A MORTE ANUNCIADA DE JOSIMO TAVARES
“... Estou empenhado na luta pela causa dos pobres lavradores indefesos, povo oprimido nas garras dos latifúndios. Se eu me calar, quem os defenderá? Quem lutará a seu favor?(…) Nem o medo me detém. É hora de assumir. (…) A minha vida nada vale em vista da morte de tantos pais lavradores assassinados, violentados e despejados de suas terras, deixando mulheres e filhos abandonados, sem carinho, sem pão e sem lar. É hora de se levantar e fazer a diferença. Morro por uma causa justa!” Josimo Tavares
Por Pedro Tierra
Há um dizer antigo
entre os homens da raça dos rios:
a morte, quando se anuncia,
devora a sombra do corpo
e inventa a luz da solidão.
Você se afastou sob o sol.
Era 14 de abril.
Busquei-lhe a sombra
sobre o chão da rua
e não havia sombra.
Ainda busquei tocá-lo.
Falamos da vida
e da morte
(a arma que me matará
já está na oficina…)
E você sorria manso
desde a defendida
solidão dos místicos.
Falamos da luta
e da necessidade de prosseguir
(os tecelões da morte
forçam os teares,
arrematam os fios
do tecido que te cobrirá…)
Incendiaram
nossas casas.
Destruíram plantações.
Saquearam celeiros.
Derrubaram cocais.
Envenenaram as águas.
Invadiram povoados.
Torturaram nossos pais.
Arrancaram as orelhas dos mortos.
Atiraram nos rios corpos mutilados.
Derrubaram a cruz que erguemos,
sinal aceso de nossa memória.
Cortaram a língua dos nossos irmãos.
Violaram nossas filhas.
Assassinaram inválidos.
Queimaram a sangue e fogo
a terra que trabalhamos.
(…)
Todos sabiam dessa morte.
A cerca do latifúndio sabia.
Os pistoleiros, os assalariados da morte,
a polícia fardada e paisana, o GETAT,
os garimpeiros, os bêbados, as prostitutas,
as professorinhas, as beatas,
as crianças brincando no areal da rua
sabiam.
Os homens da terra, os posseiros, os saqueados,
as mulheres alfabetizadas pela dor
e pela espera
sabiam.
O prefeito, o juiz, o delegado, a UDR,
os fazendeiros, os crápulas
sabiam.
As mãos dos assassinos
poliam as armas.
A igreja sabia
e esperava…
A haste orgulhosa do babaçu
sabia.
E dobrava as palmas num lamento
e multiplicava a ciência dessa morte,
os passarinhos, o relógio dos templos
mastigando o comboio da horas
e não se deteve, a água dos rios
não se deteve, fluindo irremediável
a hora dessa morte.
A pedra dos caminhos
sabia
e permaneceu muda,
o vento sabia
e anunciava seu gemido todavia indecifrável
Tuas sandálias sabiam
e continuaram a caminhar.
Eu, que nasci votado à alegria
e vivo a contar o rosário interminável
dos mortos
não fiz o verso,
espada de fúria,
que cindisse em dois
o comboio das horas
e descarrilasse o tempo de tua morte.
Você sabia.
E sorria
apenas.
Como quem se lava
para chegar vestido
de algodão
e transparência
à hora da solidão.
Quem é esse menino negro
que desafia limites?
Apenas um homem.
Sandálias surradas.
Paciência e indignação.
Riso alvo.
Mel noturno.
Sonho irrecusável.
Lutou contra cercas.
Todas as cercas.
As cercas do medo.
As cercas do ódio.
As cercas da terra.
As cercas da fome.
As cercas do corpo.
As cercas do latifúndio.
Trago na palma da mão
um punhado de terra
que te cobriu.
Está fresca.
É morena, mas ainda não é livre
como querias.
Sei aqui dentro
que não queres apenas lágrimas.
Tua terra sobre a mesa
me diz com seu silêncio agudo
– Meu sangue se
levantará
como um rio acorrentado
e romperá as cercas do mundo.
(…)
Goiânia, maio/86
Pedro Tierra, poeta da Liberdade
SOBRE A MORTE ANUNCIADA DE JOSIMO TAVARES
Depois de 35 anos de sua morte anunciada – e consumada a mando do latifúndio –, Josimo de Morais Tavares, mártir da luta em defesa dos trabalhadores rurais sem terra da região conhecida como Bico do Papagaio, na divisa dos estados do Maranhão e (hoje) Tocantins, continua presente nos movimentos e conquistas da luta pela terra.
Em todo o Brasil, centenas de Acampamentos de Sem-Terra e Assentamentos da Reforma Agrária persistem na resistência sob o nome do padre católico, coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Bico do Papagaio, assassinado no dia 10 de maio de 1986, enquanto subia as escadas do prédio da Mitra Diocesana de Imperatriz (MA), onde funcionava o escritório da CPT Araguaia-Tocantins.
Josimo foi assassinado aos 33 anos de idade (1963–1986), com dois disparos de uma pistola calibre 7,65 mm, pelo pistoleiro Geraldo Rodrigues da Costa, com a participação de Vilson Nunes Cardoso. Em seus últimos anos de vida, sofreu vários atentados. Com a morte anunciada, registrou seu “testamento” ante a Assembleia Diocesana de Tocantinópolis (MA), em 27 de abril de 1986, poucos dias antes da sua partida.
“... Estou empenhado na luta pela causa dos pobres lavradores indefesos, povo oprimido nas garras dos latifúndios. Se eu me calar, quem os defenderá? Quem lutará a seu favor?(…) Nem o medo me detém. É hora de assumir. (…) A minha vida nada vale em vista da morte de tantos pais lavradores assassinados, violentados e despejados de suas terras, deixando mulheres e filhos abandonados, sem carinho, sem pão e sem lar. É hora de se levantar e fazer a diferença. Morro por uma causa justa!” Josimo de Morais Tavares
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O Padre Cícero Elaborou preceitos que ensinava aos sertanejos (Veja o livro Pensamento vivo do Padre Cícero. Rio de Janeiro: Ediouro, 1988):
- Não derrube o mato, nem mesmo um só pé de pau;
- Não toque fogo nem no roçado nem na Caatinga;
- Não cace mais e deixe os bichos viverem;
- Não crie o boi nem o bode soltos: faça cercados e deixe o pasto descansar para refazer;
- Não plante em serra acima nem faça roçado em ladeira muito em pé; deixe o mato protegendo a terra para que a água não a arraste e não se perca sua riqueza;
- Faça uma cisterna no oitão da sua casa para guardar a água da chuva;
- Represe os riachos de cem em cem metros, ainda que seja com pedra solta;
- Plante cada dia pelo menos um pé de algaroba, de caju, de sabiá, ou outra árvore qualquer, até que o sertão seja uma mata só;
- Aprenda a tirar proveito das plantas da Caatinga, como a maniçoba, a favela e a jurema; elas podem ajudar a conviver com a seca;
- Se o sertanejo obedecer a estes preceitos, a seca vai aos poucos se acabando, o gado melhorando, e o povo terá sempre o que comer;
- Mas, se não obedecer, dentro de pouco tempo o sertão vai virar um deserto só.
Todas estas dicas teóricas (mente) e práticas (mãos) podem nos conferir a esperança de que é possível alcançar a sustentabilidade da vida, da humanidade e da Terra.
As atuais dores não são de morte, mas de parto, de um novo nascimento. A Terra e a humanidade vão continuar e vão ainda irradiar, pois para isso existimos dentro do processo da evolução em aberto.

Flores da Caatinga – Foto: Revista Fapesp
Publicado originalmente em 12 de abril de 2016
