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Abril Indígena: A comunicação voa, ou sobre como as notícias chegam pelo piar dos pássaros

A Comunicação Voa…

Por: Altair Sales Barbosa

É bem provável que após a chegada da primeira leva de povoadores ao Jardim das Plantas Tortas, outras levas, segundo as rotas migratórias de animais, em função da crescente coalescência da , também buscaram a mesma direção de seus antecessores e pioneiros.

Entretanto, o processo de coalescência que impulsionaria a migração faunística é lento. Isso, no mínimo, levaria décadas, o que não explica a rápida ocupação ocorrida no local num espaço de tempo bastante curto.

É de se supor, portanto, que algum método de comunicação deveria existir entre os bandos, constituídos por parentes próximos e  por organização clânica. Qual seria esse método? Sinais pelos caminhos trilhados? Provavelmente. Todavia esse método poderia ser incerto, pois, com o passar do tempo, os vestígios desaparecem e por isso o êxito não poderia ser alcançado por outras populações.

Haveria outro? É muito difícil de precisar, mas gostaria de narrar uma experiência pessoal, que muito me impressionou e que até hoje e que até hoje tento compreendê-la.

… Corria o ano de 1987 a 88 e eu me encontrava num posto de atração indígena, tentando, juntamente com outras pessoas, estabelecer o primeiro contato com os índios , nas nascentes do rio Jamari, na serra dos Pakaás Novos, em Rondônia.

Estávamos no posto de Alta Lídia, que depois teve seu nome mudando para Comandante Ari, em homenagem ao piloto Ari Dal Toé, cujo monomotor explodiu após nos abastecer de alimentos, quando decolava na pequena pista feita com enxadas.

No local havia três ranchos de palha. Um era a cozinha; o outro era o dormitório onde armávamos as redes, e o terceiro funcionava como despensa. Ao lado, em sentido transversal, existia um grande rancho coberto de palhas, sem paredes laterais.

Esse rancho, que chegava a abrigar até 30 pessoas, era frequentemente usado pelos índios Uru-Eu-Wau-Wau, recém-contatados, para o repouso durante alguns dias em jornadas de caça, ou quando transitavam da aldeia principal, que ficava a uns dois dias de caminhada em direção a uma aldeia abandonada, para se abastecerem de restos de cultígenos, principalmente inhame e batatas. Tanto os índios como nós acostumávamos nos deitar bem cedo, logo que escurecia.

Na nossa turma, havia um velho índio, Parintintin, nosso intérprete, pois conhecia a língua dos Uru-Eu-Wau-Wau. Hoje sabemos que se trata da língua Tupi-Kawahib. Os Uru-Eu-Wau-Wau às vezes ficavam dias hospedados no rancho. E as noites passavam sem nenhuma surpresa maior.

Numa certa noite, já era bem tarde, todos nós acordamos de sobressalto e assustados, pois os índios, num grande círculo, cantavam e dançavam no pátio em frente aos nossos ranchos. Ficamos perplexos, sem entender a situação, até que indagamos ao velho índio Parintintin o que estava acontecendo. Foi quando ele nos falou:

– Eles estão dançado porque dizem saber que amanhã chegará um novo grupo de índios que faz tempo que eles não encontram. Trata-se de um grupo novo, ainda não contatado, portanto nossos desconhecidos.

Foi então que eu lhe perguntei:

– Mas como é que eles sabem?

O índio Parintintin pediu para eu escutar o  pássaro que piava. Pude ouvir umas duas vezes. Ele então me falou que o pássaro estava, através do seu piado, avisando aos Uru-Eu-Wau-Wau sobre a chegada dos parentes. A cantoria durou mais ou menos uma hora. Depois voltamos a dormir.

No outro dia bem cedo, quando me dirigia até a cozinha para preparar um chá ou café da manhã, avisto, vindo da pista de pouso em direção aos ranchos, um grupo de cerca de oito índios, todos paramentados, empunhando arcos e flechas. Então voltei correndo para avisar aos companheiros.

Durante muitos anos de convívio com as populações indígenas, confesso que esse foi um dos fatos que mais me impressionou e me fez refletir sobre o ocorrido, pois fico a indagar: será que existe ou existia entre as populações de ameríndios “isolados” algum sistema de comunicação, através de fatores ou vozes naturais?

… Retomando o rumo da narrativa, o fato é que, logo após a chegada dos primeiros povoadores à área do Sistema do , outras levas começaram a chegar.

Altair Sales Barbosa – Arqueólogo. Antropólogo, em “O piar da Juriti Pepena – Narrativa Ecológica da Ocupação Humana no Cerrado” – Editora PUC-Goiás, Goiânia, 2014.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uru-eu-wau-wau em Alta Lidia. Foto: Jesco von Puttkamer acervo IGPA/UCG. IMPORTANTE: Esta foto histórica foi postada na capa da matéria e foi censurada pelo Facebook.  Fizemos, então, a substituição pela foto do Adrian Cowell, postada previamente pelo ISA.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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