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JOGA PEDRA NO DAVI!

JOGA PEDRA NO DAVI!

“Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca.” Darcy Ribeiro

Por Zezé Weiss

Preto, pobre, precarizado e periférico, Davi Brito Santos de Oliveira, jovem nordestino, baiano de 21 anos, entrou no Big Brother Brasil 2024, em 8 de janeiro, como a mais pura tradução da esperança: dinâmico, alegre, extrovertido, voz alta, presença feliz no território, Davi entrou no jogo com objetivo claro: ganhar o prêmio de R$ 3 milhões para pagar, “à vista”, um curso de medicina.

Pouco mais de 30 dias depois, em pleno domingo de Carnaval, no dia 11 de fevereiro, adoecido pela constante pressão psicológica, causada pela perseguição incansável da maioria das pessoas que participam da Casa, o garoto vibrante de um mês atrás entrou em colapso e por pouco não apertou o botão da desistência, por pouco não sucumbiu, por pouco não desistiu do sonho.

Cansado das infindáveis pedradas de todo dia, esgotado por insondáveis agressões cotidianas ante qualquer fala, ante qualquer gesto seu, o moleque pobre dos becos da Bahia, desabou:

“As pessoas aqui só sabem julgar, não sabem ver o lado bom das pessoas. Só sabem ver o lado ruim. Eu não aguento mais. Isso que eu estou sentindo pode ser caso psicológico, pode ser que meu emocional esteja abalado e está me causando danos físicos…

É muita coisa que fica… Nossa cabeça não para aqui dentro. Às vezes, eu não durmo. Eu nunca tive esses tipos de problema de dormir. Às vezes, a gente aguenta sozinho as coisas, mas não dá mais. Tem hora que não dá mais, Isabelle, eu vou apertar esse botão e vou embora”, confidenciou o Brother à cunhã da floresta, umas das poucas pessoas participantes que não o hostiliza dentro da Casa.

Davi só não saiu do reality porque foi alertado pela produção do programa de que “perderia tudo”, inclusive a bolsa de estudos que ganhou para se formar em medicina. Depois da prosa no confessionário, o motorista de aplicativo, arrimo de família desde os dez anos de idade, sacudiu a tristeza, secou o rosto molhado, levantou as sobrancelhas arqueadas e voltou pro jogo.

JOGA PEDRA NO DAVI

Davi entrou na disputa do BBB de cabeça erguida. Ousado, leva pedradas pelo “atrevimento” de se fazer visível em um grupo despreparado para a convivência com um preto que fala alto; que canta desafinado; que cozinha pra todo mundo; que limpa a casa que todo mundo suja; que quando se equivoca se retrata, mas que, quando ofendido, tira satisfação, bota a boca no trombone, não leva desaforo pro travesseiro.

Foto: Reprodução/TV Globo

Em um post não tão recente no Instagram, a atriz Lidi Lisboa decodifica essa situação de racismo estrutural, que na verdade é antiga, não vem de hoje: “Preto de cabeça erguida, é metido. Branco de cabeça erguida, é confiante. Preto que se impõe, é atrevido. Branco que se impõe, sabe o que quer. Preto que é ousado, é exibido. Branco que é ousado, é empreendedor. Preto que não leva desaforo, é barraqueiro. Branco que não leva desaforo, tem personalidade”.

Em matéria publicada no site da Carta Capital de 26 de janeiro, Liniker Xavier faz uma análise profunda das situações vividas pelo Brother, a começar pela “energia estranha”, liberada por seu corpo preto:

As justificativas para a aversão direcionada a Davi são um exemplo de como o racismo se disfarça em subjetividades e generalizações nebulosas. Frases como “a energia dele não bate” ou “é uma parada instintiva, dá pra ver” são utilizadas para mascarar preconceitos raciais sob o véu da intuição ou da incompatibilidade de personalidades.

Quando uma participante afirma que “ele tem todos os gatilhos”, ou “eu nunca gostei dele, eu sempre tive problema pessoal com ele”, revela-se uma tendência preocupante de atribuir negativamente a Davi características que, quando exibidas por participantes brancos, são ignoradas ou até mesmo valorizadas.

Essas expressões são ferramentas de um racismo sutil que opera por meio da perpetuação de estereótipos e da manutenção de padrões duplos. O que essas justificativas evidenciam é uma dinâmica de exclusão e marginalização não apenas presente no Big Brother Brasil, mas refletiva de uma sociedade que frequentemente recorre a subterfúgios para disfarçar preconceitos.

A percepção da violência e do comportamento agressivo no contexto racial revela uma profunda disparidade em como a sociedade interpreta e reage a essas ações baseadas na cor da pele. Quando um homem branco exibe comportamento violento ou agressivo, frequentemente isso é contextualizado, até mesmo justificado, como uma expressão de masculinidade, uma forma de afirmação ou defesa de seu espaço.

Por outro lado, a mesma conduta em um homem negro é frequentemente rotulada como “animalesca”, uma associação carregada de preconceitos históricos e estereótipos desumanizantes. Sempre a tendência de desumanizar pessoas negras e interpretar suas ações através de uma lente de preconceitos raciais.

No Big Brother Brasil observa-se esse fenômeno na forma como as ações de Davi são interpretadas e julgadas. Agressividade, assertividade ou mesmo defesa própria por parte de Davi podem ser percebidas de maneira exageradamente negativa, enquanto comportamentos similares por participantes brancos são vistos como normativos ou até admiráveis.

Ela é o reflexo de um racismo sistêmico que persiste em negar oportunidades, em distorcer percepções e em marginalizar com base na cor da pele. As experiências de Davi no Big Brother Brasil não são incidentes isolados; são manifestações de um problema social profundo e enraizado. Quando desculpamos o racismo como uma questão de “energia”, estamos não apenas ignorando, mas também perpetuando as barreiras invisíveis que continuam a segregar e a oprimir.

Portanto, para Liniker, “Davi sofre racismo no BBB: Essa energia que supostamente não se alinha, a energia que não bate no reality tem cor. E essa cor é preta.”

RACISMO ESTRUTURAL

Darcy Ribeiro deixou escrito: “O Brasil, último país a acabar com a escravidão, tem uma perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso. A mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista”.

Para Liniker, a forma como alguns [e algumas] dos e das participantes do BBB 24 tratam Davi ilustra uma forma sofisticada de racismo estrutural, um fenômeno sutil e perigoso.

Os ataques sofridos por ele no programa não são marcados por agressões diretas ou menções explícitas à cor de sua pele. Manifestam-se através de uma série de padrões duplos e expectativas desiguais, onde as ações de uma pessoa negra são escrutinizadas e penalizadas de maneira mais severa do que as de uma pessoa branca.

É um racismo que opera nas entrelinhas, na forma de microagressões e na aplicação de estereótipos negativos. Neste cenário, as ações de Davi são constantemente monitoradas e julgadas com um rigor que não é aplicado aos participantes brancos.  Se Davi se comporta de uma maneira que é considerada aceitável em outros, em seu caso é visto como problemático.

O caso de Davi não é isolado, mas um sintoma de um problema maior: a dificuldade em reconhecer e combater formas de racismo que se ocultam atrás de justificativas aparentemente razoáveis. Este padrão de racismo “velado” é tão prejudicial quanto o racismo explícito, pois ele valida a continuidade de práticas discriminatórias, perpetuando um ciclo de exclusão e injustiça.

Revolucionária, a gigante Lélia Gonzalez resumiu, lá atrás, as razões por que Davi é agredido dentro da Casa: “Do negro exige-se que seja um bom preto; isso posto, o resto vem naturalmente”. No momento em que um moleque preto da Bahia deixa de “ser um bom preto” para assumir, de fato e de direito, o espaço que julga ser também seu, está armada a confusão, descortinam-se, ali, as brancas veias do racismo e do preconceito.

REFLEXÕES E PROTESTOS

A quase desistência do Brother gerou uma enxurrada de protestos. Indignada, Gleici Damasceno, vencedora do BBB 18, usou o espaço de suas redes sociais para botar o dedo na ferida do preconceito: “Eu acho que não chega mais nem a ser perseguição. Se a gente for ver essa realidade que o Davi vive dentro da Casa, a gente consegue ver muito bem um cenário ali de algumas pessoas que têm atitudes muito racistas com ele”.

Foto: Reprodução/TV Globo

Incisiva, vai além: “Se a gente for analisar, ele sofre com algumas atitudes racistas, por ele ser um menino negro, de periferia, tem a questão também de ele ser do Nordeste, então tem essa questão que algumas pessoas sabem que está acontecendo. Eu amo assistir pessoas negras sem medo de falar e com uma boa autoestima e que exploda quem se incomoda”.

Em outros posts, a jovem preta do Acre aprofunda o raciocínio: “O Davi tá sofrendo racismo escancarado, isso veio tirando aos poucos a alegria dele, paciência e saúde. Quantas pessoas estão adoecidas na sociedade por viverem isso diariamente, e a maioria das pessoas brancas tratarem como mimimi?” No imaginário de muitas pessoas brancas, espera-se que a pessoa negra seja passiva.

Qualquer comportamento empoderado de uma pessoa preta é interpretado como arrogância e incomoda. Gleici questiona: “Curioso como as pessoas têm medo de falar a palavra racista, né? É pior ser chamado de racista do que destruir a vida das pessoas sendo racista? Se é tão ‘ofensivo’, por que você não se antecipa e estuda um pouco pra não ser?”

Entretanto, para Gleici o BBB tem um papel na luta contra o racismo: “Eu acho que esse racismo estrutural é algo que a gente precisa debater muito na sociedade. O BBB traz à tona, o BBB de certa forma abre as portas pra gente debater na sociedade alguns temas que precisam ser debatidos. O BBB fazendo essa pauta importante [cria condições pra gente] chegar aonde talvez não chegaria com tanta facilidade”.

EI, PSIU!

Em post antológico no Instagram, Patrícia Ramos, atriz e escritora baiana radicada na Califórnia, explica o Psiu de Davi:

Quando um reality nos mostra na prática que não é o que foi feito e sim quem o fez. A gente pertence a um país diverso, as palavras são utilizadas de diversas formas. Psiu na minha terra, Salvador, Bahia, por exemplo, sempre foi pra chamar a atenção da pessoa, ou quando a gente não sabe o nome dela.

Tudo bem a gente entender de outra forma e questionar, mas querer impor que é outra coisa é bizarro. Um psiu causa gatilhos na bonita, mas as três Maria da Penha nas costas do alecrim dourado dela, não.

‘Ah, ele grita’. Quem não gritaria quando se vê em uma situação de injustiça? E essas pessoas não conseguem lidar com pretos que não abaixam a cabeça pra elas.

Observem que há outros lá servindo as sinhazinhas. Disseram até que, já que ele ganhou a bolsa da faculdade, e foi pra isso que ele entrou, ele já podia sair. É típico. Quem ele pensa que é pra querer uma vida melhor?

Pois quem são essas bonitas pra determinarem a dimensão dos sonhos dos outros? Isso tem nome. Você sabe?

As pessoas se empenharam tanto em afastá-lo dos outros, em torná-lo o ‘pior ser do mundo’ que destruíram o psicológico, a alegria e até a saúde dele. E quantos Davis existem aqui fora? Todo dia alguém tentando tirar a nossa humanidade.

É tanta gente privilegiada que finge ser ‘good vibes’ irritadas quando veem a gente ocupando os mesmos espaços. Nós não podemos sorrir, não podemos chorar, não podemos errar. Ser chatos, nem pensar! Não podemos ser legais, não podemos nem adoecer.

Quem diria que veríamos briga porque alguém faz comida pra todo mundo, ou comemora a sua vitória dentro de um jogo. Nós não podemos ressspirar… E no final ainda nos colocam como mimizentos.

Eu ouvi gente dizendo que ele estar à frente de um botão para desistir era VT. E tem gente que faz esse mesmo julgamento aqui fora. Eu até tava torcendo para que ele saísse, para que ele corresse pros braços das pessoas que o amam de verdade, que se importam. Campeão na vida ele já é.

Mas, eu torço também pra que ele consiga enfrentar as sinhazinhas lá dentro. E os que se sentem pertencentes à Casa Grande também. É simbólico. Significa não só pra ele, mas pra gente também.

CALMA, CALABRESO!

Menos mal que parte expressiva da sociedade brasileira fez como Gleici Damasceno e Patrícia Ramos, e se mexeu. O psiu de Davi gerou humor, consciência e indignação:

“Venha cá, a gente não vai poder falar mais psiu, não?  Quebrou o baiano! Como é que a gente vai chamar o garçom? Ô garçom, psiu! Aqui na Bahia, psiu é sobrenome. Se eu fosse Davi eu falava, psiu! E quando desse ranço, eu falava: ‘calma, calabreso!’”, ironizou nas redes o contador de histórias Ivan Mesquita, também da Bahia.

Giovanna Ewbank, mulher branca, famosa, mãe de duas crianças negras, junto com dezenas de outras personalidades, também se indignou:  

Está difícil de assistir, mas o Davi é gigante! O BBB é e sempre foi um recorte da sociedade.

As pessoas estão completamente cegas e fazem um massacre com ele. E como não estão conseguindo acabar com o cara, estão tentando acabar com quem o cerca, com quem o apoia.

O que acontece lá dentro acontece aqui fora todos os dias! Que a gente observe, aprenda e não repita. O racismo está nas entrelinhas, no olhar, no desprezo. É muito triste a gente ver isso de fora e não poder fazer nada.

O mesmo ocorreu com Tia Má:

Eu poderia estar falando só do BBB, mas é assim na vida real também. O pobre não pode ousar querer mais. Pra quem é da burguesia, o máximo do pobre é o mínimo.

Mas a gente precisa compreender que todas as pessoas devem ter acesso irrestrito à educação, à cultura, à saúde. E a gente não pode mais se assustar com o pobre que realiza alguns dos seus sonhos de consumo.

Porque todas as vezes que são anunciados participantes desses realities todo mundo quer confirmar se aquela pessoa é pobre de verdade.

Como assim, o pobre tem uma TV de 60 polegadas? Como assim, o pobre tem um I-phone? É porque para essas pessoas o pobre tem que ser miserável, tem que viver em uma condição desumana.

O uso da expressão ‘Calma, calabreso’ foi outro motivo de mais uma cena deprimente de ira contra Davi.

A expressão, que nem é baiana, mas ganhou fama – e até virou marchinha de Carnaval depois da briga com Davi no BBB – foi criada por Toninho Tornado, humorista do “Canal do Delício”, que faz vídeos na internet com apelidos curiosos usando sempre expressões femininas no masculino, como “CNPJoto”, “Samsungo” e similares, serviu de pretexto para os boys da casa armarem confusão.

Embora os envolvidos na briga soubessem que “Calabreso” é só um meme de um humorista na internet, os bonitos fincaram pé no racismo e acusaram Davi de gordofóbico. Foi só mais uma das muitas agressões que o Brother vem sofrendo.

Entretanto, o fundo do poço, a expressão mais horrenda de racismo e preconceito veio mais recentemente, quando um grupinho, ao ver o Davi passar, resolveu se comunicar sobre ele imitando macacos. Isso não é crime? Racismo não é crime? Haverá, em algum momento, algum tipo de punição para tamanha perversidade?

RACISMO É CRIME

Sim, Racismo é crime, com penalidades previstas em Lei. Isso não impede que pessoas pretas continuem sendo excluídas, marginalizadas e violentadas, à luz do dia e aos olhos da sociedade.

Luigi, bailarino, ex-BBB 2024, relatou recentemente o que sofreu pouco tempo antes de entrar no reality show:

A galera quando vê um pretinho de thread, tatuado, compara com marginal. Quer ver um exemplo? Antes de vir de vir pra cá, eu tomei cinco duras em uma semana, na Barra da Tijuca (RJ). E em todas elas eu estava em cima de um motouber. E uma o cara me tirou do meio da pista pro canto. E botou o fuzil na minha cara. Pro cara branquinho que tava na minha frente, ele moveu o braço e perguntou: você quer passagem? E foi na minha reta. Eu com o corpo sujo de cola e poeira.

Para Luiz Fernando Sabino, “o preconceito e o racismo ainda existem, são evidentes em nossa sociedade. O que antes vinha estampado, hoje vive com máscaras.”

A própria ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, reconhece essa triste realidade:

O que aconteceu com Davi hoje [11/02] é o que, infelizmente, acontece com a juventude negra quase todos os dias.

Não por acaso ou coincidência, são os jovens negros, majoritariamente homens, com a média de idade do Davi, as pessoas que mais tiram a própria vida no Brasil.

Temos conversado, desde o início da gestão no Ministério da Igualdade Racial (MIR), com o Ministério da Saúde para a elaboração de uma política pública de saúde mental com foco na juventude negra, para que a consequência do racismo, da deslegitimação, da desumanização e da exclusão não seja a retirada da própria vida.

Enquanto isso, o jogo segue. E nós, por aqui, só conseguimos pensar no grito de luta da gigante Angela Davis: “Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista.” Sejamos, pois, antirracistas!

Foto: Divulgação: Rithyele Dantas/MIR

Zezé Weiss – Jornalista.

Block

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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Dilamar Paulo

Matéria que retrata a realidade do nosso infeliz cotidiano. Parabéns!

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