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Indígenas LGBTQIA+ rompem o silêncio

Indígenas LGBTQIA+ rompem o silêncio

Aos 12 anos, um menino Boe Bororo começou a perceber que era uma menina. Na aldeia Apido Paru, onde nasceu e mora, essa nunca foi uma questão problemática. Mas, no início, Majur não compreendia bem o que ocorria dentro de si. Agora, aos 30, ela sabe que é uma mulher indígena transexual e está iniciando a transição de gênero, ao mesmo tempo em que se torna cacica, devido ao afastamento do pai dela, de 79 anos, por motivo de doença…

Por Keka Werneck/via Amazonia Real

Desde que se percebeu trans, Majur foi deixando no passado Gilmar Traytowu, seu nome masculino, e construindo a identidade desejada, como mulher. “Estou fazendo (a transição) por partes. Primeiro, tomando hormônio feminino, com acompanhamento de uma endocrinologista de Rondonópolis. Comecei a me perceber trans mesmo aos 12 anos e a partir disso fui me adaptando e me conhecendo a cada dia mais”, relata Majur, em entrevista  à agência Amazônia Real. Majur esperava fazer o tratamento de transição pelo Serviço Único de Saúde (SUS), mas diante da demora pelo serviço público decidiu pagar pelos procedimentos.
Na aldeia Apido Paru, Terra Indígena Tadarimana, em Rondonópolis (MT), a 212 quilômetros da capital Cuiabá, Majur sempre foi respeitada. Mas agora, na condição de cacica e liderando uma comunidade com cerca de 800 habitantes, o respeito por ela só aumentou.
Porém, Majur tem consciência de que esta não é a realidade de outras “monas” – modo como se refere às demais indígenas da diversidade sexual. “Conheço vários e creio que que tenham mais dificuldade de se expor. A gente, além de indígena, é também LGBT, sofre duplo preconceito, embora nunca tenha sofrido dos meus pais. Mas de alguns parentes, sim, e na sociedade lá fora também, mas sou muito mais forte do que os preconceitos”, explica.
Com a transição corporal, Majur também incorporou uma transformação visual. Usa peças femininas, algumas roupas, bolsas e adereços, como brincos. “São da coleção BioMajur, que eu mesma faço, amo fazer”, afirma.
Majur teve oportunidade de sair da aldeia, para estudar, mas resolveu ficar e trabalhar junto a seu povo. Solteira, no momento conhecendo um rapaz, ela já se considera mãe. Isso porque cria duas sobrinhas como se fossem suas filhas. “Elas gostam de mim como mãe e agora sou avó, porque uma delas já me deu dois netinhos lindos e maravilhosos.”
A força de Majur, como mulher, cacica, “mãe” e “avó”, está justamente na sua autenticidade. “Sempre digo que a nossa posição sexual não define a nossa personalidade, somos o que somos, não o que a sociedade homofóbica quer que a gente seja”, diz, acrescentando que sempre agradece a Aroe Eimejera – “Deus, o Chefe das Almas, o Chefe dos Espíritos” dos Bororo por estar bem, assim como todos seus familiares.

Romper o silêncio

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O estilista amazonense Sioduhi (Foto: Jéssica Lagoas)

 
Assunto ainda tabu, a diversidade sexual nas aldeias tem ganhado força com mais indígenas decidindo romper o silêncio. O estilista amazonense Sioduhi, de 25 anos, do povo Pira-Tapuya, originalmente chamada de Waíkahana, lembra como foi difícil perceber que era homem cis gay.
Ele descreve seu processo de descoberta enquanto indígena LGBTQIA+ como um momento de compreensão de sua identidade de gênero e de orientação sexual. “Essa descoberta me trouxe muito peso, justamente por ter nascido em uma área em processo de colonização muito forte, que é o Alto Rio Negro, no Amazonas. Lá tem número elevado de católicos e protestantes. É um lugar em que a colonização assola de uma tal forma que todos nós sofremos com o processo de integracionismo. A partir daí a gente já vê o quão difícil é ser LGBTQIA+ no Alto Rio Negro”, relata. 
Ciente do papel que ocupa na sociedade, ele tem procurado pautar esse debate de forma mais aberta. “Enquanto indígena, LGBTQIA+ estilista, que também tem uma certa influência, tenho tocado mais nesses assuntos, que ainda são super delicados, devido a essa construção de binarismo (homem-mulher) e à culpa cristã, muito grande ainda. Nos foi colocado que a gente vai para o inferno. Sem falar na alienação dessas religiões”, lembra. 
Quando o amazonense resolveu ir atrás do sonho de ser estilista, em São Paulo, levou toda essa carga e história na mala, o que refletiu em seu processo criativo. Carregava nela também o esbulho, a violação espiritual e os abusos morais. Não raras vezes um indígena LGBTQIA+ acaba se sentindo ilhado e oprimido dentro de seu próprio território.
Para o povo Waíkahana, Sioduhi significa “espírito ancestral de um baiá”, o cantor das cerimônias sagradas. Ele nasceu e cresceu na comunidade Mariwá, em São Gabriel da Cachoeira (a 852 quilômetros de Manaus), às margens do rio Negro. 
Aos 12 anos, mudou-se para a cidade, para estudar. Há três anos, Sioduhi chegou à cidade de Pedras, em São Paulo. Resistir é o que aprendeu a fazer, sendo indígena, gay e correndo atrás do sonho que tinha desde criança de ser estilista. Criou a marca Sioduhi Studio, de moda indígena.

Queer indígena

BARBARA ARISI COLUNISTA B
A antropóloga Bárbara Arisi (Foto: Arquivo pessoal)

 
Quem pesquisa a diversidade sexual entre indígenas é a doutora em antropologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Barbara Arisi. “A minha pesquisa de doutorado foi com os Matis, que moram na Terra Indígena Vale do Javari, que fica perto da fronteira com o Peru, onde o rio Javari separa os dois países”, explica Barbari Arisi. Ela, que atualmente mora e leciona na Holanda, é coautora de dois livros sobre o tema. A TI Vale do Javari fica no estado do Amazonas e é a segunda maior terra indígena do país. Nela vivem mais de seis mil indígenas de recente contato e grupos isolados.
O primeiro livro, “Gay Indians in Brazil: untold stories of the colonization of indigenous sexualities”, foi publicado em 2017 pela editora suíça Springer e é uma pesquisa sobre a história não contada da colonização das sexualidades indígenas, antes da chegada dos portugueses e espanhóis.
“Cronistas, padres, jesuítas, dominicanos, registravam a presença de outras práticas sexuais não monogâmicas e não heterossexuais apenas, de que os povos indígenas, assim como outros tantos indígenas ao redor do mundo, tinham antes da colonização europeia várias outras práticas sexuais admitidas na comunidade”, explica a antropóloga. “O heterossexismo, a violência contra as práticas que a gente vai chamar depois de homossexuais é parte de um processo de imposição cultural católica sobre as práticas indígenas relacionadas às formas de estabelecer as famílias, a sexualidade, a afetividade.”
O segundo livro da antropóloga Barbara Arisi, “Queer Natives in Latin America: forbidden chapters of colonial history”, foi publicado este ano pela mesma editora e traz capítulos proibidos da história colonial. O livro começa com uma varredura sobre a pouca bibliografia sobre o assunto e finaliza com histórias de personalidades contemporâneas de indígenas transgênero, queer, que não se enquadram na dicotomia de apenas dois sexos ou dois gêneros. 
“Um dos personagens é um indígena do povo Borari, que conta inclusive sua relação com o candomblé, praticado em sua comunidade, onde já ocorre a mistura. O livro é todo sobre tudo que encontramos de material na arqueologia, nos registros dos cronistas até chegar à parte mais contemporânea, de como os indígenas hoje reivindicam de serem ‘pueblos maricas’, por exemplo, um termo que eles usam na américa do sul. Soy marica, por exemplo. Na Bolívia, os indígenas usam essa expressão”, destaca Barbara Arisi.
O livro traz ainda informações sobre acadêmicos norte-americanos e canadenses indígenas que reivindicam o número dois na sigla da diversidade: LGBTQIA2+. Isso por serem indígenas e não estarem confortáveis no binarismo. Eles se chamam two-spirit, uma categoria nativa. O termo similar no Brasil seria o “queer indígena”.

Fluidez de gênero

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Tarisson Nawa (Foto: Reprodução Instagram)

 
No povo Nawa, do Acre, segundo o jornalista indígena gay José Tarisson Costa da Silva, há relatos de que antepassados viviam a sexualidade de forma tão natural, que era desnecessário assumir-se gay. “A sexualidade não tinha essa hierarquia ou relação de violência com pessoas, com práticas diferentes. Atualmente, afirmar-se como indígena LGBT é fundamental para a luta e o reconhecimento. É a diferença dentro da diferença”, explica.
Tarisson Nawa, que mora atualmente em Manaus, lembra que a pauta de gênero dentro dos povos originários está sendo levantada agora pelo movimento de mulheres indígenas. “Porque as lutas de gênero trazem outras formas de ser e viver dentro do território”, observa o jornalista. “Em conjunto com essa luta das mulheres, essa luta por território, vinculados às questões de gênero, vêm também as questões da sexualidade.”
O jornalista reconhece que na maioria dos territórios a colonização afetou diretamente a sexualidade dos povos indígenas, impactando os corpos indígenas nas suas afetividades, nas suas sensibilidades e nas formas de relações. Assim como alterou  e continua afetando a organização societária dos povos.
“Tenho meus receios em dizer que tudo é produto da violência e da colonização. Eu não estou negando. É fato que a colonização impactou. Mas temos que levar em consideração que no Brasil são 305 povos. A diversidade dos povos é imensa, é difícil mensurar até que ponto antes da colonização a fluidez de gênero e de sexualidade existia em todos esses territórios”, afirma.
Para a antropóloga Barbara Arisi, a discriminação e o preconceito contra a diversidade sexual entre indígenas depende do contexto. Muitas comunidades, como a da Majur, têm aceitação; mas outras não.
“Convivi com pessoas que eram trans, crossdress, com roupa do sexo trocado e não tinham imposição em alguns povos. Mas têm comunidades muito violentas. Na América Central pessoas são espancadas, abusadas, para conformá-la no binarismo, a forma de punição, muitas vezes, é o estupro”, alerta. “Sempre acho que as comunidades indígenas aceitam melhor as pessoas, mas isso não quer dizer todos, a diferença é muito grande, são muitos povos, não dá para falar genericamente.”
Um dos casos de agressão conhecido foi o de Vanina Lobo Escarlante, uma mulher trans indígena boliviana. “Fui excluída primeiramente pela minha família, porque sabia o que queria e comecei a colocar roupa feminina e isso minha família não aceitou”, conta. Filha de cacique, ela relatou, em um vídeo de 2019, as violências física e psicológica que sofreu em sua comunidade, de onde teve que sair.

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Vanina Lobo Escarlante, mulher indígena trans da Bolívia (foto: Divulgação)
 
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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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