A fuligem que escurece os nossos dias

A fuligem que escurece os nossos dias

Carta a uma amiga em Paris

Querida amiga Cecília. Que bom falar com você, aí em Paris, onde faz doutorado em Economia, realiza sonho antigo, e caminha cada cada vez mais para ser forte defensora de um mundo melhor. Conheço-lhe o suficiente para saber que seu foco é a diminuição das desigualdades sociais, às quais teimam em se aprofundar, principalmente em nosso país.

Como sabes, recentes dados do IBGE apontam que o disparate entre pobres e ricos é aviltante. Dos 55 milhões de pobres, 15 milhões estão em estado de extrema pobreza, pois vivem com menos de 140 reais mensais, alguns chegam a ganhar míseros 89 reais. Por essas plagas, negros e mulheres são abatidos como moscas, muito acima das guerras. Só em 2017 ocorreram 65 mil assassinatos de negros, média de 179 casos por dia. Neste mesmo ano, foram registrados quase 5 mil assassinatos de mulheres, 13 por dia. O número de desempregados ultrapassa a casa dos 12 milhões. O PIB é quase zero. Que carma é esse que carregamos, amiga?

Enquanto isso, o atual governo debate, entre outras, as seguintes questões: o nazismo era de esquerda, a terra é plana, a ditadura militar nunca existiu, Trump é a encarnação de Deus, os dados do desmatamento na Amazônia são “sensacionalistas” e mancham a imagem do Brasil lá afora. Você deve ter visto, na mídia internacional, as imagens chocantes da fumaça que encobriu de cinzas 3 mil quilômetros na América do Sul. A maior floresta tropical da Terra arde. São Paulo ficou às escuras, sem a luz natural do dia! Fora isso (?) e outros fatos que nublam as nossas vidas, o Brasil ainda mantém-se de pé. É rico em diversidade; o povo anda desanimado, mas é trabalhador e esperançoso.

Como vai a vida por aí? Sei que estudas bastante. Já visitou os jardins de Monet, em Giverny, como querias? O namoro com Pierre vai bem? Fico feliz em saber que conheceu uma pessoa legal. Eu, particularmente, ando enfastiada com esse misto de notícias tristes e de perplexidade. Prefiro a literatura, aonde me refugiei. Como dizia Nietzsche: “Temos a arte para que não morramos da verdade”.
Rogue a Notre Dame, a Nossa Senhora que enfrentou também as chamas. Peça que abrande a ira, a ganância, os interesses escusos e incendiários dos homens. Resistir é preciso. Abraços fraternos.

Maria Félix Fontele

P.S. Quero ver a nossa Amazônia sempre bela e exuberante. Também as gerações futuras hão de vê-la assim.

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