pouco”.

Nesse espaço o objetivo das plataformas vem sendo atingido com perfeição. Cada dia mais elas removem o seu poder “ativo” de escolher o que quer assistir e te transformam em um usuário “passivo”. Então, em vez de você abrir um app, se interessar por um vídeo e clicar nele, a plataforma estuda sua vida e exibe automaticamente o que mais vai te deixar preso numa estrutura viciante de liberação de dopamina constante.

No livro Nação Dopamina, a Dra. Anna Lembke explica: “Os cientistas consideram a dopamina como uma espécie de moeda corrente universal para a avaliação do potencial adictivo (viciante) de qualquer substância. Quanto mais dopamina no sistema de recompensa do cérebro, mais adictiva é a experiência”.

Sem o autoplay, quanto dessa estrutura viciante seria impactada?

2) Autoplay pode causar ansiedade e depressão

Primeiro, a ferramenta te vicia. Em seguida, você imediatamente começa a lidar com os efeitos colaterais desse vício. Quanto mais tempo um usuário passa conectado a uma tela, mais percebe que a vida ao redor parece se desconectar, perder sentido, ficar anuviada. O tédio não pode mais existir, nós precisamos de dopamina o tempo todo. Um filme é longo demais, um episódio de série é longo demais. Uma música é longa demais. Livros são sem graça. Conversar é tedioso. Nada tem tanta graça quanto uma timeline do TikTok ou Reels, onde de fato eu sinto que encontro paz e meu cérebro é inundado de dopamina capaz de me fazer perder a noção do tempo. Tela, eu preciso de tela. Chega de outras coisas!

Como chegamos nesse estado? Principalmente através do autoplay.

A escritora e psicóloga Susan Linn, autora do livro Who’s Raising the Kids?, escreveu: “Tecnologias são problemáticas quando priorizam os lucros em detrimento da saúde e bem-estar dos indivíduos e da sociedade. Contudo, nenhuma análise independente do potencial de danos e benefícios de produtos tecnológicos é requerida antes deles irem para o mercado”.

Os dados coletados são aterrorizantes.

Em 2021, o Wall Street Journal revelou memorandos internos da Meta (empresa dona do Facebook): “32% das adolescentes femininas disseram que quando elas se sentiam mal com seus corpos, o Instagram as fazia sentir pior”. O mesmo memorando comprovou: “Dentre adolescentes que registraram pensamentos suicidas, 13% dos usuários britânicos associaram o desejo de se matar ao Instagram”. Treze por cento! E essa pesquisa foi realizada pela própria Meta!

E o que a empresa fez para mudar isso? Nada.

Foi comprovado em um levantamento realizado com alunos do ensino médio dos Estados Unidos, feito pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças, que adolescentes que passam mais de três horas por dia em dispositivos eletrônicos possuem 35% mais chances de ter pelo menos um fator de risco de suicídio. Essa e outras informações avassaladoras estão no livro iGen, de Jean Twenge.

Deixe-me perguntar novamente: sem o autoplay, quanto desse tempo de consumo de tela gerado pelo vício poderia ser reduzido?

3) Coleta de dados e vigilância

Em 2010, Mark Zuckerberg chocou o mundo ao falar publicamente que o tempo da privacidade havia acabado e as pessoas não ligavam mais para isso. Sua fala veio um mês depois de o Facebook alterar as regras da plataforma, permitindo que muito mais dados de cada usuário fossem armazenados e comercializados.

Talvez você não ligue pra isso. Muitos dizem: “ah e daí? Que que o Facebook vai fazer com meus dados? Que peguem”. Mas não é bem assim que funciona. O sistema que hoje compõe o “Capitalismo da Vigilância”, termo cunhado pela professora Shoshana Zuboff, opera através da coleta e exploração de dados de bilhões de pessoas ao mesmo tempo. Com esse poder em mãos, plataformas conseguem mudar sociedades inteiras. Vamos lá…

Tudo começa pelo desejo de “vender a melhor publicidade”. Se o Facebook sabe que você se interessa por carros e vinhos, vai exibir anúncios de maneira muito mais assertiva e gerar resultados enormes para os anunciantes. Agora, o que acontece quando o anunciante é um partido político ou alguém querendo fisgar pessoas com tendências comportamentais a defenderem radicalmente seus interesses políticos ou pessoais? Vamos supor… E se Donald Trump quisesse mapear o comportamento do povo dos Estados Unidos e usar publicações impulsionadas direcionadas para, sei lá, virar presidente?

Foi exatamente o que aconteceu em 2016, através de uma empresa chamada Cambridge Analytica, que comprovadamente utilizou os bilhões de dados do Facebook para fazer propaganda pró-Trump disfarçada de conteúdo jornalístico, influenciando diretamente e até alterando o pensamento e comportamento de milhões de pessoas. Essa empresa é tida como protagonista no cenário eleitoral dos Estados Unidos e do Reino Unido (com o Brexit). Embora Trump não tenha sido eleito por causa disso, foi sem dúvida um dos fatores de grande influência. O caso foi exposto em 2018 pela brilhante jornalista Carole Cadwalladr, que tive a honra de ter como mediadora do meu painel de abertura na Unesco para debater regulação de mídias digitais.

Explicando o perigo: quando você abre o TikTok ou Instagram e assiste vídeos de pescaria, futebol e samba, essas plataformas não apenas armazenam o comportamento para te exibir mais vídeos interessantes, elas criam um verdadeiro mapa da sua personalidade. Um mapa completo e detalhado, capaz de prever com exatidão até como você se sente em relação a políticas públicas, como aborto e armas. Com seu consumo de vídeos em autoplay é possível saber exatamente como te influenciar na direção que eles bem entenderem, no momento em que quiserem. O mesmo pode ser obtido por curtidas em posts, comentários, compartilhamentos. Tudo que você faz é armazenado e usado para te direcionar a algum lugar. Cada foto que você abre, cada segundo a mais que você para em um post ao invés de descer rápido a tela. Elas armazenam a hora que você configura o despertador, sabem o horário do seu trabalho, quanto tempo dorme, quais comidas prefere. Eles sabem tudo que você faz, tudo que você prefere e tudo que você está suscetível a querer. Tudo!

Impedir esse armazenamento de dados para direcionar conteúdos recomendados parece uma batalha perdida. Hoje, essa é a base estrutural inteira dos lucros de Facebook, Google, TikTok, Twitter e outros. Contudo, ainda que não possamos destruir o “Capitalismo de Vigilância” por inteiro de uma só vez, nós podemos tirar uma de suas maiores armas: o autoplay.

4) Autoplay incentiva a radicalização

Por fim, chegamos, na minha opinião, no principal motivo de eliminarmos o ambiente digital desse câncer chamado autoplay: o seu potencial de radicalização e polarização de sociedades. E esse é o mais simples de explicar.

Como falei anteriormente, os vídeos em autoplay são os que mais mantêm as pessoas em uma rede social. Logo, é o que essas plataformas mais querem te entregar. Por isso, elas estudam o que você assiste e te entregam cada vez mais daquela linha de conteúdo interessante.

É natural que todos nós tenhamos interesse em assuntos políticos e sociais. Por mais que muita gente considere política como “algo chato” ou “sem solução”, a verdade é que um dos maiores picos de audiência de visualizações em plataformas estão justamente nesses conteúdos. Assuntos como aborto, criminalização das drogas, moralismo, sexualidade, racismo, sexismo, dentre tantos outros, rodam constantemente nesses aplicativos.

Agora fica uma pergunta. O que você acha que é mais interessante para a maioria das pessoas: um debate de 1 hora sobre determinado tema com especialistas ou um vídeo de 1 minuto com um radical extremista gritando soluções rápidas?

O autoplay e o imediatismo levam pessoas a se radicalizarem em vídeos que inflam suas emoções, principalmente o ódio, o medo e a intolerância. E isso vem sendo cooptado por agentes extremistas por todo o mundo. Vídeos curtos, normalmente com alguém fingindo parecer muito inteligente, mas não trazendo nenhuma fonte de suas afirmações e achismos, com milhões e milhões de visualizações. Ao serem confrontados, eles gritam “queremos liberdade de expressão” enquanto vomitam ódio e desinformação.

Os agentes anticiência descobriram a força do autoplay e dos vídeos curtos muito antes dos demais. Com seus vídeos de teorias da conspiração, conseguiram tanta projeção que, em 2019, pesquisa Datafolha mostrou que 7% da população brasileira acredita que a Terra pode ser plana (são mais de 11 milhões de pessoas!).

E aí vem a cereja do bolo: como os conteúdos extremistas deixam as pessoas muito mais curiosas e presas no aplicativo, a inteligência artificial das plataformas entende que esses são os vídeos que mais devem ir pro autoplay. Isso é intencional. Pense comigo: uma máquina sem emoções focada em colher seus dados de navegação, interpretá-los e utilizá-los para te manter cada vez mais viciado e preso na plataforma, mesmo que isso signifique te mostrar vídeos radicais e sensacionalistas o tempo inteiro. Não importa o custo, você não pode fechar o app. Por isso, as plataformas irão forçar conteúdos extremistas e radicais na sua tela, quer você queira ou não.

E foi dessa forma que nós vimos, gradativamente, familiares e conhecidos nossos irem se transformando ao longo dos últimos anos. De pessoas comuns, que não manifestavam comportamento agressivo, começaram a ficar mais explosivas, fanáticas, viciadas, extremistas, defendendo valores estranhos que nunca antes haviam manifestado interesse. Isso não aconteceu por acaso.

E agora?

Tudo bem, pode me chamar de intervencionista, mas acredito só haver uma saída para o assunto autoplay: sua exclusão do mundo digital. Não digo que banir o autoplay vai resolver todos os problemas descritos acima, pois as plataformas dependem desses problemas para fazer dinheiro. Mas, sem dúvida alguma, teremos uma melhora no cenário atual.

O simples fato de você precisar dar play em um conteúdo, em vez de ele já executar no seu rosto automaticamente, já muda MUITA coisa. Nós precisamos recuperar o controle de cada usuário definir o que quer assistir, ao invés de manter esse poder na mão de algoritmos. Que as máquinas apenas nos recomendem sugestões (com transparência do algoritmo de recomendação), mas que seja nossa a responsabilidade de escolher. Com essa simples inversão de lógica, nós damos ao usuário o direito de respirar antes de escolher consumir um conteúdo. Nesse respiro, muita coisa pode mudar.

E antes que alguém invoque a resposta padrão – “é só mudar nas configurações para os vídeos não rodarem em autoplay” –, isso está longe de ser uma realidade condizente com a maioria das pessoas. Usuários que sabem mexer nas configurações de aplicativos provavelmente são os que mais entendem de tecnologia e menos suscetíveis à influência do algoritmo. Em palavras simples: talvez você saiba mexer nas configurações e desligar o autoplay, mas a maioria não sabe, ou melhor, nem quer saber. Justamente por isso, o correto seria que todas as plataformas tivessem o autoplay desativado por padrão, oferecendo a possibilidade de ativá-lo nas configurações. Dessa forma, se você fizer questão do autoplay, ora, “é só mudar nas configurações”. Quem entende de tecnologia e do funcionamento de algoritmos terá a chance de ativar esse recurso, ao invés de mantê-lo exposto à população leiga e mais suscetível à desinformação e radicalização. E não, nenhuma plataforma deve poder recomendar às pessoas que ativem o autoplay.

Torço muito pelo dia em que veremos o autoplay como um recurso grotesco do passado, permitido apenas por um breve período em que a sociedade não estava pronta para regulamentar o mundo digital. Aquela sociedade em que alguns miolos-moles defendiam que empresários deveriam ter o poder de fazer tudo o que quisessem e como bem entendessem. Isso representaria uma vitória da saúde pública, do interesse coletivo, de maior paz e harmonia. E digo mais, isso representaria uma derrota para o radicalismo, a desinformação, o sensacionalismo, os crimes de ódio e a busca pelo autoritarismo.

Seria a primeira batalha vencida de muitas que ainda estão por vir.

Fonte: Felipe Neto/Jota    Capa: Shutterstock


[smartslider3 slider=43]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

PARCERIAS

CONTATO

logo xapuri

posts relacionados

REVISTA