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Feminismo Negro: Coragem, Luta e Resistência

Feminismo Negro: Coragem, Luta e Resistência

Por: Iêda Leal de Souza

Não digam que fui rebotalho, que vivi à margem da vida. Digam que eu procurava trabalho, mas fui sempre preterida.” Carolina Maria de Jesus, em Quarto de Despejo

Quando a vida das importar, teremos a certeza de que todas as vidas importam.” Ângela Davis

Março já bate à nossa porta e até agora, quase um ano depois, nenhuma resposta nos foi dada sobre o assassinato de vereadora (PSOL-RJ) e de seu motorista Anderson Gomes, no dia 14 de março de 2018.

Os abusos, infelizmente, não param em Marielle, nem se localizam em um espaço geográfico determinado. Mulheres negras são assassinadas, todos os dias, no inteiro. Dados do Atlas da 2018, produzido pelo Instituto de Pesquisa Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de (FBSP) documentam: Das mulheres assassinadas no Brasil na última década, 71% eram negras.

Em artigo recente para o Portal Geledés, Maciana de Freitas Souza atribui à nossa realidade pré-capitalista, sua economia escravista e a todo o ambiente político, que vem desde o período colonial, a legitimação dessa de que perdura em nossos tempos.

Mal tomou posse, o novo governo federal faz questão operar o desmonte acelerado das conquistadas a duras penas pelo povo negro nas últimas décadas. Deixa de existir a SEPPIR e entra em colapso o sistema de cotas. Consolidam-se os objetivos do golpe de 2014: para as populações pobres e negras, não mais espaços de justiça, inclusão e liberdade.

Essa é a sorte que nos destinam. Não é esse o destino que nos espera. Como em tantas outas situações de abuso ao longo dessa história excludente e turbulenta, nós, mulheres negras, faremos da mobilização e da participação política do negro estrada e ponte para que a nossa população negra possa, uma vez mais, vencer a desigualdade, a injustiça e a falta de respeito aos nossos ancestrais.

Cabe a nós, mulheres negras, nesse momento trágico em que acordamos todos os dias na mira das violências, na possibilidade de mais Marielles serem executadas por segmentos dessa sociedade misógina e racista, que insiste em nos perseguir e nos eliminar.

Cabe a nós fomentar a tomada de consciência sobretudo de nossas jovens mulheres, para que elas possam enfrentar o racismo com a radicalidade necessária para recobrar os espaços perdidos e mudar os rumos do futuro desse nosso povo que, apesar dos pesares, segue confiante em amanhã de menos dor, mais conquistas e oportunidades.

Continuaremos resistindo, lutando incansavelmente, parafraseando Ângela Davis, “quando as mulheres negras se movem, toda a estrutura política e social se movimenta na sociedade.”

Odoyá, Marielle Franco!

ieda111Iêda Leal
Tesoureira do SINTEGO; Secretaria de
Combate ao Racismo da CNTE; Conselheira do
Coordenadora Nacional do Movimento Negro
Unifi cado – MNU; Vice Presidenta da CUT-GO.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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