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Alice, o gato risonho e a transição ecológica

Alice, o gato risonho e a transição ecológica

Em debate virtual, recente, respondi à pergunta sobre transição ecológica como o Gato Risonho respondeu à Alice, perdida no mundo da fantasia, sobre qual caminho deveria seguir: depende aonde quer chegar (1).

Por Gilney Viana

Diferente de Alice, meu ponto de partida é o mundo real, a Terra, que pela cognição do eu coletivo está em transe, rumo a outro equilíbrio ecológico, em função dos impactos provocados pela civilização industrial.

Meu ponto de chegada é uma nova civilização que supere a crise ecológica e sua principal determinação, o capitalismo e todas as formas de poder que lhes dá sustentação – alternativa que identifico como ecossocialista.

Definidos o ponto de partida real e antevisto o ponto de chegada utópico concreto, como definiria Ernest Bloch (2), identifico o caminho como transição ecológica sistêmica. Essa coerência teórica, contudo, foi questionada a partir de perguntas pertinentes.

Em outra oportunidade, fui confrontado por um militante estudioso que recorreu à autoridade moral e intelectual de Noam Chomsky, respeitado intelectual socialista norte-americano. Admite Chomksy: “Os dois esforços, evitar o desastre ambiental e desmanchar o capitalismo em prol de uma sociedade mais livre, justa e democrática, podem ocorrer em paralelo”. (p.186) (3).

Contudo, introduz na discussão a escala do tempo, ou, melhor dizendo, o tempo que temos para evitar o desastre ambiental (que está datado para a década de 1950 pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima – IPCC, sigla em inglês) e o tempo que imaginamos ter para desmanchar o capitalismo (que não está nem pode ser datado). E conclui assertivamente: “É impossível desmantelar o capitalismo na janela do tempo de que dispomos para tomar medidas urgentes…” (p. 185).

Essa tese de Chomsky confronta aquela parte de minha resposta a Alice que associa necessariamente a superação da crise ecológica à superação do capitalismo. E exigirá uma defesa mais consistente da tese à qual me filio de que há limite ecológico ao crescimento econômico, ou, expansão ampliada do capital. Porque além deste limite seria a catástrofe. (4)

Neste momento, contudo, vale focar na consequência prática dessa assertiva de Chomsky, que é a defesa do Green New Deal Global como uma proposta de superação da crise ecológica independente de superação ou não do capitalismo. Diria, uma proposta de transição ecológica não antissistêmica, não anticapitalista.

Robert Pollin, um dos formuladores do Green New Deal Global que partilha essa entrevista com Chomsky, defende que além do enfrentamento da emergência climática ele “servirá de força motriz para transformar o capitalismo, afastando-o de seu atual interregno entre o neoliberalismo e o neofascismo” (p. 103).

Seria o ponto de chegada do Pollin. E, para ser efetivo, propõe uma série de medidas econômicas que levariam a zerar as emissões globais líquidas de CO2 até 2050, que exigiriam investir 2,5% do PIB Global ao ano, que corresponderiam de 2 a 3 trilhões de dólares por ano. Até agora, não há projeto e nem governança global para tanto, como apontaremos.

As principais iniciativas de impacto global são menos ambiciosas: a proposta de “Reconstruir Melhor” do presidente Biden (Estados Unidos) anunciou investimento total de 4 trilhões e só conseguiu aprovar no Congresso um Plano de Infraestrutura de 1 trilhão de dólares; o Pacto Ecológico da União Europeia, focado no emprego, anuncia um plano total de 1 trilhão de dólares; e o 14º Plano Quinquenal da China, do qual não conheço as dimensões financeiras dos investimentos ambientais, estão focadas também na infraestrutura. Somados, nada comparável aos 2,5% do PIB global, propostos pelo Green New Deal Global.

No plano multilateral, o palco das negociações políticas foi transferido para a Convenção sobre Mudança do Clima. A meta de zerar as emissões globais líquidas de CO2eq até 2050 não encontrou correspondência no somatório das metas nacionais tanto na COP 21 (Paris, 2015) como na COP 26 (Glasgow, 2021), e provavelmente não encontrará sucesso na COP 27 (em Sharm El-Sheik, Egito, 2022). Conclusão: até agora a transição ecológica por dentro do sistema está seriamente questionada.

Tudo isto tem a ver com disputas econômicas e geopolíticas globais. Apesar da “guerra econômica” entre Estados Unidos e China e as disputas geopolíticas entre Estados Unidos e Rússia em torno da Ucrânia, ocorreu uma janela de oportunidade política em 2015 que possibilitou os Acordos de Paris.

Em 2021, o pretenso protagonismo dos Estados Unidos, que retornarão aos Acordos de Paris após deles se excluírem, não foi capaz de atrair os presidentes da China e da Rússia, que anunciaram tempos diferenciados para zerar suas emissões líquidas de CO2eq; e tampouco pressionar a maioria dos países a adequarem suas metas nacionais. Porque o mundo geopolítico mudou. E agora, o que esperar da COP 27 no Egito, após a guerra da Ucrânia e a disputa global que se escancarou? 

O tempo não para – dizia o poeta e cantor Cazuza. A crise climática não para, diz o novo Relatório do IPCC (IPCC-AR6-WG2) divulgado recentemente: os efeitos da crise climática estão sendo antecipados com repercussão econômica e social maior que a prevista em relatório anterior.

A escala do tempo está sendo encurtada e a janela de oportunidade política para uma transição por dentro do sistema está seriamente questionada – a primeira assertiva joga a favor e a segunda contra a tese de Chomksy.

Sinceramente, no mundo real caótico e no mundo virtual fantástico em que vivemos, já não me parece desarrazoada a perplexidade de Alice e tampouco a resposta do Gato Risonho.

Gilney Viana – Ambientalista. Ecossocialista.

Conselheiro da Revista Xapuri.

(1) Alice no país das Maravilhas. Lewis Carroll, Faro Editorial, 2020, p.69.

(2) Munster, Arno. Ernst Bloch: filosofia da práxis e a utopia concreta. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1993.

(3) Chomsky, Noam. Crise climática e o Green New Deal global: a economia política para salvar o planeta/Noam Chomsky e Roberto Pollin; tradutor: Bruno Cobalchini Mattos. 1 ed. – Rio de Janeiro: Roça Nova, 2020.

(4) Meadows, D. H; Meadows, D. L; Rangers, Jorgen: Behrens III, W.W. Limites do Crescimento., São Paulo: Editora Perspectiva, 1972.


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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