A urdidura da Nação e o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães
O Corolário Trump exige dos brasileiros uma nova trama sobre os fios seguros e firmes da nossa autonomia estratégica
Para o Brasil, um desses fios-mestres é a busca pela autonomia estratégica nas relações externas, o direito de decidirmos o nosso próprio destino sem a tutela de potências estrangeiras. A autonomia estratégica é um princípio que nos orienta desde as decisivas palavras de Dom Pedro I no Dia do Fico.
Esse fio condutor da nossa política externa dialoga com o ideal representado por Bolívar e consagrado no Congresso do Panamá de 1826 – para o qual o Imperador Dom Pedro I foi convidado e aceitou o convite -, o de criar um ambiente de paz e defesa mútua entre os países latino-americanos com base na solução pacífica de conflitos e numa unidade soberana frente às potências externas.
Nos tempos recentes, três grandes fios teceram essa continuidade entre o passado e o presente na urdidura do destino nacional: a política externa independente de Jânio Quadros e João Goulart, conduzida por chanceleres como Afonso Arinos, San Tiago Dantas e Araújo Castro; o pragmatismo responsável e ecumênico de Geisel e seu chanceler Saraiva Guerreiro; e a política externa altiva e ativa dos governos Lula, sob a chefia do chanceler Celso Amorim e com protagonismo decisivo de Samuel Pinheiro Guimarães como Secretário-Geral.
Quando o fio da autonomia estratégica retornou ao centro do poder com Geisel e Saraiva Guerreiro, Samuel Pinheiro Guimarães foi nomeado assessor especial do gabinete do chanceler, contribuindo para as grandes conquistas diplomáticas daquele período, como o reconhecimento do governo socialista de Angola, a luta pela soberania tecnológica no campo nuclear – que motivou o rompimento do acordo militar com os EUA – e a integração sul-americana na defesa da Amazônia com o Tratado de Cooperação Amazônica.
O embaixador pagou o preço da sua coerência e firmeza. No governo Figueiredo, deixou a vice-presidência da Embrafilme diante da reação política contra o apoio da empresa ao filme “Pra Frente Brasil”, que mostrava a tortura contra militantes políticos. No governo FHC, foi exonerado da direção do Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais do Itamaraty por criticar publicamente a ALCA -Aliança de Livre Comércio das Américas, uma reedição atualizada da proposta do hegemonismo dos EUA derrotada no Congresso Pan-Americano do final do século XIX.
A indignação na sociedade com a exoneração foi imensa e ele passou a simbolizar a resistência patriótica contra a ALCA, tendo suas entrevistas e palestras alimentado a campanha que coletou mais de três milhões de assinaturas e realizou plebiscito em que mais de dez milhões de brasileiros manifestaram sua rejeição ao projeto.
Sua coragem e coerência o reconduziram ao centro do poder e o recompensaram logo em seguida: como Secretário-Geral do Itamaraty no governo Lula, ajudou a formular a política que enterrou a ALCA, afirmou o Brasil no mundo e fez retornar, sob novo nome e roupagem, os princípios da política externa independente de Jânio e Jango e do pragmatismo responsável e ecumênico de Geisel.
O embaixador deixou dois livros a serem publicados, um sobre os EUA, China, Rússia e Brasil e um livro de memórias a partir de depoimentos dados à FGV -Fundação Getúlio Vargas.
As novas ameaças trazidas pelo Corolário Trump – que é a Doutrina Monroe na sua explícita brutalidade – exigem que componhamos uma nova trama sobre os fios seguros e firmes da urdidura estratégica nacional. A hora é de sabedoria e coragem. Como ensinou Sun Tzu, “Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas.”
Por isso, precisamos conhecer a essência do projeto hegemônico dos EUA, forjado na Doutrina Monroe e na ideologia racista do Destino Manifesto. Acima de tudo, conhecer a nós mesmos para reconhecer o destino nacional, o tesouro que Darcy Ribeiro identificou: uma nova civilização em gestação.
Samuel Pinheiro Guimarães já não está entre nós. A melhor forma de homenageá-lo é honrar o seu legado, defendendo a nossa soberania, especialmente sobre a Amazônia, pela qual ele tanto lutou – especialmente agora quando uma potência invadiu um país amazônico sob um pretexto qualquer e sequestrou o seu presidente para explorar livremente as suas riquezas.
Desenvolvê-la para os mais de 28 milhões de brasileiros que nela vivem e trabalham, realizando as grandes obras de infraestrutura de energia e viária, fazendo uso racional e equilibrado de suas riquezas vegetais e minerais, combatendo a biopirataria e a ação encoberta de governos estrangeiros na definição de políticas públicas por meio de supostas organizações não-governamentais. E, imediatamente, aumentando a nossa presença militar.
É o que Samuel Pinheiro Guimarães defendeu durante toda a sua vida acadêmica e profissional e condensou em 2009-2010, quando Ministro-Chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, na “nova doutrina para a Amazônia”, parte do projeto “Brasil 2022”, com metas para o bicentenário da Independência.
Será assim, ancorados na urdidura que nos estrutura desde o “Fico”, que venceremos com sabedoria e coragem os imensos desafios do presente e teceremos o futuro que nos promete o destino nacional. A hora é agora.
