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Como superar o analfabetismo agrário?

Como superar o analfabetismo agrário?

Como superar o analfabetismo agrário?

Quando se rompe a cerca de um latifúndio que não cumpre sua função social, ocupando-o de forma coletiva e organizada, estourando o cadeado de uma porteira e/ou cortando o arame da cerca que configura o latifúndio, não apenas se rompe uma cerca ou se corta um arame, mas no coletivo de camponeses sem-terra que faz esta ação pensada e planejada rompe-se interiormente o ‘arame’ que sustentava a resignação e o conformismo como estilo de vida…

Por Gilvander Moreira/via Jornalistas Livres

Cura-se a cegueira imposta pelo sistema do capital que fazia ver o latifúndio como algo natural, normal e que devia ser respeitado. Perde-se a inocência diante da trama do capital que faz o Cativeiro da Terra e engendra injustiças e desigualdades cada vez mais gritantes. Inicia-se um processo de alfabetização agrária que levará à superação de uma espécie de analfabetismo agrário, imposto pelo latifúndio e pelo modo de produção capitalista calcado na propriedade capitalista da terra, na expropriação da terra dos camponeses, na superexploração do trabalho humano e na desertificação dos territórios através do uso abusivo de agrotóxicos e pelo desmatamento irracional e devastador. Isso também é pedagogia emancipatória posta em prática não apenas fora da escola e nem apenas na escola da vida, mas na luta pela terra, luta coletiva.

“Jogamos fora o medo,” diz o Sem Terra Hélio Amorim, do Assentamento Dom Luciano Mendes, em Salto da Divisa, MG. Ou: “Devagarzinho, o conhecimento foi chegando e expulsando o medo,” afirma o Sem Terra Aurelino Lopes do Nascimento. Assim, os Sem Terra, na luta pela terra, aprendem a trilhar um caminho emancipatório desobedecendo ao que é proibido pelo capital – Estado e classe dominante – e a se revoltar contra todo e qualquer tipo de injustiça. Jaime Amorim, da coordenação do MST, em Pernambuco, diz: “Os trabalhadores aprendem no dia da ocupação o que não conseguem aprender numa vida inteira” (AMORIM apud CALDART, 2012, p. 173).

Ao participar de uma ocupação de latifúndio que não cumpre sua função social, os sem-terra iniciam o processo que os transformarão em Sem Terra, porque no calor da luta pela terra, luta arriscada, perigosa e incompreendida por grande parte da sociedade, os/as trabalhadores/as camponeses/as descobrem a consciência de classe camponesa, a partir do enfrentamento com o latifúndio. Clareia na cabeça de todos/as os/as ocupantes que na sociedade capitalista há várias classes: a classe dominante, uma pequena burguesia eufemisticamente chamada de classe média, a classe trabalhadora e o campesinato, que está na cidade desterrado e expropriado da terra ou resistindo no campo. E que a sociedade é organizada em forma de pirâmide, com a classe dominante lá em cima e a classe trabalhadora e o campesinato na base sustentando quem está acima superexplorando os de baixo. Descortina-se a opressão de classe que leva os Sem Terra a concluírem que a única possibilidade de não continuarem morrendo aos poucos, matado um pouco a cada dia, é participar da luta de classe como militante da sua classe, a classe trabalhadora camponesa. Assim, a ocupação de latifúndio é emancipatória, porque também suscita a consciência de classe e, mais, que o justo e humano é defender sua classe na luta pela terra. Voltar ao estilo de vida anterior é render-se em uma guerra de vida ou morte. Mas, na ocupação de um latifúndio, na luta pela terra, se aprende a erguer a cabeça e não mais mendigar coisas, ajoelhado; se aprende que direitos se conquistam de pé, de cabeça erguida, exigindo de forma coletiva e não mendigando.

No calor da luta por terra, ser recebido por autoridades também tem algo de emancipatório, porque dissipa o medo e a ideia de que as autoridades são inacessíveis, como se estivessem no ‘monte Olimpo’. Na ocupação de latifúndios, na luta pela terra, acontece uma espécie de reencontro com a vida e se descortina um futuro promissor. Essa luta gera esperança com as próprias mãos, revela que se a luta morrer, a esperança morre. Assim, a luta pela terra é a mãe da esperança. Sem luta não há esperança que se sustente.

A luta pela terra alimenta a utopia de construção de uma sociedade justa e solidária e viabiliza acreditar que o ser humano é capaz de se humanizar e se libertar do individualismo e da ideologia dominante que, muitas vezes, o faz assimilar o discurso e a prática dos algozes que estão em cima culpabilizando as vítimas pela violência social.Irmã Geraldinha, agente da Comissão Pastoral da Terra no Baixo Jequitinhonha, MG, afirma:“A luta pela terra é caminho de emancipação para chegarmos a conquistar uma sociedade justa e solidária. Em dez anos junto com o povo na luta pela terra, percebo que a luta pela terra é uma escola de vida. Muitas pessoas que entraram para o acampamento com uma cabeça capitalista pouco a pouco foi mudando os valores e se humanizando”.

Toda relação de dominação, de exploração e de opressão é violência camuflada pela ideologia dominante e coisifica tanto o explorador quanto o explorado. O oprimido aprende a violentar sendo violentado pelo opressor, enquanto o opressor aprende a violentar violentando a/o trabalhador/a espoliada/o ao ser surrada/o na produção capitalista. Mas essa relação contraditória pode ter um desfecho transformador, porque o ser humano, trabalhador/a com consciência de classe, é um ser aberto capaz de mudar a história, de se emancipar. Em luta coletiva, os Sem Terra, em conexão com outros sujeitos históricos, podem acelerar as transformações na medida em que pela luta coletiva permanente vai se emancipando gradativamente. Pelo exposto, concluímos que o caminho para se superar o analfabetismo agrário, inibidor de lutas por justiça agrária e social, passa necessariamente por ocupação dos latifúndios que não cumprem sua função social.

Referência

CALDART, Roseli Salete. Pedagogia do Movimento Sem Terra. 4ª Ed. São Paulo: Expressão Popular, 2012.

05/7/2022

Obs.: As videorreportagens nos links, abaixo, versam sobre o assunto tratado, acima.

1 – “A gente só quer um pedacinho de terra”: 120 famílias da Ocupação Vila Maria, em BH, MG – Vídeo 3

2 – (2a parte) Culto Ecumênico na Ocupação Dom Tomás Balduíno/Betim/MG. “A terra é de Deus para todos.”

3 – Ocupação do MST/Campo do Meio/MG: despejo, NÃO! ALMG/Dr. Afonso Henrique/Vídeo 2. 22/11/18

4 – Ocupação Prof. Edson Prieto, do MSTB/Uberlândia: 2,200 famílias/casas de alvenaria. 20/11/2012

5 – Cativeiro da Terra no Brasil. A luta pela superação do Racismo, com Frei Gilvander Moreira

6 – Dom Tomás Balduíno, da CPT, no Cenários, da TVC/BH: Romarias da terra e Luta pela Reforma Agrária


[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; agente e assessor da CPT/MG, assessor do CEBI e Ocupações Urbanas; prof. de Teologia bíblica no SAB (Serviço de Animação Bíblica), em Belo Horizonte, MG; colunista dos sites www.domtotal.com , www.brasildefatomg.com.br , www.revistaconsciencia.com , www.racismoambiental.net.br e outros. E-mail: gilvanderlm@gmail.com  – www.gilvander.org.br  – www.freigilvander.blogspot.com.br       –       www.twitter.com/gilvanderluis         – Facebook: Gilvander Moreira III

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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