É O PETRÓLEO, IMBECIL!

É o petróleo, imbecil!

A Venezuela abriga uma das maiores reservas petrolíferas do planeta. Esse dado, por si só, explica mais do que mil discursos sobre “democracia”

Por Oliveiros Marques | Brasil 247

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Protesto no Amapá – Foto: Reprodução/Internet

Toda vez que a retórica moralista volta a apontar o dedo para a Venezuela, convém perguntar, sem ingenuidade: a quem interessa? O atual ataque político, diplomático, midiático, e agora, militar conduzido pelos Estados Unidos contra o povo venezuelano – que chega ao ponto de tratar como aceitável o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa – não tem nada de novo.

Tampouco tem relação real com o combate ao tráfico de drogas, bandeira cínica que Washington levanta conforme a conveniência do momento. O que está em jogo, mais uma vez, é o petróleo. Muito petróleo.

A Venezuela abriga uma das maiores reservas petrolíferas do planeta. Esse dado, por si só, explica mais do que mil discursos sobre “democracia”, “direitos humanos” ou “guerra às drogas”. Sempre que um país do Sul Global decide exercer soberania sobre seus recursos estratégicos, passa a ser enquadrado como ameaça.

E, nesse enquadramento, as grandes empresas petrolíferas norte-americanas não são meras espectadoras: são cúmplices. Cúmplices porque lucram, direta ou indiretamente, com sanções, desestabilizações e mudanças forçadas de regime que reabrem mercados, flexibilizam legislações e entregam riquezas nacionais ao capital estrangeiro.

Isso não significa, e é preciso deixar claro, fazer defesa acrítica do governo Maduro. Inúmeras críticas podem – e devem – ser feitas à condução política, econômica e institucional da Venezuela.
 
Problemas internos, autoritarismo, erros de gestão e violações ao processo democrático não desaparecem porque o regime venezuelano fora alvo do imperialismo norte-americano. Mas uma coisa é a crítica legítima; outra, completamente distinta, é a violação da autonomia de um povo e do direito que regula a relação entre as nações do Globo.

Nenhum país tem o direito de sequestrar lideranças estrangeiras, impor bloqueios econômicos que castigam populações inteiras ou agir como polícia do mundo atacando territórios de outros países, impondo perda de vidas, inclusive de civis, em nome de interesses privados travestidos de valores universais. Esse tipo de intervenção não apenas agrava o sofrimento social como cria precedentes perigosos, corroendo as já frágeis bases da ordem mundial.

No fim das contas, o roteiro é conhecido. Mudam-se os pretextos, repetem-se os métodos. Quando se rasga o verniz, resta a verdade incômoda: não é sobre drogas, não é sobre democracia. É sobre petróleo. Sempre foi.

Plataforma na Bacia de Campos
Plataforma na Bacia de Campos (Foto: Divulgação)
 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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