A lagoa feia

A lagoa feia

A lagoa feia

A Lagoa Feia era já conhecida desde os primórdios da exploração do Brasil Central, pelo menos no início do século XVII. A planura que a circunda, no lado leste e norte, naturalmente, era o caminho que se abria para quem vinha de Minas Gerais, ou dos sertões da Bahia, para o oeste. Ali, a “Picada da Bahia” se unia à “Picada de Minas”, por uma variante da estrada que ligava Paracatu a Santa Luzia, um desvio para o norte, desde a passagem de Arrependidos…

Por Alfredo A. Saad

O divisor de águas das bacias dos rios São Francisco, Tocantins e Prata percorre o planalto, de leste para oeste, exatamente à altura de Formosa. Às margens do córrego Josefa Gomes, o formador da Lagoa Feia, é que foi erigido o Registro que controlava o trânsito de ouro, de escravos e de mercadorias. Diz a lenda que era ali que os primeiros habitantes da região reuniam-se para trocar sua produção de couros e peles por sal e fazendas (principalmente tecidos e ferragens) vindos do litoral. As trocas deveriam acontecer num pouso de tropeiros, comumente encontrado ao lado das casas de registro.

O sal ali recebido não se destinava preferencialmente ao consumo humano: criava-se gado, nas redondezas, especialmente no Vão do Paranã, e a carde seca, evidentemente salgada, era uma das fazendas que constam das listas de mercadorias que transitavam pelo Registro.

Formosa nasceu nas proximidades do Registro da Lagoa Feia, inicialmente como o Arraial dos Couros. O Registro ficava exatamente num ponto que, pela facilidade que oferecia ao trânsito, deveria constar de todos os roteiros orais dos bandeirantes e dos roteiros dos aventureiros que se arriscavam solitários, ou em pequenos grupos, que buscavam meios de sobrevivência, mesmo que não fosse garimpando ouro. Eram vendedores de carne seca, de sal, de cereais, de ferramentas e de tecidos, tentando burlar o monopólio da coroa na comercialização desses bens.

O ponto exato onde se erigia o Registro ficava no plano acima da cabeceira norte da Lagoa Feia, a uns 400 ou 500 metros dela e a igual distância da extremidade da serra do General, a serra de São Pedro. Por ali corre o Josefa Gomes, ainda o principal alimentador da Lagoa.

Era ali, também, onde o córrego não excedia os 2 metros de largura e pouco mais de 30 centímetros de profundidade, que, possivelmente, passava a Picada para Meia Ponte e Vila Boa, para quem vinha dos currais das margens do rio São Francisco. Esse caminho, contudo, não é citado nos registros oficiais da época.

O caminho para Couros era um desvio para o norte da estrada de Vila Boa-Paracatu. Esse desvio ligava a passagem de Arrependidos, onde também foi construído um registro, ao Registro da Lagoa Feia.

Assim, entre a passagem de Arrependidos e a passagem ao norte da Lagoa Feia, mesmo antes da existência dos Registros, devia haver duas trilhas não oficiais e ilegais, abertas pelas tropeiros e pelos exploradores que por ali vagavam: uma delas, seguindo de Arrependidos para o norte, passando a leste do rio Preto; a outra, também partindo o mesmo ponto e fazendo uma curva suave para oeste do rio Preto e ultrapassando pequenos riachos, seus afluentes: o rio Jardim, o riacho Retiro-Jacaré e o riacho Santa Rita.

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O que não se sabe e sobre o que não se podem levantar hipóteses é se essas trilhas foram abertas do Sul para o Norte (a partir de Arrependidos), ou se do Norte para o Sul (a partir da passagem seca na extremidade da Lagoa Feia).

Ao longo da trilha, a oeste do rio, é que começaram a surgir pequenos assentamentos de posseiros e as proibidas roças de cana-de-açúcar e plantações de abóbora e de mandioca. Foi ao lado dessa trilha, às margens de um pequeno regato, afluente do córrego do Brejo, por sua vez originador do Josefa Gomes, que se formou a povoação de Couros.


Alfredo A. Saad – Escritor, em Álbum de Formosa – um ensaio de história de mentalidades, obra póstuma, publicada pela família.


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora