Bandeira Branca

Bandeira Branca

Jaime Sautchuk não morreu, porque a vida eterna e a imortalidade andam de mão dadas, com os sábios, com os humildes e com aqueles que empunham a luta árdua pela dignidade do ser humano, sem abandonar jamais os princípios da coerência.

Altair Sales Barbosa

Também, é inadequado dizer que ele descansou. Primeiro, porque nunca demonstrou cansaço; segundo, porque era no trabalho que ele buscava a paz e a liberdade.  Foi assim que, mesmo sentindo as dores de uma interminável diálise, conversou com Zezé Weiss e pediu a ela para tocar, com o entusiasmo de sempre, o projeto da Xapuri.

As pessoas extraordinárias não morrem, porque não temem a morte, cruzam com essa e nem tomam conhecimento, porque têm dentro de si a consciência do dever cumprido. As pessoas extraordinárias não morrem, elas viajam em busca de novos projetos.

Tenho quase a certeza de que Jaime está, neste momento, sentado em algum tronco de buriti, numa vereda infinita, rascunhando um novo projeto, quem sabe buscando até uma metodologia que permita ensinar os hábitos da humildade, para que as pessoas inteligentes possam usar na busca de seus ideais.

Jaime passou pelas bandas dos sertões de dentro feito um topázio puro, buscando sempre uma forma perfeita de se lapidar. Procurou cultivar a ideia e sempre dizia que esta, às vezes fraqueja, mas, de repente, pode-se tornar uma força avassaladora…

Nunca foi egoísta. Era o retrato fiel da humildade, onde estava se parecia com uma estrela brilhante, sempre rodeada de planetas e satélites, que o orbitavam na busca de algum saber. Mas a humildade era tanta, que escondia sua grandeza e sabedoria, que às vezes por um descuido escapuliam pelos cabelos já esbranquiçados.

Sempre me considerou um pesquisador, o que, para mim, foi sempre motivo de grande satisfação e júbilo. Entre tantos outros ensinamentos, aprendi com ele que a pesquisa, na realidade de uma região periférica, marginal, em relação aos grandes centros de cultura e desenvolvimento, tem que esforçar para se enquadrar nas grandes linhas da pesquisa universal, mas ao mesmo tempo, tem que assumir, com objetividade e determinação, os grandes problemas nacionais…

O pesquisador, dizia ele, numa realidade de terceiro mundo, não pode ser um cientista inteiramente desligado da problemática socioeconômica e político-cultural de sua sociedade, mas, pelo contrário, deve estar, profissional e humanamente, comprometido com a transformação da realidade circundante, ajudando a criar as condições de desenvolvimento e de crescente bem-estar do povo…

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Anteontem, acordei sorrindo baixinho, após um sonho bonito que tive. Nesse sonho, me encontrava no Jalapão, num lugar repleto de capins dourados e muitas dunas. Algum aluno, que não recordo bem, estava comigo, e eu dizia para ele: – Olhe depois daquela duna, deve aflorar água, observe o tipo de vegetação.

Naquele exato momento, avistamos um vaqueiro solitário, que se aproximou de nós e se identificou como Zé Maria. Em sua conversa, dizia estar vindo lá das bandas da Vereda da Felicidade e nos contou que por lá encontrou um senhor encantador que, sentado num tronco caído de buriti, rascunhava em um velho caderno grosso e de capa dura alguns traçados.

Perguntei o que era aquilo. Foi quando ele, com paciência e voz mansa, me falou: – É a trilha do saber, sempre busquei saber mais. Dito isso, o vaqueiro despediu-se de nós e continuou sua jornada.

No outro dia, quando acordei, algo no céu azulado do mês de julho me chamou a atenção. Olhei para cima e pude ver a figura de uma bandeira branca erguida bem no alto pelo povo que tinha fome.

Não tive dúvidas.


Altair Sales Barbosa

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora