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Bolzonaro se abraça a gabinete do ódio

Bolzonaro se abraça a gabinete do ódio

Por Helena Chagas

Nunca antes nesse país um presidente da República se comprometeu tanto com o erro – ou, se preferem, com equívoco, delito ou algum sinônimo se não quisermos usar o termo crime antes de concluídas as investigações. Mas Jair Bolsonaro se abraçou a seu gabinete do ódio de forma irreversível ao dizer que a ação global do Facebook que tirou do ar 73 perfis de assessores e aliados que propagavam fake news era uma perseguição a seu governo.

JairBolsonaro EntradaAlvorada Rosto Gesto FalaForte 1BDiferentemente do que fazem os governantes quando se deparam com escândalos na soleira da porta, Bolsonaro sequer tentou passar a ideia de que não tinha conhecimento do assunto, ou que também estava mandando apurar se as notícias falsas e agressões a seus adversários partiam de seu próprio gabinete no Planalto. Não. “Sobrou pra quem me apoia”, disse ele, invocando ainda o princípio da “liberdade de imprensa” a seu favor.

Bolsonaro desconheceu que a retirada dos perfis do ar foi uma ação global do Facebook e, de forma precipitada, colou seu destino ao dos acusados de usar recursos públicos na propagação de notícias falsas e campanhas de ódio. A legislação brasileira ainda tem lacunas nesse assunto, mas, se confirmados esses atos, seus autores – como o assessor Tercio Arnaud Tomaz – serão criminalmente responsabilizados. E o presidente da República terá que explicar que não era seu cúmplice, ou que não era o chefe da associação criminosa por ter o domínio do fato. No mínimo, configura crime de responsabilidade.

Por muito menos que isso, como as tais “pedaladas fiscais”, já se cassou o mandato de uma presidente da República.

Fonte: Os Divergentes

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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