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Amazonas “Eco & Digital”: alternativa à ZFM?

Amazonas “Eco & Digital”: alternativa à ZFM?

Não é de hoje que se discute a necessidade de buscar alternativas ao modelo ZFM (Zona Franca de Manaus), nem tanto por críticas ao modelo – que de modo geral cumpriu e tem cumprido seu objetivo -, mas primeiro pela sua transitoriedade (mesmo que tenha longa duração, tem prazo para acabar) e, segundo, pela sua vulnerabilidade e constantes ataques que sofre…

Por Juarez Silva Jr/via Amazonia Real

O último ataque, que se não revertido é um “tiro fatal”, veio do atual governo federal (ao qual paradoxalmente se alinham os chefes dos executivos estadual e municipal de Manaus), ao decretar 25% de desconto no IPI em todo o país. O efeito disso é retirar a vantagem competitiva assegurada constitucionalmente ao Polo Industrial da ZFM. Já vimos esse filme quando na presidência de Fernando Collor, se abriram as importações a todo país, anulando a vantagem do turismo de compras, literalmente acabando com aquele pólo comercial do projeto ZFM.
Em outros textos na coluna já falei da necessidade de investir em alternativas ao modelo atual, como ampliar a infraestrutura de transporte e fomentar pesadamente o turismo. Também já falei sobre blockchain e criptomoedas e sua potencialidade no desenvolvimento sustentável.
Agora diante do novo ataque, da rápida evolução da economia digital e de tudo relacionado à ecologia e sustentabilidade, é incontornável voltar à pauta e com “tudo junto e misturado”. Pois é por aí e somente por aí que podemos ver algum meio de salvar em tempo a renda da população amazonense e as conquistas sociais consequentes da ação afirmativa que tem sido a ZFM nas últimas décadas, dos rápidos efeitos negativos de um atentado como o agora perpetrado.
Grossus modus, precisamos que a sociedade em geral e as autoridades governamentais locais façam um “pacto de sobrevivência”. Que se entabulem urgentemente projetos visando facilitar o acesso à Manaus (já que a indústria do turismo é a nossa vocação natural, mais próxima e realizável no curto prazo), melhor aproveitamento das vias fluviais, com “buques” (Ferry boats) poderosos ligando aos acessos rodoviários em Santarém e Porto Velho (nem vou falar da estrada para evitar polêmica), conseguir acesso aéreo mais barato e distribuído ao interior, bem como, projetos de proteção do meio-ambiente combinados com exploração sustentável de toda biodiversidade.
Outro ponto importante é surfar nas possibilidades da economia digital. Não é, ou não deveria ser, novidade para ninguém, que vivemos novos tempos e uma verdadeira disruptura na economia e finanças, tudo mediado pela tecnologia, em especial a blockchain. Isso vai muito além da especulação com criptomoedas como muitos se limitam a ver.
A revolução digital tem permitido novas formas de trabalhar, novas profissões, novas formas de fazer circular o dinheiro e distribuir a riqueza, maior inclusão em políticas públicas de transporte, educação, saúde, segurança, renda básica. O sistema financeiro tradicional está sendo desafiado e já começa a sentir os efeitos das finanças descentralizadas (DeFi), cuja base e vetores são os criptoativos.
Vide o caso da guerra Rússia X Ucrânia. Os primeiros prepararam sua economia ao longo dos últimos anos para “aguentar o tranco” de eventuais sanções econômicas globais; não deixaram de fora de sua estratégia os criptoativos. Por outro lado, os segundos também pedem e estão sendo ajudados pela mesma tecnologia. Países como El Salvador que já adotou o Bitcoin como moeda co-oficial, e outros que seguem no mesmo caminho como Nigéria e mesmo Cuba e Venezuela já estão se beneficiando da tecnologia para contornar os embargos econômicos que sofrem.
Na Venezuela, por exemplo, o próprio governo apoia a mineração de criptmoedas, já que lá há excedente de energia elétrica, lembrando que a maioria das outras criptos já adotam processos mais sustentáveis que o veterano Bitcoin. Muita gente por lá também descobriu que no meio de todas as dificuldades econômicas e materiais que passam, é possível se especializar e ganhar dinheiro simplesmente jogando games online internacionalmente, os tais (games earn to play), sendo que muitos jovens estão tendo incentivos oficiais como treinamento especial e kits de equipamentos/acesso internet, além de recursos iniciais para se profissionalizar, driblando assim a dificuldade de emprego e de conseguir dinheiro, no caso vindo de fora, já que o embargo dificulta a entrada de divisas por outras vias.
Mais um ponto que joga a favor de uma guinada ao eco & digital é o paradigma em adoção global da (ESG – sigla em inglês para Environmental Social Governance, ou seja, Governança Ambiental e  Social em português), um padrão desejável para as operações e gerenciamento das empresas que sejam  socialmente responsáveis e  sustentáveis. Isso pode atrair muitas empresas “limpas” cujo negócio não seja industrial, como as de software e fintechs e outras que possam se beneficiar pelo “ecomarketing” de físicamente estarem instaladas na Amazônia. Isso sem falar nos “negócios verdes” com relação digital, como os ativos de compensação de crédito de carbono ou commodities de exploração sustentável da biodiversidade amazônica.
Por fim, a junção do turismo com o mundo digital, mais precisamente o metaverso. O turismo faz parte dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da agenda 2030 da ONU, que o enxerga como uma dos motores de desenvolvimento principalmente no pós-pandemia. O metaverso é a inovação tecnológica que permite a criação de “mundos virtuais” aonde se pode estabelecer inclusive uma completa economia paralela. Em outras palavras, você pode levar seu trabalho, montar um escritório, o atendimento de uma empresa, empreendimentos imobiliários e muitas outras coisas para uma “outra dimensão” da realidade, e pode trocar o dinheiro que consegue lá por dinheiro ou comprar direto coisas aqui no mundo real.
Agora imagine uma experiência de turismo ao Amazonas em realidade virtual ou ampliada (incluindo passeios guiados, compras e eventos)  e  a partir de qualquer lugar do mundo… Está muito mais perto do que você imagina, e é um mercado milionário, seja em dólar ou Euro, seja em cripto. Precisamos evoluir e vamos.


A imagem que abre este artigo é uma ilustração de autoria de Juarez Silva Jr.


 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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