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Construir cidades antirracistas é urgente!

Construir cidades antirracistas é urgente!

Construir cidades antirracistas é urgente!

No dia 3 de maio, uma mulher branca foi expulsa de uma estação de metrô em São Paulo por uma multidão aos gritos: as pessoas ficaram indignadas quando, ainda dentro do trem, ela disse a uma passageira negra para se afastar pois “o cabelo crespo dela poderia transmitir doenças”…

Por Luana Alves/via Mídia Ninja

No mesmo dia, pouco depois desse episódio, a Câmara Municipal de São Paulo presenciou mais um caso de racismo explícito. Logo no início da sessão da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga os aplicativos de transporte e delivery, o microfone do vereador Camilo Cristófaro foi aberto e o flagrou utilizando o termo “coisa de preto” para falar sobre um serviço de limpeza malfeito. A sessão foi interrompida, a Corregedoria Parlamentar foi acionada e o caso foi levado para a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, onde está sendo investigado o crime de racismo.

Em um intervalo de tempo tão curto, dois casos assustadores e inegáveis de racismo tomaram conta das manchetes dos principais veículos de comunicação do país – mas quantas outras pessoas negras foram vítimas de racismo nesse mesmo período e não tiveram visibilidade sobre a violência que sofreram? Um levantamento realizado pelo Tribunal de Justiça e divulgado em abril deste ano revelou um dado estarrecedor: no período mais intenso da pandemia, entre 2020 e 2021, o número de casos ligados ao racismo aumentou 736% no estado de São Paulo. A pesquisa levou em consideração os processos judiciais relativos a casos de injúria racial e crimes ligados a preconceito de raça e/ou cor – só em 2021, foram 251 processos tramitados no Tribunal de Justiça.

Os dados falam por si, mas não são a única fonte de legitimação da necessidade da luta antirracista, afinal de contas, quantos casos de discriminação racial não chegam aos tribunais apesar de racismo ser tipificado como crime desde 1989? O aumento do número de processos como o que foi aberto contra o vereador Camilo Cristófaro, que poderá ter inclusive seu cargo cassado, e a manifestação de revolta formada espontaneamente dentro do metrô contra a mulher racista são indicativos de uma única coisa: as pessoas estão cansadas do racismo sufocante que atravessa a história do nosso país. Tais situações não são indicativos de que a presença do racismo no cotidiano aumentou, mas sim de que a resposta a ele se faz urgente. Ninguém, com exceção dos racistas que lucram e tem seus privilégios assegurados na manutenção do racismo, aguenta mais.

É preciso reforçar que racistas não passarão, mas é preciso garantir que eles, de fato, não passem – e, para isso, cada um pode utilizar as ferramentas que estão disponíveis de acordo com suas configurações individuais. Seja uma vereadora negra garantindo que um vereador branco seja investigado e tenha o mandato cassado por uma frase racista, seja um passageiro de metrô manifestando indignação e registrando com seu celular uma pessoa negra sofrendo violência. O ciclo de silêncio, de tolerância, de relativização do racismo é o que faz com que ele continue fincado na malha social brasileira: esse mal precisa ser arrancado pela raiz para que não mais encontre espaço para dar frutos. Devemos começar a olhar a questão através da ótica de que racismo não deve ser socialmente repudiado por ser crime, mas sim que racismo é crime justamente por ser um comportamento repugnante: o combate ao racismo precisa acontecer dentro e fora das esferas institucionais.

É nítido que se tratando de um país colonizado há 520 anos, com histórico de genocídio negro e indígena e sendo o último país do continente americano a abolir a escravidão, muita coisa precisa ser feita. Em 2021, a estátua de Borba Gato, um bandeirante responsável por assassinar e violentar inúmeros negros e indígenas, foi incendiada – é preciso rever quem são os homenageados nas ruas, praças e monumentos do nosso país. É preciso resgatar as referências negras e indígenas que construíram esse país e colocá-las em evidência. É preciso implementar o ensino de africanidades, história indígena e relações étnico-raciais nas escolas. É preciso institucionalizar a formação antirracista para profissionais de saúde, de educação e, principalmente, de segurança pública e privada. Só assim, derrubando estátua por estátua, construiremos, de fato, cidades antirracistas.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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