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Enfim, 100!

Enfim, 100!

São 100 edições da nossa Revista Xapuri, são 100 meses na estrada da resistência socioambiental, gente!

Por Zezé Weiss 

Era pra ser uma edição especial, com depoimentos, fotos lindas, e muitas das matérias mais lidas ao longo da nossa caminhada, uma revista dedicada a celebrar nossas conquistas com amor e alegria. De certa maneira, ainda é.

Mas veio essa trágica crise humanitária enfrentada pelos Yanomami, e a gente optou, então, por priorizar contar um pouco da história da tragédia Yanomami, com textos-denúncia de Darcy Ribeiro e Carlos Drummond de Andrade, ainda dos anos 1970, e de Severo Gomes, ao final dos anos 1980.

Do etnólogo Bruce Albert, emprestamos uma apresentação do povo Yanomami. Da fotógrafa Claudia Andujar, tomamos por empréstimo (na confiança) o depoimento emocionante sobre sua convivência com os Yanomami, além de muitas fotos. Fechamos a cobertura com matéria minha, descrevendo um pouco essa luta na floresta dos anos 1990 pra cá.

Optamos por deixar de fora, apenas por limitação de espaço, matérias da cobertura mais recente da tragédia Yanomami – e das soluções que estão sendo buscadas para salvar este e outros povos da floresta, por haver hoje ampla informação disponível nas redes sociais.

Decidimos completar a edição com os temas variados de sempre, além de uma pequena homenagem à jornalista Glória Maria, recém-encantada, e à nossa amada Conselheira Iêda Vilas-Bôas, que partiu do espaço físico deste nosso mundo em abril de 2022.

O destaque, entretanto, vai para as duas matérias em memória do Jaime: “Uma carta para Jaime Sautchuk”, do professor Altair Sales Barbosa, e “A Vida é Dez”, texto de despedida da filha e dos filhos do Jaime, fundador, junto comigo, da Revista Xapuri, e nosso editor-chefe até o seu encantamento, em julho de 2021.

No mais, é só agradecer. Celebramos nossas cem edições com mil gratidões para cada
qual de vocês que, junto conosco, fazem a Xapuri acontecer. 

P.S. Você pode ler a revista Xapuri todinha em nosso site: www.xapuri.info. Para assinar, é lá também: www.xapuri.info/assine. Doações via PIX, você pode fazer para: contato@xapuri.info. Mil gratidões!

Jaime e Zezé Weiss 

Zezé Weiss – Editora. Jaime Sautchuk – Editor (in memoriam). 

Foto de Capa – Gentilmente cedida por Ana Paula Sabino.

 

 


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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