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Aniversário de Lia de Itamaracá

Aniversário de Lia de Itamaracá

De nome de batismo Maria Madalena Correia do Nascimento, Lia foi reconhecida, em 2005, como Patrimônio Vivo de Pernambuco

Por Urariano Mota

Nesta sexta-feira 12 de janeiro, o povo brasileiro tem a felicidade dos 80 anos de Lia de Itamaracá. A sua vida, e aqui vale este duplo significado de “sua”, pois alcança tanto a gente do Brasil quanto Lia, a sua vida é uma vitória de alcançar as estrelas, a partir das dificuldades do chão. De família tão numerosa, de muitos irmãos, filha de empregada doméstica, de pele escura, ela sobreviveu: canta forte, dança, sorri. E agora percebo: nela se repete a própria história do povo brasileiro. Canta alto com beleza e vem de longe a olhar as águas.

“Essa ciranda quem me deu foi Lia
Que mora na Ilha
De Itamaracá
Essa ciranda quem me deu foi Lia
Que mora na Ilha
De Itamaracá…

Ó cirandeiro, cirandeiro ó

A pedra do teu anel

Brilha mais do que o sol”.

Antes, merendeira escolar, em 1967 o mundo inteiro soube da sua existência pela voz de Teca Calazans, que gravou os versos da canção pela Rozenblit.

Teca Calazans e a gravadora de discos Rozenblit bem mereciam um capítulo à parte. Mas a hora e o aniversário são de Lia de Itamaracá.

De nome de batismo Maria Madalena Correia do Nascimento, Lia foi reconhecida, em 2005, como Patrimônio Vivo de Pernambuco. Eu vi, em frente ao Palácio do Governo, ela surgir como uma revelação desejada de muito tempo. Nessa noite, o grande escultor Abelardo da Hora ficou a se equilibrar na ponta dos pés para beijá-la. É que o grande Abelardo era baixinho, mas possuía arrebatamentos que não se continham na sua estatura. Lia se curvou, gentil.    

A nossa cantora tem mais de 1 metro e 80 centímetros de altura. Ora, 1 metro e oitenta! Segundo o jornalista e escritor cearense Paulo Verlaine, que a viu de longe no Cine São Luiz de Fortaleza, Lia de Itamaracá possui “quase dois metros de altura. Deve ser descendente de rainha ou princesa africana”. Mas é essa mesmo a impressão que a sua presença deixa em toda a gente. Os nossos olhos não medem centímetros, medem sem medir a altura humana e estética de uma pessoa. Mas como falar sobre Lia, de Lia, sem vê-la?

Baudelaire escreveu sobre a bela Doroteia que ela, forte e ativa como o sol, avançava na rua deserta, fazendo sobre a luz uma sombra brilhante e negra. Que ela avançava, balançando o torso tão fino, sobre suas ancas tão amplas. Que seu vestido colante de seda, de tom claro e róseo, contrastava vivamente com as trevas da sua pele. Mas o gênero de beleza de Lia de Itamaracá é outro. Para ela, nenhuma só rua é deserta. Pode ter sido, mas há muito não é mais. Seus vestidos, suas roupas são um despertar à parte. Ela não é tímida, pois aprendeu que a timidez é o mesmo que ser esquecida por todos. Nem é discreta. Nunca. Da sua beleza, Lia a ressalta, pois se apresenta, sempre, soberba, no sentido de magnífica. Eu queria ser poeta e estilista a um só tempo. Mas a gente é o que pode.

Quero e devo dizer, Lia de Itamaracá é vaidosa dos seus encantos de mulher e se apresenta, sempre, de fazer pular de desejo. Abelardo da Hora, tão baixinho e tão arrebatado, obedecia ao imperativo da beleza.

Eu tive a honra de estar a seu lado em 07/06/2017, quando tive a sorte de falar sobre o que escrevo no Colégio da minha adolescência, o Alfredo Freyre em Água Fria. Ali, eu havia ido dentro do programa Outras Palavras, regido e fundado por Antonieta Trindade, uma educadora comunista. E para melhor prazer dos alunos, depois de mim vinha Lia de Itamaracá, no auditório do Alfredo Freyre. Não é sempre assim? Atrações menores não têm que abrir o espetáculo para as estrelas? Então depois virei somente público, por absoluta justiça. E pude observar a cantora e cirandeira em ação. E vi:  Lia de Itamaracá soltava a sua voz pelo prazer de cantar. Por que vi isso? Nem tanto pelo sorriso e expressão da sua face. É que ele cantava além do acertado, além do cachê, pode ser dito. Os músicos que a acompanhavam, queria parar, pois deveriam ter acertado determinado número de canções. Lia não quis! Dona da sua arte e contrato, ela se virou e comandou: “vamos cantar mais”. E cantou e encantou. Meu coração ficava meio constrangido, por ver os impacientes por trás querendo partir. Mas Lia, não, a arte ainda não havia ainda cumprido a função.

Naquele dia, o maior tímido fui eu. Eu nem lhe pedi um autógrafo, uma foto, nada. Pensei que fazer isso fosse um abuso. Se ela fosse a presidenta da China, sim, eu teria pedido. Então fiquei a vê-la cercada, tocada, perguntada pelos alunos. Uma festa da humanidade de jovens.

A sua alegria de cantar, a sua presença ficou, como um espetáculo que não finda. Quem viu Lia, quem vê Lia de Itamaracá não pode deixar de se apaixonar por sua pessoa e arte. Abelardo da Hora tinha razão.

Publicado originalmente em 12/01/2024

Fonte: Portal Vermelho Capa: Thiago Matine/Estação das Artes


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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