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Apagar o professor é apagar o País

Apagar o professor é apagar o País, por Gilson Reis

Apagar o professor é apagar o futuro. É apagar o passado também, privando um povo de memória e de referências. É igualmente apagar o presente, impedindo a construção do debate e do pensamento crítico

Por Gilson Reis/Portal Vermelho

Uma professora está diante de uma lousa verde, onde se lê, escrito em giz amarelo: desprofissionalização do professor; reforma do ensino médio; reformas trabalhista e da previdência; PEC do Fim do Mundo; terceirização; lei da mordaça. Ela tenta apagar as palavras, mas em vão. Aos poucos, ao invés de as palavras sumirem, é a professora que vai desaparecendo, até sumir.

A descrição acima é de um vídeo produzido em 2017 para a Campanha Nacional contra a Desprofissionalização do Professor lançada nesse ano pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino — Contee, com o slogan “Apagar o professor é apagar o futuro”. Em off, a voz do narrador cita, textualmente, a série de medidas tomadas pelo então governo de Michel Temer (MDB) que ameaçavam e/ou atacam diretamente o magistério e a profissão docente.

A campanha “Apagar o professor é apagar o futuro” foi uma das bem-sucedidas desenvolvidas pela Contee, em razão da força do slogan e do impacto da denúncia. Passados seis anos, embora o vídeo como peça de propaganda, pela referência a Temer, esteja datado, o alerta sobre o processo de apagamento de professoras e professores, bem como da própria educação, não está. Pelo contrário, permanece não apenas atual, como exponencialmente cruel. Por vezes trágico. Na gíria do crime, a professora Elisabeth Tenreiro, de 71 anos, morta esfaqueada por um estudante na Escola Estadual Thomazia Montoro, em São Paulo, foi apagada. Definitivamente.

O tenebroso governo Temer acabou, o de Jair Bolsonaro (PL) — ainda mais nefasto — também foi derrotado nas urnas, mas seus efeitos ainda são sentidas, direta e indiretamente (já foi mais do que discutido o quanto o que aconteceu na escola Thomasia Montoro e em outras escolas pelo País é fruto do crescimento do fascismo e do tensionamento ideológico levado às últimas consequências). 

As reformas trabalhista e da previdência, assim como a terceirização sem limites, fizeram terra arrasada dos direitos de quem trabalha e impactaram sobremaneira os profissionais que atuam em instituições de ensino. A PEC do Fim do Mundo, transformada na Emenda à Constituição 95, deixou a educação pública completamente desamparada e desguarnecida de investimentos, ao passo que os interesses privatistas foram constantemente contemplados.

Sobre a reforma do ensino médio, conseguimos, à custa de intensa mobilização, que o atual governo, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), suspendesse os prazos de implementação do NEM, mas a luta pela revogação continua. Já as mordaças seguem sendo apertadas nas bocas de docentes à revelia de o STF (Supremo Tribunal Federal) ter decidido, em ADI (Ação Direta de Inconstitucionalidade), que leis municipais e estaduais são inconstitucionais e antagônicas à proteção do pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas e à promoção da tolerância, tal como previstas também na LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação).

Adeptos da mordaça, contudo, têm agido contra o entendimento da Suprema Corte, da LDB e da própria Constituição e executado apagamentos ao seu capricho e à sua crueldade. Não literalmente, como no episódio de São Paulo, mas um apagamento paradoxal, às avessas, expondo professores de forma difamatória nas redes sociais.

É o que faz constantemente, por exemplo, o deputado goiano Gustavo Gayer (PL), contra o qual a Contee, o Sinpro-GO (Sindicato dos Professores de Goiás), a Fitrae-BC (Federação Interestadual dos Trabalhadores em Estabelecimento de Ensino do Brasil Central) e o Sintego (Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Goiás) já acionaram a Justiça. O (mal)feito mais recente do parlamentar-youtuber foi ter provocado a demissão de uma professora do Colégio Expressão, localizado em Aparecida de Goiânia, na Região Metropolitana da capital de Goiás, ao postar uma foto dela usando uma camiseta vermelha com a frase “Seja marginal, seja herói”, do renomado artista plástico Hélio Oiticica, acusando-a de doutrinação ideológica.

Pode parecer um contrassenso, mas por que uma postagem — quando postar, nas redes, é exatamente o contrário de apagar — é uma forma de apagamento? Porque é uma desumanização. A publicação de Gayer pode até exibir a imagem da professora, mas, ao fazê-lo, além de conseguir apagar seu contrato de trabalho, comete o crime de apagar sua honra e sua reputação. Apaga-a como pessoa com direito a pensamentos, ideias, gostos, afetos. Sem falar na história da arte e da cultura brasileiras, apagadas pelo orgulho dos amordaçadores pela própria estupidez e seu apreço pela ignorância.

Apagar o professor é apagar o futuro, já dizia a Contee seis anos atrás. É apagar o passado também, privando um povo de memória e de referências. É igualmente apagar o presente, impedindo a construção do debate e do pensamento crítico. É apagar o País.

Fonte: Portal Vermelho Capa: Reprodução/EBC


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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