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“De consciência tranquila, durmo bem”

“De consciência tranquila, durmo bem”

Relato de Tadeu Porto, diretor da FUP e um dos integrantes da Comissão Permanente de Negociação, que ocupa uma sala do Edise – Petrobras, desde 31/01/2020.

Certa vez, na primeira plataforma que embarquei na vida, presenciei, in loco, uma tubulação estourar e vazar muito gás. Era uma linha ligada ao “slop vessel” no Cellar Deck da unidade. Me lembro de como o supervisor do turno, como um raio, entrou na densa nuvem de gás e fechou a válvula que alimenta o vazamento. Ele não poderia ter feito isso, mas fez. Se tivesse alguma ignição, iria ele, eu e talvez a plataforma para o fundo do mar, como foi a P36.

Esse supervisor, chegou a virar coordenador, contudo não aguentou o assédio e saiu da empresa. A última vez que falei com ele, numa assembleia em Imbetiba, vi sua desmotivação enquanto me falava de sair do país.

Também vi sair da Petrobrás outro companheiro, um dos melhores cipistas que já presenciei. Ele tinha todas as pendências da P48 num caderno e queria resolver todos os problemas da plataforma. Dava gosto de ver ele autuar.

Uma vez ele me ligou pra informar um grande incêndio na unidade e me disse num tom de voz que misturava orgulho, alívio e medo: “todo mundo desceu pra combater”. Foi um dos maiores incêndios dos últimos tempos, a equipe combateu durante horas e horas chamas lambendo a lateral da plataforma.

Falando em fogo, me recordei, com tristeza, de outro compa. Esse teve a perna esmagada por uma mangueira de incêndio ano passado. Ele é jovem, entrou no mesmo concurso que eu em 2010, e nunca mais terá a mesma mobilidade de antes.

Das lembranças que marcam, a mais forte é a do Sandro, o guindasteiro de PNA2 morto em um acidente de trabalho a bordo. Um dos momentos mais difíceis que vivi no sindicato. Sandro morreu “sugado” por um cabo, teve o corpo partido ao meio e ficou mais de 24h enroscado junto com o cabo no tambor do guindaste.

Já vi, vivi e ouvi muita coisa nessa década de Petrobrás. Talvez seja por isso que a gestão da empresa tente, junto ao TST, me fazer “responsável e solidário” a essa greve histórica que estamos fazendo.

Não entendo de direito e leis, sou operador de produção e não advogado. Mas me parece bem descabido colocar multas milionárias, nunca antes aplicadas na justiça do trabalho, junto a um CPF assalariado e CLTista.

O presidente da Petrobrás, Roberto Castello Branco, disse na Globo News que nenhum barril foi afetado pela greve. E mesmo assim quer nos processar.

Me lembrar dessa década, me fez pensar justamente na trajetória recente do Castello. Ele passou mais tempo no financeiro da Vale do que eu tenho de Petrobrás. Saiu da mineradora um ano antes do desastre de Mariana, tragédia que culminou na morte de dezoito pessoas e no desaparecimento de uma.

Minha alma de ferro itabirana e minha experiência sindicalista, me fazem querer entender. Acho que, talvez, Castello tenha economizado além da conta enquanto diretor financeiro da Vale. Acho que ele deveria ter investido mais em saúde, segurança e meio ambiente e pagado menos a acionistas. Se fosse assim, sua política poderia ter evitado essa e outras tragédias, como o de Brumadinho, uma grande tragédia ambiental e o maior acidente de trabalho da história do país, com mais de duzentas mortes confirmadas.

Mas não sei, não sou operador do direito, sou operador de produção. Sou também cidadão e achava, assim, que as mortes causadas pela Vale deveria ter mais atenção da justiça do trabalho que uma greve que “não afeta nenhum barril de petróleo”.

Há trajetórias e, com elas, responsabilidades. A vida tratará de demonstrar as ligações lógicas entre essas. Hoje em dia, ocupando uma sala no Edise, minha consciência tranquila me faz dormir bem, mesmo que seja no chão que Castello pisa.

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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