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Dadá: Bordando o Cangaço

Dadá: Bordando o Cangaço

Um texto lindo da escritora Lia Zatz sobre Dadá e a vida no Cangaço.  A autora informa que o livro, que conta a sobre o cangaço e a vida da cangaceira e exímia bordadeira Dadá, é baseado na realidade. A entrevista, porém, nunca foi feita. É primorosa obra de ficção.

“– É verdade que a senhora só tinha doze anos quando entrou para o bando de Corisco?

– Treze.

– E como é que a senhora tomou essa decisão de virar bandida, cangaceira?

– Primeiro que tudo, eu nunca fui bandida. Depois, Corisco me carregou à força. E agora, se for pra fazer esculacho de minha vida, da de Corisco, me chamar de bandida, vamos é já parando por aqui, que fama eu já tive é muita na minha vida e quero mais não, quero respeito e sossego.

– Mas dona Dadá, como é que a senhora conseguia fazer bordado tão bonito, tão delicado, se viva embrenhada no meio da caatinga, fugindo da polícia?

– Ah, minha filha, é que a gente não vivia assim só fugindo e atacando. Tinha tempo de calmaria, tempo de amar e dançar, de parir e chorar, de coser e bordar…

– E como é que era a vida nesses tempos?

– Ah, era bom demais. Não tinha persiga, não sabe? Tudo ficava mais fácil. A gente vivia bem, com luxo, tinha vestidos escolhidos, tinha rouparia do jeito que queria, vestidos de seda, viu? Que aquelas roupas de couro, de pano grosseiro eram só para a viagem, para não rasgar as roupas bonitas na caatinga…

– Os homens traziam quando voltavam da expedição, ou encomendavam com os coiteiros: cortes de tecido, joias, perfumes. Iche!  Eles disputavam para fazer de sua mulher a mais bonita, a mais bem vestida, a mais cheia de joias. E os homens também, era tudo vaidoso. Gostavam de se vestir bem, perfume então! Frasco de cheiro, que a gente chamava. Teve vez até de volante descobrir nosso esconderijo por causa do perfume – Dadá falou sorrindo.

– E comida? Verdade que vocês só comiam rapadura com farinha e água?

– Quem foi que te disse essa bestice? Jacuba era só para os tempos de luta, aí sim, faltava de tudo! Em tempo de calmaria, quando a gente tava em um abrigo bem seguro, iche!  Comida não faltava. Era a fartura, era buchada, bode assado, farinha com carne assada no umbu.

– Era vida normal, então? Como se vocês estivessem em casa? Os homens descansavam das batalhas, as mulheres faziam as tarefas domésticas: cozinhavam, lavav…

– Menina, você tá mesmo é desinformada. Ó, vou te dizer uma coisa: mulher é que não ia pra beira do fogo, de jeito nenhum. Ela podia até lavar e temperar a comida, mas quem cozinhava eram os homens. Era bacana. Cada dia um cozinhava, outro lavava a panela, tudo organizado. Não tinha isso de “não faço”.  Chamava, era seu dia, tinha de fazer. Tudo limpinho, ajeitado, acabava de comer, a gente dividia.

– Nossa, homens e mulheres dividindo o trabalho?

– Era sim. Costurar? Lavar roupa? Cada um que cuidasse da sua, podia ser homem, podia ser mulher.

– Puxa, do jeito que a senhora fala, parece que era o paraíso para as mulheres.

– Ah, não era não. Mas hoje eu não quero falar de coisa triste, só de festa. Porque no sertão a gente gosta muito de festa. Domingo em roça de sertão é dia de tocar realejo, cantar, dançar coco e embolada. E no cangaço a gente sentia falta dessa festaiada. Então, sempre que podia a gente organizava um baile, chamava tocador de realejo e cantador, e dançava até cansar.  Vou te dizer, menina, que cangaceiro gostava tanto de música que até no meio de batalha com volante, tiro, facada, xingação de cá e de lá, os cangaceiros cantavam.

– Cantavam quê?

– O nosso hino de guerra, ué. E Dadá cantou:

OLÉ MULÉ

RENDEIRA,

OLÉ MULÉ RENDÁ

TU ME ENSINA

A FAZER RENDA

QUE EU TE ENSINO

A GUERREAR”

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Excerto do livro de Lia Zatz: Dadá – Bordando o Cangaço. Editora Callis. 2004. Compilação de Zezé Weiss. 


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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