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Alexandre Ribondi: O andarilho de muitas artes

Alexandre Ribondi: O andarilho de muitas artes

“A diferença é bonita, criativa. Eu quero ser respeitado na minha diferença, não luto pra ser igual. Eu quero o direito à esquisitice!” – Alexandre Ribondi 

Alexandre Dumas Valadares Ribondi tomou o rumo dos mistérios do infinito neste sábado, 10 de junho de 2023. À maneira de , compartilhamos este perfil dele, escrito e publicado pelo jornalista na edição de novembro de 2018 da . Além de amigo, Jaime era fã de carteirinha do genial Alexandre Ribondi. Como diria o Jaime, encantado em 14 de julho de 2021, se por aqui estivesse: Boa Viagem, Ribondi. Paz e Bem.  

Por Jaime Sautchuk 

Seu apego às várias artes vem de nascença. Seu pai queria que seu nome fosse Vitor Hugo, em homenagem ao mestre da literatura francesa. Mas, na hora do batismo, o padre disse que o nome não servia, pois o homenageado era severo crítico da Igreja Católica no século XIX, além de ser maçom.

Contrariado, o pai determinou que então o nome fosse Alexandre Dumas, outro francês, também mestre das letras e do teatro, também defensor dos e contemporâneo de Vitor Hugo. Assim, surgiu Alexandre Dumas Valadares Ribondi, capixaba de nascimento, candango por adoção, mas andarilho por opção, irrequieto viajante, na vida real e na ficção.

Seu pai era professor de Latim, arranjador de flores, consertador de instrumentos de corda e fazedor de brinquedos de madeira, coisas que gostava de fazer. Contudo, pra ganhar o pão, era barnabé. A mãe também era funcionária pública, mas curtia a habilidade que tinha e costurava pra fora.

Alexandre Ribondi, como é conhecido, nasceu em dezembro de 1.952, na pequena Mimoso do Sul (ES), mas se considera filho de Cachoeiro do Itapemirim, terra do cantor Roberto Carlos e de tantos outros nomes das artes. Por fim, carrega a carteirinha de candango, comedor de poeira, pois ele se mudou pra Brasília em 1968.

Ele pretendia ir pro Rio de Janeiro tentar a vida por lá, mas mudou de rumo por incentivo da família, que tinha a nova capital como uma cidade ainda em obras, de futuro promissor. O menino recatado, tímido, agora teria que se virar pra continuar os estudos e descobrir alguma profissão.

VIADO VERMELHO

Ainda criança, Alexandre foi levado por sua mãe ao cinema, pra assistir “Marcelino Pão e Vinho”, alegre drama espanhol de 1955, que comoveu o mundo. Ao sair, ele comunicou a ela que “quando eu crescer eu vou ser ator”. Ela foi taxativa: – “Não criei filho meu para ser palhaço de ninguém”.

Àquela altura, porém, ele já tinha na pequena alma o traço marcante da personalidade do menino do filme: a rebeldia. A mãe que ficasse querendo um filho bem comportado, que virasse funcionário do poder central, com terno e gravata, igual aos outros. Ele seria o que quisesse. Se possível, bem diferente dos demais. Dito e feito.

Hoje, tantos anos se passaram, mas ele se mantém firme. “A diferença é bonita, criativa. Eu quero ser respeitado na minha diferença, não luto pra ser igual. Eu quero o direito à esquisitice!”, resume Alexandre. E assim, mantendo sua individualidade, faz questão de tomar parte das lutas gerais da sociedade por um mundo melhor.

Essa posição ele já tinha na época da ditadura, tempos que foram negativamente marcantes e que ele se empenha pra que não voltem. E conta:

A gente tinha de lutar em duas frentes: contra o regime e dentro da esquerda. A esquerda nos rechaçava. Quando fui preso, foi dito por um companheiro que estava próximo — e isso eu ouvi —, que não tinha importância, porque era “só mais um viado”. E eu fui torturado também por ser viado. Naquele momento, os dois se encontraram. Até que começamos a gritar: não vamos esperar a revolução para gozar!

Alexandre estava, de igual modo, no grupo de jornalistas que criou o hoje tradicional bloco carnavalesco “Pacotão”, na capital do país, em 1978. Mas, ele e uns amigos criaram uma ala dentro do bloco, chamada “Bunda do Delírio”, que tinha até estandarte próprio. Ele conta que “aquilo foi o prenúncio do Grupo Homossexual Beijo Livre, de luta pelos direitos da comunidade gay da capital, que estava formando sua identidade, o seu jeito de ser, a sua resistência à ditadura”.

Mais do que isso, ele vê uma forte similitude entre o teatro e o Carnaval, já que um tem elementos do outro, “como a fantasia, o delírio, o desafio, o desabrochamento da alma, ser quem você não é na banalidade da vida que leva”. Ademais, “teatro e carnaval têm ousadia, tem subversão, sexo desafiador – essas coisas que todos praticamos e de que nunca

esqueceremos”. Em verdade, segundo ele, desfile de escola de samba é ópera a céu aberto.

ESTÉTICA DO

Desde os primeiros tempos em Brasília, ele se enfronhou na área teatral, se unindo a pessoas que topavam encenar peças em espaços públicos, em espetáculos mambembes, improvisados. Mas aqui foi, pra ele, o embrião de algo muito maior, com um jeito próprio de fazer teatro. E explica:

A estética do Cerrado surgiu, de certa forma, da liberdade que tínhamos no começo de tudo. Não havia galardões do teatro para torcer o nariz para o que estávamos fazendo. Não tinha avó ou tia solteira pra ficarem escandalizadas.

Então, a liberdade era embriagadora, e fomos aprendendo a fazer o nosso teatro, uma mistura de mambembe nacional com conhecimento das artes europeias. Hoje, eu uso Brasília e o Cerrado como cenário das minhas peças. Nelas, entram o Lago Paranoá, a seca, a poeira, as cigarras. A amplidão e a solidão brasilienses também estão presentes.

O fato é que, ao fazer o vestibular e ingressar na Universidade de Brasília (UnB), escolheu a área de Comunicação Social, curso de Jornalismo, profissão que também adotou, sem nunca deixar os palcos.

A essa altura, ele já havia ingressado no metiê, como foca (repórter iniciante) do jornal Correio Braziliense, principal órgão da imprensa brasiliense. Desde logo, foi cobrir o setor cultural, o que caiu como uma luva pra ele, pois coincidia com a área em que já circulava com desenvoltura.

Como escrevia bem – algo que a academia não ensina –, produzia matérias que agradavam ao grande público, de modo que rapidamente se tornou bem conhecido e admirado. Este foi o gancho, também, pra que ganhasse espaço na mídia nacional.

Fez parte do conselho editorial e foi correspondente em Brasília do jornal alternativo “Lampião da Esquina” (1978-1981), criado no Rio de Janeiro por um grupo de intelectuais, entre os quais o pintor Darcy Penteado, o jornalista Jean-Claude Bernardet e o escritor Aguinaldo Silva. Era inspirado na revista “Gay Sunshine”, porta-voz do ideário homossexual nos Estados Unidos.

GRANDES PAIXÕES

Hoje, Alexandre prefere viver só e se dedicar às suas artes. Leva, como ele diz, “uma vida bem simples, e típica de uma pessoa levemente preguiçosa”. E arremata: – “Gosto de ficar em casa e tudo começa cedo. Faço café, depois faço almoço, depois leio e divago e no fim do dia vou trabalhar: dar aulas de teatro ou ensaiar uma nova peça”.

No passado, porém, manteve “dois longos e lindos casamentos”. O primeiro, desde bem jovem, foi com outro jornalista de Brasília, que tinha a guarda de um filho, criança, de um caso anterior, e que passou a viver com eles. O outro foi durante os anos em que ele morou em Portugal, com um escritor lusitano.

Muitas vezes, casos de amor e sexo migram da realidade pra ficção, com muita naturalidade, em seus escritos. É o que se dá, por exemplo, no romance “Da Vida dos Pássaros”, ambientado em Lima, no Peru, onde ele viveu por uns tempos, ainda na década de 1970. Ou em várias das dezenas de peças teatrais que já escreveu e que são encenadas no mundo todo, por ele mesmo ou por diretores locais que gostam da sua dramaturgia.

Mas, no fim das contas, a grande paixão de Alexandre Ribondi é mesmo o teatro. Há sete anos, ele largou o jornalismo e outros afazeres pra se dedicar exclusivamente a isso. São novas peças, novas montagens e outras viagens.

Nos últimos dois anos, por exemplo, ele se dedica à Casa dos 4, um espaço cultural criado por ele, a atriz Luísa Marillac e a produtora Elisa Mattos na Asa Norte, em Brasília. Ali, eles desenvolvem múltiplas atividades, que incluem escolinha de teatro, montagens de peças de curta temporada, cozinha pra gastronomia e uma pequena galeria de artes.

Jaime Sautchuk – Jornalista Escritor. Fundador da Revista Xapuri.. Encantado em 14 de julho de 2021. 


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Uma resposta

  1. A Homenagem é muito merecida e é generosidade da Xapuri, nos trazê-la hoje quando nos despedimos do Xande, do Alex, do Alexandre, conforme nosso gosto! Que autor é homenageado encontrem a Paz é que ela seja também interessante!💚🪷

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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