CONSCIÊNCIA NEGRA

CONSCIÊNCIA NEGRA

Consciência Negra

É pela poesia que Gisele Gama nos mostra a arte de ser negra e artista no Brasil
 
Artista preto no Brasil:
 
aquele que já nasce malabarista,
 
engolidor de faca,
 
palhaço.
 
Se de sonho se faz a arte
 
e se com arte se faz o sonho,
 
experimenta nascer com o breu estampado na sua cara.
 
Experimenta, cara.
 
Tenha essa arte.
 
Aprenda a cantar
 
quando te falta tudo, tudo,
 
pro almoço e pro jantar.
 
Tenta sambar.
 
Tenta pintar.
 
Tenta acordar…
 
Vai viver de arte quando te cospem desprezo
 
e o que você só ouve é não.
 
Quando você não tem mais chão.
 
Vai ser artista, mermão.
 
Nasce preto e artista…
 
Sua carreira tá traçada.
 
E vai ser um grande vão.
 
Tem que ter muito culhão
 
pra teimar em ser artista.
 
Pra ainda assim ouvir e expressar
 
o que manda o coração.
 
Porque quem é morto todo dia
 
de desprezo e covardia,
 
um dia perde o tesão.
 
E vai fazer qualquer coisa
 
que pague sua comida:
 
lavar prato, lavar chão.
 
Tem asa e já não voa.
 
Fica mudo, fica à toa.
 
É assim que é a vida
 
do preto artista no Brasil:
 
acredite, não é boa!
 
Se você achar um preto
 
ganhando seu ganha-pão,
 
vivendo de arte, apesar de tudo,
 
pare e ouça com atenção.
 
Abra a mente e o coração.
 
Ele não é qualquer pessoa.
 
Você está, sem sombra de dúvida,
 
diante de um campeão.
 
 
74271753 164608357979117 2872523639947788288 o Gisele Gama é poeta, escritora; Autora da coleção Sara e sua turma; Colunista do Portal Sou de Bsb.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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