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Chico Mendes: Um Homem à frente do seu tempo

Chico Mendes: Um Homem à frente do seu tempo

Por Leanderson Lima/Amazônia Real

A história de Guma, hoje com 62 anos, se cruza com a de Chico Mendes, no ano de 1986. Recém-formado em agronomia, o sul-mato-grossense mudou-se para o Acre em busca de trabalho e conheceu Chico durante os encontros de trabalhadores rurais, do Partido dos Trabalhadores (PT) e da Central Única dos Trabalhadores (CUT).

“Em 1986 fui ajudar a avaliar um projeto que tinha lá (em Xapuri), que era o projeto seringueiros, do sindicato, que tinha alfabetização de adultos nas escolas, e a experiência com pequenas cooperativas. As escolas iam muito bem, mas já as pequenas cooperativas que tinham sido criadas, não tinham dado certo. Me chamaram como agrônomo para eu avaliar”, lembra Gomercindo.

Depois de avaliar os projetos, o agrônomo identificou o que estava errado, apontou as necessidades de mudanças e, com isso, acabou sendo convidado por Chico a atuar em Xapuri, junto aos trabalhadores rurais, para recriar essas cooperativas. “A partir daí ficamos muito próximos”, conta. A amizade durou até o fim da vida do líder seringueiro.

Para Gomercindo, e para muitos que conviveram com Chico, ele era um homem à frente de seu tempo. “Ele conseguia ver lá na frente. É impressionante. Inclusive, depois que ele foi morto, fui pesquisar o período em que ele foi vereador em Xapuri, na Câmara, e vi que tinha registros de forma resumida nas atas, que ele já levantava questões em 1979, 1980, para falar em defesa da Amazônia. Era uma coisa assim muito distante, as pessoas não discutiam aqui essa coisa de preservação da Amazônia, isso era coisa de intelectuais, de entidades localizadas fora do Acre. Ele era um cara à frente do tempo”, descreve.

À frente de seu tempo, mas um homem de comportamento tranquilo, paciente e que adorava jogar dominó nas horas vagas. “Ele tinha respaldo porque sabia ouvir, e ele buscava aliados o tempo inteiro. Ele começou a viajar mais de 1986 até 1988, e ele sempre dizia: nós precisamos ampliar nosso leque de aliados. Ele ia para o Rio de Janeiro, São Paulo, para as universidades na USP, UFRJ. Ele conseguiu articular e juntar toda essa turma, conseguia fazer superar as divergências”, conta.

Chico tinha trânsito e conseguia dialogar de igual para igual com professores universitários, estudantes, cientistas e seringueiros analfabetos. “O Chico tinha uma coisa que poucas pessoas têm. A facilidade de compreender os diferentes, mas o que nos junta nessa diferença é uma coisa comum, que é a defesa da floresta, defesa da vida, então o Chico tinha essa facilidade dessa convivência, de juntar as pessoas, de compreender o que cada um pode fazer.

Como é que alguém lá daquele seringal, que aprendeu a ler com uma pessoa que passava lá, como é que ele tem essa visão? A luta pela floresta,  de que todo mundo tem que estar junto, os seringueiros, os índios, os quebradores de coco, os negros, os quilombolas. Tem que ser alguém que está além do seu tempo, uma pessoa que não está pensando no umbigo, está pensando no futuro, eu considero o Chico essa pessoa”, descreve a militante Julia Feitoza, que conheceu Chico, nos tempos de universidade, quando ainda era acadêmica do curso de História, e que junto com ele, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), no Acre.

Chico Mendes foi assassinado na quinta-feira, 22 de dezembro de 1988, apenas sete dias após seu aniversário de 44 anos. Gomercindo esteve com ele minutos antes do crime e lembra ainda hoje de cada detalhe daquele dia. “Eu tinha estado com ele minutos antes. Dia 15 que é aniversário dele, a gente fez uma festinha, um bolo, só os amigos… foi quando ele ganhou a toalha que ele estava no ombro quando levou o tiro”, recorda.

Gomercindo conta que achou estranha a movimentação de pistoleiros na cidade de Xapuri, nas vésperas do crime. Eles, que sempre rondavam os mesmos lugares, onde jogavam sinuca e tomavam cachaça, haviam desaparecido. Guma lembra que estava angustiado nos dias que antecederam o crime.

Fonte: Excerto da Matéria Semana Chico Mendes, publicada em 15/12/2021, por Leanderson Lima/Amazônia Real.

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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