ALZIRA RUFINO: RESISTO!

Alzira Rufino: Eu resisto! 

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Imagem: Reprodução/Internet

RESISTO

Por Alzira Rufino

De onde vem este medo?

sou

sem mistério existo

busco gestos

de parecer

atando os feitos

que me contam

grito

de onde vem

esta vergonha

sobre mim?

Eu, mulher, negra,

RESISTO.

(Eu, mulher negra, resisto, p. 14.)

Alzira dos Santos Rufino

DADOS BIOGRÁFICOS

Alzira dos Santos Rufino, nasceu em julho de 1949. Graduada em Enfermagem, sempre se colocava como “batalhadora incansável pelos direitos da mulher, sobretudo da mulher negra”. Empenhada em desenvolver um trabalho político de combate ao racismo, fundou, em 1986, o “Coletivo de Mulheres Negras da Baixada Santista”.

Durante anos foi coordenadora geral da Casa de Cultura da Mulher Negra, localizada em Santos/SP, organização não-governamental criada em 1990 e que, além de outras atividades de assistência jurídica e psicossocial à mulher negra, possui um programa de combate à violência doméstica e racial levado adiante pela  escritora.

Além disso, a Casa de Cultura Mulher Negra foi responsável pela publicação da revista semestral Eparrei, com editoria de  Alzira Rufino. Além disso, foi responsável pela instituição do coral de crianças negras Omó Oyá e do Grupo de Dança Afro Ajaína.

Em entrevista concedida ao site Mulher, em julho de 2003, Alzira Rufino comenta os desafios impostos à mulher afrodescendente na ocupação dos espaços de decisão na sociedade, bem como no mercado de trabalho:

O movimento negro precisa ter um papel decisivo junto à população negra e à sociedade. As ONGs de mulheres negras têm também um papel importante de apontar direções, de articular as mudanças, exigindo a inclusão da mulher negra em todas as políticas de gênero e de raça em nosso país, resgatando a sua liderança, desde a chamada Abolição.
Em relação à mulher negra, um dos grandes desafios deste início do terceiro milênio é colocá-la no poder, mostrando a cara nas mesas de decisão política e econômica.
Se compararmos com os avanços das mulheres brancas, por exemplo, em áreas em que elas já são maioria (medicina, advocacia) nós constatamos quantas barreiras diferenciadas enfrentam as mulheres que têm a pele negra. Ao falarmos de avanços das mulheres, precisamos perguntar de que mulheres nós estamos falando. (<http://www.wmulher.com.br/template.asp?canal=mulheres&id_mater=1724>).
Poeta e contista com várias publicações em Cadernos negros, a autora recebeu prêmios em concursos de poesia de várias cidades brasileiras. Sua produção afina-se com a tendência da chamada “Geração Quilombhoje”, no sentido de uma literatura empenhada em promover a cultura afro-brasileira, a autoestima da população afrodescendente e o combate a todos os tipos de discriminação racial.
Outro detalhe significativo é o ponto de vista adotado na escrita dos seus textos, o qual não ressalta apenas o olhar negro, mas o olhar negro e feminino.
A autora faleceu em 26 de abril de 2023, aos 73 anos.

PUBLICAÇÕES

 Obras Individuais

Eu, mulher negra, resisto. Santos: edição da autora, 1988. (poesia).

Qual o quê. Local: Santos: edição da autora, 2006. (conto).

Muriquinho, piquininho. Santos: edição da autora, 1989. (infantil).

A mulata do sapato lilás. Santos: edição da autora, 2007. (romance).

Alzira Rufino uma ativista feminegra. Santos: edição da autora, 2008. (minicontos, crônicas, editoriais da revista Eparrei).

Bolsa poética. Santos: Demar, 2010. (poesia).

Antologias

Finally us. Contemporary Black Brazilian Women Writers Colorado: Three Continent Press, 1995. (antologia de poetisas negras brasileiras, editada por Mirian Alves e Carolyn R. Durham; edição bilíngüe português/inglês).

Cadernos Negros 19. São Paulo: Quilombjhoje; Ed. Anita, 1996.

Cadernos Negros 21. São Paulo: Quilombhoje; Ed. Anita, 1998.

Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. v. 2, Consolidação. Organização de Eduardo de Assis Duarte. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.

Ensaio

A mulher negra tem história. Em coautoria com Nilza Iraci e Maria Rosa Pereira. Santos: edição da autora, 1987.

Articulando. Santos: edição da autora, 1987. (coletânea de artigos publicados em jornal).

Mulher negra, uma perspectiva histórica. Santos: edição da autora, 1987.

O poder muda de mãos, não de cor. Santos: edição da autora, 1996.

Violência contra a mulher – uma questão de saúde pública. Anais do II Encontro Nacional de Entidades Populares. Santos: Casa de Cultura da Mulher Negra, 1998 (organizadora).

O Livro da Saúde das Mulheres Negras. Organização de Jurema Werneck, Maisa Mendonça e Evelyn C. White. Pallas, 2000.

Violência contra a mulher – um novo olhar. Anais do Seminário “Violência Intrafamiliar, Mulher e Saúde”. Santos: Casa de Cultura da Mulher Negra, 2000 (organizadora).

Vocês não podem adiar mais os nossos sonhos... In: Revista Estudos Feministas. Florianópolis: CFH/CCE/UFSC, v. 10, nº 1, 2002. p. 215-218.

Configurações em preto e branco. In: Racismos contemporâneos. Organização de Ashoka e Takano. Rio de Janeiro: Takano Cidadania, 2003.

Editoração Eparrei Online – Mulher Negra Tem História n. I-II-III- no site <www.casadeculturadamulhernegra.org.br> – Publicação Trimestral da Cultura da Mulher Negra-Santos-SP- dez. 2010/mar. 2011/maio 2011.

Edição semestral da Revista Eparrei. Santos: Casa de Cultura da Mulher Negra (nov. 2001 a nov. 2010 – 16 edições).

Editoração Eletrônica: Nossa História através da mídia – Período de 1986 a 1993 – Edição Bimestral. De jul. 2010 a mar. 2011. Disponível em: <www.casadeculturadamulhernegra.org.br>.

TEXTOS

CRÍTICA

FONTES DE CONSULTA

Cadernos Negros 19. São Paulo: Quilombhoje: Ed. Anita, 1996.

Cadernos Negros 21. São Paulo: Quilombhoje: Ed. Anita, 1998.

DUKE, Dawn. Alzira Rufino’s Casa de Cultura da Mulher Negra as a form of female empowerment: a look at the dynamics of a Black Women’s organization in Brazil todayTese – Department of Hispanic Languages and Literatures, University of Pittsburgh, USA, 2003.

Entrevista com a autora. Disponível em: <www.mulher.com.br>, 23 jul. 2003.

GONSALEZ, Lélia. Prefácio. Eu, mulher negra resisto. Santos: Edições da Autora, 1988 Poemas, Artigos e Dados Biográficos disponíveis em: <www.casadeculturadamulhernegra.org.br>.

<www.portalfeminista.org.br>

SCHMIDT, Simone Pereira. Alzira Rufino. In: DUARTE, Eduardo de Assis (Org.). Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. v. 2, Consolidação. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.

 


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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