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Brasília, 63 anos. Viva a Capital da Esperança!

Brasília, 63 anos. Viva a Capital da Esperança!

Por Thâmar De Castro Dias

Aqui engatinhei, andei, disse as primeiras palavras, fiz meus 15 anos, me formei no primeiro grau e segundo grau, cursei a faculdade, casei, descobri a militância política, tive meu primeiro emprego, fiz minha carreira profissional, tive meus filhos e fiz grandes amizades. Muitos amigos. Um tipo de amigo que só existe em Brasilia.

Vivi aqui as minhas maiores alegrias e maiores dores. E agradeço o colo com que minha cidade acolheu meu desespero e cuida de mim todos os dias. Brasilia é um lugar, é um espaço, uma obra de arte a céu aberto, possuidora de subjetividade aberta à interpretação da cada um que a vê, que a visita, mas é também sua gente, que aqui criou relações muito distintas, intensamente afetivas, musicalmente marcante, do rock, do choro, do samba, do funk, orgulhosa da sua universidade, que resiste por essa intimidade com seu povo, esse povo que ama o verde, adora cachoeiras, aplaude a chuva, sonha em ter um lote, ou um ap “quitado”, anda de camelo, tem seu quadrado, conversa debaixo de bloco, e faz visitas em casas.

Eu te amo muito minha Brasilia, que apesar de tantas agressões, resiste, como um dos seus símbolos, a Caliandra, a flor vermelha do cerrado.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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