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Darcy Ribeiro desceu do céu na Argentina

Darcy Ribeiro desceu do céu na Argentina

Darcy Ribeiro baixou em Buenos Aires dias antes da eleição presidencial. Veio com todas suas peles: americanista, antropólogo, educador, romancista, político, senador, reitor, ministro da educação e mulherólogo. Foi na Biblioteca Nacional Mariano Moreno, no evento Darcy, vida, obra e atualidade de seu pensamento, organizado em parceria com a Universidade de General Sarmiento e a Embaixada do Brasil na Argentina. De onde veio Darcy e como foi visto?

Por José Bessa Freire 

O teólogo Leonardo Boff tem o endereço e o e-mail de Darcy no céu para onde subiu, em 1997, sem passar pelo purgatório. De lá seu espírito desceu invocado por pesquisadores argentinos e brasileiros. Mas descerá outra vez de corpo presente para ver a Argentina de Milei, quando Euclides de Souza, diretor do Teatro de Bonecos Dadá, encenar a peça “Darcy baixa do céu”, na qual comentará os conselhos telepáticos dados ao novo presidente pelo cachorro Conan, já falecido.   

Os bonecos do Teatro Dadá são de luva, manipulados de baixo para cima, com duas exceções. O personagem Darcy, movido de cima para baixo por um fio, aterrissará no meio do palco, dando assim mais realismo à cena. Já os movimentos de Javier Milei serão controlados por um cordel manejado por outro boneco com a cara e o biquinho de Trump. Quem conheceu Darcy muito bem sabe como organizar sua volta à Terra.

O casal Euclides Souza e Adair Chevonika compartilhou o exílio em Lima, nos anos 1970, com Darcy e Berta e com eles atuou na Reforma Educativa Peruana. Criou o Teatro-Escola de Títeres vinculado a SINAMOS – Sistema Nacional de Apoio à Mobilização Social. Adair já nos deu adeus. Euclides, hoje com 88 anos, vive em Curitiba, e com eles estamos escrevendo a quatro mãos a peça que inicia com a morte de Darcy.    

DARCY CANONIZADO

Dias antes de morrer, Darcy chamou seu amigo Boff com quem dialogou no leito de morte. Pediu ao teólogo que lesse em voz alta o último parágrafo do seu livro Confissões, no qual diz que, embora cansado de viver, queria “mais vida, mais amor, mais conhecimento, mais travessuras”:

O único clamor da vida é por mais vida bem vivida. Depois, seremos matéria cósmica, sem memória de virtudes e gozos. Apagados, minerais. Para sempre mortos.

Os dois – o ateu e o teólogo – conversaram sobre a existência de Deus e a vida depois da morte. Boff imaginou a recepção de Darcy no Paraíso, acolhido por Deus na forma de uma mãe afetuosa, já que em vida reverenciou tanto as mulheres. Ela lhe diria:

Tua vida foi um só ato de amor, atendeste aos famintos, às crianças abandonadas, aos negros e aos índios marginalizados e às mulheres oprimidas. Quem fez o que fizeste terá o reino, a eternidade e a Deus.

Eu não tenho fé, mas como eu gostaria que fosse verdade! – disse Darcy. Neste momento – conta Boff – ele derramou uma lágrima, ficou em silêncio e teve uma baixa de pressão muito intensa.

Na peça do Teatro Dadá, Boff entra no hospital com um pajé guarani e um babalorixá, que confirmam a recepção no céu por três mulheres: Yepá, a avó do mundo, criadora da vida na mitologia do Alto Rio Negro, Yemanjá, mãe de todos os orixás, mãe do mundo das religiões afro-brasileiras, e Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Darcy canonizado? Ele se divertiria com esta ideia.

LOS LITCHEROS

Comentei a peça de teatro na mesa compartilhada com a historiadora Elizabeth Brea, chefe da Divisão de Pesquisa do Arquivo Nacional, que publicou a correspondência entre Darcy e seu mestre Herbert Baldus. Dois outros brasileiros da Fundação Darcy Ribeiro, José Ronaldo e Lúcia Velloso, falaram no evento, que contou com a participação de 12 pesquisadores argentinos.

Foto: TaQuiPraTi

Nós, os brasileiros presentes, nos surpreendemos do sucesso que Darcy faz na Argentina, onde é muito conhecido e admirado pela academia. Todos os seus livros foram traduzidos, comentados e resenhados. Graças às falas desses especialistas, me senti liberado para fugir do enfoque acadêmico e contar histórias vividas por Darcy no exílio.

Ele dizia que o Brasil viveu sempre de costas para a América hispânica e que, ironicamente, o golpe militar de 1964 ajudou milhares de exilados brasileiros a descobrirem a América: sua história, literatura, música, arte, produção científica e línguas. Viveu no Uruguai, na Venezuela, no Chile e no Peru. Lia em inglês e francês, mas falava apenas dois idiomas: o português, sua língua materna, e o portunhol.

De pura sacanagem, gostava de contar sua primeira conferência do exílio na Universidad de la República Oriental del Uruguai, quando criticou os   que repetiam Marx ao pé da letra e enfatizou que agora, no século XX, além de seus grilhões, os operários tinham sim o que perder. Exemplificou com a greve dos “litcheiros”. No final, alguém no auditório pediu que definisse essa nova categoria.

–¿Cómo? No es una categoría nueva. Los “litcheros” son los que recogen el “litcho” – disse Darcy em portunhol. Foi quando aprendeu que “lixo” é basura e “lixeiro”, basurero.

NINGUENDADE 

Na peça, Darcy desce do céu com dois livros. O primeiro As Américas e a Civilização, escrito no exílio, foi criticado por classificar Argentina e Estados Unidos como “povos transplantados”, que mantêm as matrizes raciais e culturais da metrópole. “Mas era uma crítica imersa em fortes simpatias por esse livro que abriu novos caminhos de interpretação da história e da política latino-americanas” – escreveu a socióloga e ex-deputada Alcira Argumedo. 

Vitimado por um câncer no pulmão, Darcy fugiu do hospital, em 1995, para sua casa em Maricá (RJ) a fim de concluir o outro livro O povo brasileiro – A formação e o sentido do Brasil. Lá, ele se pergunta: de onde veio o nosso povo? No processo histórico em que muitas mulheres indígenas foram violentadas pelo colonizador, seus filhos não foram reconhecidos.

É filho de índia. Não é português – dizia o pai

É filho de português. Não é índio – discordavam os Tupinambá.

Sem identidade, era um “Zé Ninguém”, chamado de “brasileiro” porque cortava e carregava o “pau brasil” de interesse comercial para a Coroa Portuguesa. Darcy cria um neologismo para dizer que foi dessa “ninguendade” que nasceu um povo maravilhoso com o nome de “brasileiro”.  

O crítico Carlos Alberto Doria considera que Darcy escreveu textos mais bem fundamentados e que seu discurso utópico tem muito mais arte do que ciência, mais sedução que raciocínio, mais sabedoria do que exatidão, mas reconhece que ele tem uma virtude: um amor incomensurável e invejável pelo seu país.

DONDE ESTÉS, DARCY 

Depois de retirar um pulmão numa cirurgia delicada, Darcy disse numa entrevista televisiva a Jô Soares, que pelo menos não morreria de pneumonia dupla. Jô perguntou como gostaria de morrer: 

– Aos 99 anos, com um tiro disparado no meu peito por um marido recém-traído – gracejou com um ar travesso.  

O d(n)arcisismo será também teatralizado: “Minha mãe não me pariu, me fundou” – dizia Darcy, que prometeu escrever sua autobiografia “porque isso lhe permitiria fazer o que mais gostava: falar de si mesmo”. Narcisismos solenes são insuportáveis, mas o darcisismo era “combinado com um senso de humor transbordante e uma desfaçatez total, que lhe dava um atrativo especial”, segundo Alcira Argumedo.

Os autores da peça “Darcy baixa do céu”, em elaboração, aceitam sugestões para enriquecer o enredo.  Já foi decidido, porém, o final, com um coral guarani cantando para Darcy esses versos do poema “Consternados, rabiosos” de Mário Benedetti, escrito em outubro de 1967 quando da morte do Che Guevara, cidadão da América Latina.  

Donde estés
si es que estás
si estás llegando
será una pena que no exista Dios
pero habrá otros
claro que habrá otros
dignos de recibirte
comandante.

José Bessa Freire Professor. Jornallista. Escritor. Blogueiro e gestor do www.taquiprati.com.br. Membro do Conselho Editorial da Revista Xapuri. Foto de capa: TaQuiPraTi.

 
 
 
 
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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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