O amor? Condição de certeza. A canção que fica.

O amor? Condição de certeza. A canção que fica.
 
Um meio dia de agosto. Sol do cerrado a pino. Trânsito cheio de alvoroço. Daqui até em casa, 15 quilômetros. E, em cada quilômetro, potencialmente há um milhão de centímetros de bobagens à espera do pensamento de um transeunte qualquer…
 
Por Leticia Bartholo
 
Toca um Paulo César Pinheiro na rádio:
 “Por tanto querer o amor pra mim como eu queria, foi o amor que não me quis”…
Pronto. Quase de supetão sua caixinha de avião encontra a bobagem que a aguardava: bobagem de amor. De amor romântico mesmo.  Que se sabe sobre isso? Ora, quem sabe? Ora, quem vai saber?


Ninguém sabe quase nada não. Mas amor deve ser quando não há dúvida. Amor deve ser condição de certeza.
Deve ser quando você vê os olhos do outro brilharem e os seus brilham junto. E então vocês brincam de fazer estrelinhas de piscar de olhos: vamos ver quem pisca primeiro? – diz você. Aí os olhos do outro brilham tanto, que você já começa a piscar de alegria. Há, você piscou! – retruca o outro, gargalhando. E você diz: pisquei nada, bobo, isso é amor.
Deve ser quando é sexta-feira e o outro chega em casa com cerveja gelada: Queridaaaa, che-gue-ei!!! Trouxe sua cervejinha, olha que tá geladinha! Aí o outro lhe abraça com as mãos ainda empunhando os 5 graus daquela latinha e você grita: sai pra lá com essa mão de defunto! O outro ri e lhe abraça mais forte. Você ri e coloca um vinil na vitrola. E toca Chico. Sim, toca Chico. Porque o amor ama Chico.
Amor deve ser frase sem conjunção adversativa. Eu te amo, mas…
Porém.
Todavia.
Contudo.
Assim o amor não se realiza. Em bom português, amor devia ser adição.
Deve ter gosto de picolé no verão, quentura de edredom no inverno e
na cabeça
o toque terno
de um belo
cafuné.
Amor deve adorar cafuné (ao menos dia-sim-dia-não).
Mas talvez seja simplesmente aquilo que nos poetou Pinheiro: uma parceria.
Não parceria qualquer, mas parceria de cantiga.
Aquela que não se evita e às vezes até prevarica, mas sempre traz alguma coisa boa:
“Um samba, uma modinha, uma toada
Depende muito de cada transada
Mas, se é bem dada, é uma canção que fica”
É. Amor é canção que fica.
ANOTE AÍ:
Texto: Letícia Bartholo. Socióloga.  Adora cerveja gelada.
Arte: Daniel PXeira. Sociólogo e rabiscador. Adora Paulo César Pinheiro.
 

https://xapuri.info/elizabeth-teixeira-resistente-da-luta-camponesa/

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora