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Carta para Alberto Fernández

Carta para Alberto Fernández: Seu elogio veio em bom momento! 

Por Braulio Antônio Calvoso

Senhor presidente da Argentina,
Alberto Fernández:
 
Obrigado pelo elogio feito a partir do seu desconhecimento sobre as civilizações pré-colombianas que habitavam o Brasil.
 
Segundo Hanna Arendt, na Grécia antiga, a notabilidade dos homens era confiada à poesia, pois nela as palavras e feitos heroicos ficariam gravados eternamente, com louvor de seus méritos. Já na representação dos tupinambás – falantes de tupi da costa brasileira, há uma milenar oralidade, registrada na crônica do século XVI, que descreve o surpreendente desenvolvimento dos chamados “selvagens”, “com suas regras gramaticais tão certas, com o que concorrem para a perfeição da sintaxe, equiparados aos melhores humanistas gregos e latinos, que com suas flexões, foi comparada à prestigiada língua grega” (DENIS, 1550-2011).
 
Paul Lejeune, no século XVII, equipara os oradores tupinambás a alunos de Aristóteles ou Cícero, e Andrea Daher (2012) qualifica-os como “filósofos nus” (p. 122), pois, como disse Léry, “…os selvagens são grandes discursadores e costumam ir em qualquer assunto até o fim” (LÉRY, 1550 – 1961, p. 135).
 
Portanto, trata-se de pessoas que superaram em muitos aspectos os europeus, desde a sua forma de organização política interna, a ausência de classes sociais, a distribuição dos alimentos, a solidariedade até com inimigos e uma série de elementos que demonstram que essas sociedades, ao contrário do que muitos pensam, foram protagonistas de um processo de conversão ao contrário, pelos motivos listados fartamente por Bartolomeu de Las Casas, obra que o senhor certamente não conhece.
 
Por fim, é imprescindível lembrar que os europeus, especialmente os franceses, como Vilegagnon, Andre Thevet e muitos outros em sua aventura de intentar fundar uma França Antártica no Rio de Janeiro, vieram em frotas como as que trouxeram os seus antepassados, senhor presidente, por que aqui os chamados “selvagens” repartiam tudo o que tinham, especialmente com os estrangeiros, segundo relato primário de Thevet.
 
Além do mais, pasme, senhor presidente, aqui não havia morte por causa de crença religiosa, como havia na sua adorada Europa, e todos os povos nativos da América foram traidos com mentiras e massacres, e não o contrário, como relatam o citado Las Casas, além do inglês Anthony Knivet.
 
Somente em uma das incursões de espanhóis, (provavelmente seus antepassados diretos), houve uma degola de 07 mil almas na ocupação de Cuba em um só dia, o que nos deixa ainda mais solidários aos povos que repartiam tudo o que tinham, pois foram educados e talvez até mesmo “evangelizados” com a pedagogia da natureza, que não acumula, mas reparte, que se preocupa com a sobrevivência do outro e não com o acúmulo de dinheiro que vai servir de pivô para brigas, ou seja, foram formados em filosofia da dignidade das coisas criadas por Deus desde o começo do mundo, que tem o seu tempo e a sua liberalidade com todos, sem medida.
 
E o que mais nos autoriza a informar os predicados dessa gente, é o fato de serem reconhecidos pelas sua superioridade como civilização até mesmo pelos seus contrários, como os portugueses, caso de Pero de Magalhães Gandavo, que nenhum interesse tinha em descrever positivamente os povos da costa brasileira.
 
Assim, como brasileiro descendente de italianos e profundamente envolvido na investigação e promoção dos valores éticos indígenas, eu o agradeço por seu elogio, pois veio em um bom momento !
 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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