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Dezenove anos da retomada Xavante em Marãiwatsédé

Dezenove anos da retomada Xavante em Marãiwatsédé

Dez de agosto de 2004, guerreiros do povo Xavante que estavam acampados há 3 meses na beira da BR 158 recebem a notícia que três de suas crianças vieram a óbito.

Por Ana Paula Sabino

Naquele momento, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas aguardava uma liminar pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que garantiria a ocupação territorial, que desde 1968, após uma remoção forçada, estava ocupada por fazendeiros.

Na década de 60, esse grupo de indígenas Xavante foram expulsos, removidos pelos aviões da Força Aérea Brasileira para dar lugar ao maior latifúndio do mundo.

 
Indígenas Xavante empurrando avião. Foto: José Medeiros, 1949.

Os Xavante de Marãiwatsédé quase foram dizimados, enfrentaram epidemias de sarampo e tuberculose. No primeiro momento, foram jogados em uma Missão Salesiana de São Marcos, depois foram construindo aldeias dispensas em outras terras ocupadas por Xavante, mas sempre sentiam que não era o lugar de origem, onde eles escolheram estar.

Por fim, construíram a aldeia Água Branca na Terra Indígena Pimentel Barbosa, um território Xavante já demarcado mais próximo de suas terras originárias. Essa seria uma estratégia para ficar mais perto de suas terras, lá onde era conhecido como a antiga Fazenda Suiá-Missu.

Foto antiga wara antes da retirada dos Xavante de maraiwatsede
Foto: Museu do Índio, 1966.

Ou seja, em 1988, a data contabilizada na tese do Marco Temporal, os Xavante de Marãiwatsédé estavam fora de suas terras. Sendo assim, o retorno dos Xavante às suas terras originárias, lá onde deixaram cemitérios, roças e suas casas, lugar onde o grupo escolheu para fazer a sua morada, não seria garantido, violando o artigo 231 da Constituição Federal.

Uma questão bastante contraditória, ainda mais quando um grupo é removido de forma forçada, sem nenhum entendimento de como será seu futuro.

“Não somos gado para comer tanto pasto”, relatou a professora Carolina Rewaptu, se referindo a degradação ambiental que encontraram em suas terras. Ela lembra, também, que estava com sua sogra, hoje já falecida, no momento da retomada, “ela estava na cadeira de rodas e nem esses desafios impediu a volta para nosso território”.

Os 440 Xavante ficaram acampados na BR 158, morando em barracas de lonas plásticas, aspirando poeira da estrada, bebendo água cheia de coliformes fecais e estavam sendo constantemente vigiados por peões e pistoleiros. Eram 43 barracas, sem acesso à escola e posto de saúde, me lembro bem desse momento, eu estagiava na comunicação da Funai.

Os diversos invasores desmataram e destruíram a Terra Indígena Marãiwatsédé, que chegou a ser considerada a terra mais devastada da Amazônia Brasileira.

Em 2012, o Ministério Público Federal precisou intervir novamente, através de um pedido para suspender uma liminar do TRF1, que impedia o retorno dos Xavante. Além disso, solicitava que o Governo Federal fizesse a extrusão dos invasores e de fato devolvessem as terras aos indígenas. 

Porém, a guerra de informações e de cobiça aos territórios dos Xavante ainda continua, hoje, eles estão nas mãos de fazendeiros que insistem na criação de gado ilegal dentro das terras sagradas.

Após quase duas décadas de ocupação e de desafios, o povo Xavante de Marãiwatsédé ainda aguarda por justiça social, ambiental e econômica, de forma que seja respeitado e levado em consideração o modo de vida do povo Xavante.

E por fim, quero lembrar que hoje é um dia de comemorar a retomada e a resistência do povo Xavante de Marãiwatsédé, para tanto temos muito o que reconhecer da luta das lideranças de lá, em especial o cacique Damião Estevão e a professora cacica Carolina, além de todos os parceiros que prezam pelo fortalecimento e garantia dos direitos indígenas.

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Cacica Carolina Rewaptu. Foto: Mariana Leal.
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Cacique Damião Paridzané, um dos atuais líderes que atuaram na retomada de Marãiwatsédé. Foto: Rai Reis.

ana paula

Ana Paula Sabino – Jornalista e Conselheira da Revista Xapuri.  Foto de capa: BBC/ Adriano Gambarini/ OPAN.

 

 

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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