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As pílulas do Dr. Benjamin Button

As pílulas do Dr. Benjamin Button
Por Antônio Carlos Queiroz (ACQ)
“Tudo é vaidade e correr atrás do vento”, dizia o Eclesiastes, e por isso o vaidoso (vanus, oco, vazio) corre atrás dos aduladores que insuflem o seu ego. Também por essa razão os amigos puxa-sacos são inimigos com armas muito mais letais – os elogios – do que os mísseis dos inimigos. Como disse o poeta Francisco de Quevedo y Villegas, “bien puede haber puñalada sin lisonja, mas pocas veces hay lisonja sin puñalada”.
A gente poderia discutir aqui, a propósito, a busca frenética por likes nas redes sociais, ou a construção das celebridades. Mais modesto, vou contar um curioso caso que eu mesmo construí, explorando a vaidade de um amigo que não vejo há dez ou doze anos, o Maurílio.
Quando a cena aconteceu, o Maurílio devia beirar os 70 anos, quase dois metros de altura, empertigado, um sujeito elegante. Um dia ele chegou na cooperativa dos jornalistas, que eu dirigia, e deu bom dia. Como sempre, revidei com a minha resposta padrão: “Excelente!” Em tempos imemoriais descobri que essa fórmula arrogante deixa os amigos muito felizes, e putos os inimigos!
Esfúzio – Pode ser que eu tenha exagerado no esfúzio porque o Maurílio perguntou o que é que eu fazia para me manter tão jovem e jovial e exuberante. Qual era o segredo? Alguma droga, algum suplemento vitamínico? Súbito, bolei uma sacanagem. Depois de fingir negaças, para não entregar o ouro, admiti que andava tomando as pílulas do Dr. Benjamin Button. Os olhos do Maurílio cintilaram, ávidos por detalhes. Solícito, despachei alguns em cascatas.  
Primeiro, inventei que a receita das tais pílulas teria sido desenvolvida por pesquisadores do renomado Centro de Pesquisa Gerontológica de Moscou, inclusive com a participação voluntária do nosso Luiz Carlos Prestes, quando ele morou naquela cidade até 1979. Ora, acrescentei, o Prestes foi um notório consumidor de sementes de girassol, sabidamente ricas em vitaminas A, B12, C, E e K, tiamina, riboflavina, niacina e ácido fólico e mais… fósforo, magnésio, ferro e cálcio. Uma potência!
Daí fiz uma longa preleção sobre os benefícios do folato (ácido fólico), desde o desenvolvimento do sistema nervoso do feto até a idade madura, concedendo que a sua suplementação não protege contra doenças coronarianas ou contra os acidentes vasculares encefálicos, muito embora reduzam os níveis de homocisteína, um aminoácido pró-aterogênico e pró-trombótico. O Maurílio ouvia tudo atentamente, os olhos estatelados.
Eu disse então que desde a década dos 80 as pílulas do Dr. Benjamin Button foram otimizadas por nutricionistas canadenses, americanos e até goianos, que a elas adicionaram antioxidantes (glutationa, enzimas catalase, dismutase, peroxidases etc) e doses extras de ácido pantotênico, presente na polpa do pequi, muito importante para acelerar as respostas do organismo ao estresse, melhorar o metabolismo das proteínas, gorduras e açúcares etc.
Brad Pitt – A essa altura o Maurílio já estava babando. E eu ali, fazendo esforço para não cair na gargalhada e estragar a brincadeira. Imaginei então o que poderiam pensar da gozação o próprio Benjamin Button (Brad Pitt) e a Daisy Fuller (Cate Blanchett) no filme do David Fincher.
– ACQ, eu preciso tomar essa maravilha, rapaz! Onde eu compro?
– Maurílio, meu velho, é fácil! Só tem que correr até uma farmácia de manipulação. Eles vão lhe pedir alguns dados pessoais, idade, doenças que sofreu, medicamentos e suplementos que está usando etc, para poderem customizar as pílulas. Para cada indivíduo, as doses adequadas de cada componente. E o preço não é alto, não, viu!
– Vou lá ainda hoje!
Ai, ai, algumas horas mais tarde o Maurílio me ligou dizendo que na farmácia ninguém sabia das tais pílulas do Dr. Benjamin Button. “Como não?”, protestei. “Pois é, estou aqui com a moça do balcão e ela disse que nunca ouviu falar”. Pedi pra ele passar o celular pra atendente. Disse pra ela ficar séria quando eu começasse a contar a história, e expliquei que era uma brincadeira tipo primeiro de abril… Pedi que no fim do papo ela revelasse a trampa.
Não demorou 20 minutos o Maurílio invadiu a minha sala, bravo, com a cara de um São Bernardo tristonho, ali estampada uma decepção de século e meio. Eu mesmo me desmanchava com todos os 64 dentes arreganhadamente. O Maurílio ainda quis reclamar, mas cadê clima?
Tirei um derradeiro sarro: “Ô, Maurílio, você acaba de ganhar pelo menos mais três meses de vida, cara!”
ACQ Button
Por que será que todo mundo quer ficar pra semente?
 
ACQ – Antônio Carlos Queiroz – Jornalista. Cronista.
 
 
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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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