Boate Kiss: 6 anos, 242 mortes, nenhuma condenação

BOATE KISS: 6 ANOS, 242 MORTES, NENHUMA CONDENAÇÃO

Boate Kiss: 6 anos, 242 mortes, nenhuma condenação

Boate Kiss: 6 anos, 242 mortes, nenhuma condenação
A pedido das famílias, prédio onde funcionava a boate Kiss deve ser demolido apenas ao fim do julgamento para a construção do Memorial (Foto: AVTSM)

Nem mesmo as indenizações foram pagas. São mais de mil pedidos não atendidos – dentre sobreviventes e familiares.

Respondem em liberdade pela tragédia os sócios da boate, Elissandro Spohr e Mauro Hoffmann, e os integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos.

Parentes e amigos de vítimas do incêndio realizam, neste domingo (27), uma série de atos para cobrar justiça.

Relembre

Na madrugada de 27 de janeiro de 2013, um incêndio numa boate em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, deixou 242 mortos e 680 feridos.

A banda Gurizada Fandangueira se apresentava naquela noite com uso de efeitos pirotécnicos. O vocalista da banda, Luciano Bonilha Leão, acendeu um sinalizador que soltou faíscas, atingindo o teto da boate.

Em cerca de três minutos, as chamas se espalharam por todo o local. Uma fumaça espessa invadiu a boate, que não tinha saída de emergências acessíveis. Muitas pessoas fugiram para os banheiros e não conseguiram mais sair de lá.

Quando o fogo começou, os seguranças de dentro do estabelecimento não se comunicaram com os que estavam do lado de fora. Por conta disso, a saída foi inicialmente bloqueada aos clientes que tentavam correr para fora da boate, prejudicando ainda mais a evacuação.

Essa é a segunda maior tragédia do país envolvendo incêndio.

Reprodução: Estadão.
RS – SANTA MARIA/PERÍCIA/BOATE – CIDADES – Flores e homenagens colocadas na entrada da boate Kiss, em Santa Maria (SP), que pegou fogo na madrugada no último sábado (27). 31/01/2013 – Foto: EVELSON DE FREITAS/PAGOS

ANOTE:

Fonte: https://www.metrojornal.com.br/foco/2019/01/27/apos-seis-anos-tragedia-na-boate-kiss-segue-sem-condenados.html

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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