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A vingança do Estado contra o mercado

Por Emir Sader

A ascensão do neoliberalismo foi feita à custa de desqualificar o Estado. Que seria ineficiente, burocrático, arrecadador excessivo de impostos, que gastaria mal, que seria fonte da corrupção na sociedade. O Estado teria que deixar de ser solução, para ser problema, nas palavras de Ronald Reagan. Daí a proposta do Estado mínimo, que representa, por oposição, a centralidade do mercado.

A forma de impor a hegemonia do mercado sobre o Estado foi propor a alternativa estatal versus privado, que comandaria as alternativas no mundo contemporâneo. O estatal é desqualificado na forma mencionada acima. O polo oposto seria dado pela “sociedade civil”, pela suposta esfera privada, composta pelos indivíduos.

Daí o desmonte do Estado, com a privatização de empresas públicas, com a diminuição do quadro de servidores públicos e das políticas sociais. A centralidade do mercado significa a promoção dos objetivos centrais do neoliberalismo: remodelar a sociedade, com a sua mercantilização, segundo as normas que orientam os shopping centers: onde tudo é mercadoria, onde tudo se vende e se compra, onde tudo tem preço.

A esfera democrática é a esfera pública, em que se atende o interesse de todos, em que o sujeito é o cidadão, entendido como sujeito de direitos.

No momento atual, essa polarização aparece sob a forma de saúde – economia. A defesa da saúde é a defesa do direito de todos, feito pela esfera pública. O privilégio da defesa da saúde de todos é a via democrática de enfrentar a crise que vivemos.

A pandemia nos vitima mais, porque nos pegou com o Estado brasileiro enfraquecido por anos de restabelecimento do modelo neoliberal, que debilitou o SUS e toda a esfera pública. Além de estarmos com um governo sem capacidade de comando, para tomar medidas drásticas no enfrentamento da pandemia. Em outros países, governos de direita assumiram posturas distintas, recuperando força para comandar o país na resistência contra os efeitos da pandemia.

No Brasil, ao contrário, a atuação de Bolsonaro só aumentou os graves efeitos da pandemia, levando rapidamente o país a novo epicentro da pandemia em escala mundial. No entanto, o governo teve que ceder, com muita resistência, à liberação de recursos para atender aos milhões de brasileiros desvalidos. Muito insuficientes, que não chegam a milhões deles, mas teve que romper com os ajustes fiscais do Paulo Guedes, confessando que não é o mercado, mas o Estado, quem pode atender os brasileiros, nos momentos de maior necessidade.

O SUS, golpeado e enfraquecido nos últimos anos, reconquistou prestígio, mostrando que é a esfera pública quem pode atender a todos, sem distinção e discriminação, e não os planos privados de saúde. Foi a ciência quem recuperou prestígio, na hora de maior necessidade de salvar vidas e não a religião.

São as universidades públicas e os centros públicos de pesquisas, que protagonizam os grandes debates e as grandes pesquisas e fabricação de materiais que favorecem a árdua luta do pessoal de saúde pública. São estes e não os consultórios privados, quem atende, denodadamente, já com centenas de mortos nesse combate, a todos os pacientes.

O Brasil sairá distinto dessa imensa crise. Se formarão médicos com mentalidades distintas, muito mais voltados para a atendimento público em hospitais e centros públicos, e menos médicos para, depois de formar-se nos melhores cursos de medicina, gratuitamente, em universidades públicas, para ganhar dinheiro atendendo clientela rica nos bairros chiques da cidade.

O papel do Estado, a começar pelo SUS, será muito mais valorizado. Assim como o das universidades públicas e de todo o pessoal de saúde pública, verdadeiros novos heróis na luta pela defesa da vida dos brasileiros.

É o Estado, nas suas distintas instâncias, quem assume essas responsabilidades, evidenciando como um Estado democrático pode atender a todos, enquanto o mercado só atende a quem tem poder aquisitivo. O Estado pode ser o grande instrumento de luta contra a desigualdade e a exclusão social, se for um Estado democrático, guiado por um governo democrático e popular.

Emir SaderEmir Sader – Sociólogo. Membro do Conselho Editorial da Revista Xapuri.

 

 

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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