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Ir além-mar

Ir além-mar

Lá da cobertura do vigésimo e não sei quantos andares, sequer se veem, se é que ainda existem, as redes de pescadores em varais na praia, quem dirá os varais coloridos que assisto nas sacadas e janelas.

Por Dr. Rosinha/JornalPlural
 
Em julho passado tomamos conhecimento de que um apartamento do Ciro Gomes foi leiloado. O vencedor do leilão foi seu adversário político, que tinha lá suas razões e uma delas, pelas notícias da mídia tradicional e online, ficou evidente: afrontar politicamente o antigo dono. Isto também ficou demonstrado na resposta dada quando perguntado o que faria com o imóvel. “Vou deixar lá…alugar”, respondeu.
 
Ciro Gomes tem dinheiro suficiente, e caso não tivesse, era só fazer uma vaquinha em família, para impedir o leilão. Não o fez. A partir daí me pus a imaginar o porquê de desfazer-se do imóvel. Entre as várias razões coloco como uma que entendo convincente: a de que que o imóvel deve ser uma cobertura de frente para o mar.
 
Morar em cobertura de frente para o mar, qualquer mar, de qualquer país tropical é ter uma paisagem entediante. Assistir todos os dias os movimentos e as variações das cores das nuvens e do mar, dependendo da posição do prédio ver o nascer ou o pôr do sol todos os dias é cansativo, sentir dia após dia o mesmo cheiro de mar, a mesma brisa, observar o voo dos pássaros, na maioria gaivotas, que a distância dão a impressão de que são sempre as mesmas e um horizonte monótono com navios no ir e vir. Preso e sonhando ir além-mar.
 
PURO TÉDIO. PUTO TÉDIO
 
Diferente de onde moro. Prédios por todos os lados e, no meu caso, dois telhados em frente à sacada, antenas de tevês (ainda existem) e tevês ligadas com suas cores e brilhos variáveis, às vezes já desde manhã. Isto não se vê da cobertura de frente para o mar.
 
Sempre me encantaram roupas nos varais em campo aberto, nos quintais ou nas casas de sítios. Cores tremulando, calcinhas, cuecas, fraldas, lençóis e calças com saias se amando. Infelizmente não assisto mais estas cenas.
 
Hoje assisto roupas prisioneiras em áreas de serviço sem a possibilidade de voarem e se entrelaçarem. Também assisto o passeio dos varais móveis de sacadas para janelas ou de janela em janela em busca do sol. Calcinhas e cuecas sensuais, outras frouxas, cansadas de serem usadas para amparar as últimas gotas que saem da uretra.
 
Lá da cobertura do vigésimo e não sei quantos andares, sequer se veem, se é que ainda existem, as redes de pescadores em varais na praia, quem dirá os varais coloridos que assisto nas sacadas e janelas.
 
Uma das vizinhas todos os dias lavava a calcinha e pendurava, pelo lado de fora, da janela do banheiro. Todos os dias uma calcinha de cor diferente tremulando. Às vezes, chegava a três ou quatro, como bandeirinhas de São João nas festas de capela e paróquias do interior.
 
Um dia as calcinhas desapareceram. Foi bronca dos vizinhos ou do condomínio? A vizinha se mudou? Ou pior, a Covid as guardou para sempre?
 
Lá de cima, na cobertura de frente para o mar, não se tem uma visão como essa, sequer se conseguem ver as bandeiras dos navios que passam no horizonte.
 
Morar onde moro, não permite tédio para os ouvidos nem na paisagem: crianças gritando, discussões familiares, ruídos e vozes de festas, janelas abrindo e fechando e quem sabe algum dia uma janela indiscreta.
 
A minha paisagem, ao contrário de quem vive em cobertura, não é só copa de coqueiros, é mais ampla. De um lado, são quatro pinheiros, e um coqueiro, que no momento tem um cacho de flores. Em breve coquinhos.
 
Um dos pinheiros todos os anos me dá a oportunidade de colher, melhor, de disputar com quem passa na calçada, alguns pinhões no chão. Tanto os pinheiros, com suas pinhas, como o coqueiro com seus coquinhos, são razão de festas dos periquitos coloridos que em algaravia se alimentam. Lá da cobertura não tem como vê-los, ouvi-los ou senti-los, como eu aqui ao rés do chão.
 
Pela outra janela, a da rua, os motores de carros e motos, as vozes delicadas ou estúpidas e tristemente muitos Bichos (são tantos que tenho que usar o plural) de Manuel Bandeira.
 
As aves – pombas rolas, periquitos, gaviões, bem-te-vis, pombas, urubus, sabiás… – nas árvores e nos telhados merecem comentário à parte.
 
Creio que Ciro deixou o imóvel ser leiloado porque não suportava mais o tédio e a vida monótona de uma cobertura à beira mar.
 
Há algo comum entre mim e Ciro e os das coberturas: o sonho de ir além-mar.
 
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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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