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Denise Viana Alencar

Denise Viana Alencar

O anjo bom de Belágua

Por Zezé Weiss

Não tem comunidade a que Denise chegue em que não haja um poema pra ela, uma manga com sal, um particular ao pé do ouvido ou uma roda de prosa pra falar do projeto. O fato é que Denise acarinha menino, puxa orelha de mãe, resolve problema com liderança e, assim, sendo dura quando necessário, porém sem nunca perder a ternura, por onde passa vai sendo chamada de mensageira da esperança, de mãe dos pobres, de anjo bom de Belágua.

Como militante do social, a cearense Denise, criada no Piauí, começou bem antes de Caraúbas, onde o Movimento Solidário ficou por quase dez anos, de 2006 a 2015. Depois de ficar conhecida por ter conseguido alfabetizar a mulher mais idosa do Piauí, no ano de 1995, quando estudava de tarde para dar aulas de noite no programa “Mais Alfabetização”, ganhando R$ 100 por mês, com a eleição do governador Wellington Dias, do PT, em 2003, Denise tornou-se Coordenadora  de Feiras e Exposições Agropecuárias do governo do Estado e, a partir de 2005,  coordenadora do projeto Casa Brasil, do governo federal, no Piauí e no Maranhão.

Eu trabalhava no Casa Brasil formando lideranças, organizando associações, montando telecentros comunitários, incentivando a participação das mulheres, quando me convidaram para a inauguração do Movimento Solidário; em seguida fui convidada para coordenar o projeto e o resto é história, lá se vão 13 anos de Movimento Solidário e, quando chegou a hora de ir pra Belágua, eu também fui junto, pra começar tudo de novo.

Na Fenae, Denise começou por questionar o conceito tradicional de, em vez de dar o peixe, ensinar a pescar. “Eu sou contra, quem vive com gente em situação de miséria sabe que antes de ensinar a pescar é preciso dar comida, matar a fome, cuidar da saúde, acabar com os vermes, conversar muito, ouvir os causos, levantar a autoestima, ganhar a confiança das pessoas e da comunidade. Só depois disso é possível falar em peixe e vara de pescar”.

Conforme o presidente Jair, assim foi feito em Belágua. “Depois que escolhemos o município, Denise fez as visitas e foi identificando as prioridades. Começamos por distribuir o essencial, cestas básicas, filtros de água. Descobrimos na época que um grande problema era a dificuldade de enxergar. Em parceria com o governo do Estado, foram feitas mais de mil consultas, e em campanha com os funcionários da Caixa entregamos mais de 500 óculos”.

Desde então, a analista de responsabilidade social do Instituto Fenae e coordenadora do Movimento Solidário vai alternando seu tempo entre visitas frequentes às comunidades e a busca de alternativas para melhorar o projeto, sempre pensando no futuro das famílias beneficiadas. “A vida é dura e a gente tem que entender isso, eu às vezes dou bronca, mas é para o bem das comunidades, eu quero que elas aproveitem essa oportunidade, que aprendam muito, que se tornem autônomas e sustentáveis, para que os projetos não acabem e a fome não volte depois que a Fenae for embora”.

De volta das viagens, Denise, que é mãe de Helena, uma menina de  6 anos,  fala do orgulho que sente em ser admirada pelo marido, Raimundo, o Dinho, ele também um lutador, com quem divide as prestações do carro usado e do apartamento em Águas Claras, e de como responde às cobranças que Dinho eventualmente faz por suas ausências frequentes: “fazer o quê, casou com uma líder, parceiro!”.

Denise, a moça bonita que com frequência volta pra casa sem os próprios sapatos porque é incapaz de deixar pra trás uma mulher descalça, fala também da admiração que sente pelo pai, seu Chico Bezerra Lula da Silva, o cearense “cabra da peste”, sindicalista, político e líder comunitário que ensinou a filha a ir à luta, a defender os mais pobres, a lutar por um mundo melhor: “fazer o quê, já nasci dentro da luta, minha irmã!”.

 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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