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Barrar o “terrivelmente evangélico”: Um ato civilizatório 

Barrar o “terrivelmente evangélico”: Um ato civilizatório 

Religião e Estado laico: Alcolumbre está certo ao barrar o “terrivelmente evangélico” Mendonça para o STF

Por Joaquim de Carvalho, no brasil247 
O senador Davi Alcolumbre pode ser criticado por várias razões, mas num ponto merece apoio. Sua resistência em pautar a indicação de André Mendonça para o STF é ato civilizatório.
Pastor presbiteriano, André Mendonça já declarou a líderes da Assembleia de Deus que se considera debaixo da autoridade deles. Esse comportamento representa uma violação do Estado laico, um dos pilares da civilização.
A pressão sobre Alcolumbre para pautar a indicação é grande, e mobiliza os expoentes do fundamentalismo evangélico, como Silas Malafaia, dono da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo.

A igreja é dirigida por homens ricos, como Manuel Ferreira e seus filhos, Abner Ferreira, chefe no Rio, e Samel Ferreira, chefe em São Paulo. 
A liderança de Manuel Ferreira é vitalícia, o que faz dele, na prática, uma espécie de imperador, e seus filhos, príncipes. Eles não podem ser removidos do cargo nem que os membros da igreja queiram.

Adolf Gunnar Vingren e Daniel Högberg eram batistas quando chegaram ao Brasil para fundar, na capital do Estado do Pará, a igreja que se tornaria a primeira do ramo pentecostal no Brasil.
A igreja atraiu a população pobre do Pará, que já não encontravam na Igreja Católica dos primeiros anos do século XX valores religiosos com os quais se identificassem.

Na prática, a partir daí, o segmento evangélico passou a ser uma organização em que, na maioria dos casos, o pastor tem um padrão de vida muito superior à média dos membros da igreja.
Importante: nenhum desses líderes tem atividade conhecida além de tocaram a igreja, em que o ativo principal é a palavra de Deus, sem custo algum para ser pregada — como, evidentemente, deve ser.

Nenhum dos candidatos pede voto em culto, mas todos são apresentados como aliados da denominação. Em vez de pedirem voto, o que seria uma ilegalidade flagrante, os pastores comandados pedem oração para esses candidatos. 
Para os fiéis, é a senha do voto. Nem todos, é claro, votam de acordo com a vontade dos pastores, mas o púlpito da igreja é disputado por políticos, mesmo aqueles que não são evangélicos. A estratégia, em geral, dá resultado.
Nas igrejas como a Assembleia, seus membros são ensinados que integram uma nação dentro de outra nação. Ou seja, em caso de conflito de entendimento, versículos bíblicos prevalecem sobre a Constituição.
Como se sabe, tirados do contexto, textos bíblicos podem justificar atrocidades, como a subjugação de mulheres e filhos, ou abusos menores, como a exclusão de membros, independentemente de seus direitos perante o Código Civil.
Na última eleição, 70% dos evangélicos votaram em Jair Bolsonaro, político que defendia abertamente a tortura, salários menores para mulheres e a opressão de minorias.
André Mendonça, se nomeado para o STF, representará a promoção de valores medievais. Alcolumbre não deve, portanto, ficar isolado.
Ele é presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado e tem a prerrogativa de pautar as matérias para serem apreciadas pelo colegiado, primeiro passo antes da votação em plenário.
A indicação de um nome “terrivelmente evangélico” pode signficar, em si, uma inconstitucionalidade. 
Um ministro do STF pode ser evangélico, católico, espírita, budista, adepto de religião de matriz africana ou de qualquer outra religião, mas, quando se apresenta como súdito de autoridades religiosas, deixa de atender a um requisito para integrar a corte suprema:  o compromisso com o pacto constititucional acima de qualquer outro valor.


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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