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Justiça do AM devolve lancha apreendida em operação

Justiça do AM devolve lancha apreendida em operação e liderança sofre ameaças de garimpeiros

Lancha doada à comunidade estava sob tutela do servidor do ICMBio e agora ele é alvo de represália e ameaças dos garimpeiros.

Por Mídia Ninja

Em novembro uma balsa garimpeira que operava ilegalmente nos arredores de áreas protegidas e terra indígena, no médio rio Juruá, foi destruída em ação conjunta da Polícia Federal, Ibama e ICMBio. Nessa ocasião, foi apreendida uma lancha dos garimpeiros que futuramente, após sua descaracterização, seria doada às organizações de base comunitárias que carecem de meios de transporte para suporte de atendimento médico, social e de proteção territorial das comunidades extrativistas de Carauari (AM).

O que parecia um desfecho justo, virou o início de um tormento. Os moradores do Território Médio Juruá agora temem pela segurança de uma de suas lideranças mais aguerridas, Manoel Cunha, que é morador e gestor da Resex Médio Juruá.

Nas últimas semanas, homens encapuzados circulam pelas comunidades perguntando sobre Manoel. Eles querem saber onde mora e quem são seus familiares. A sensação de impotência é muito grande. Por isso, moradores das comunidades e membros do Fórum Território Médio Juruá, vendo as ameaças se intensificarem dia após dia, fazem um apelo ao poder público, para que garantam a Manoel e sua família, segurança e proteção.

Um morador da comunidade relatou à Casa Ninja Amazônia que mesmo depois da intensificação das ações contra ilícitos ambientais no território protegido, balsas seguem sendo avistadas no rio Juruá. Mas agora, elas transitam por caminhos alternativos, via afluentes. “Isso só aumenta a tensão”.

Sobre o caso da lancha, explicou que por um erro processual entre a apreensão e a doação, os garimpeiros que tiveram a balsa destruída e lancha apreendida, entraram com uma notícia-crime na Justiça estadual, acusando Manoel de ter furtado a lancha. Ainda que o bem doado não tenha chegado à comunidade, a Justiça estadual em decisão liminar, pediu que a lancha seja devolvida aos reclamantes. O bote completo, com motor 250Hp ficou sob a tutela da unidade do ICMBio na Resex, na pessoa de Manoel Cunha, como fiel depositário.

“Mesmo o bem tendo sido direcionado para as comunidades, eles têm como alvo o Manoel, porque ele tem sido o maior representante dessa resistência”, disse o morador.

Manoel, é muito querido pelos moradores das comunidades do Território Médio Juruá. Ele foi membro da articulação que criou Unidades de Conservação em Carauari e no Amazonas, integrou o Movimento de Educação de Base – MEB, foi presidente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas – CNS e tem uma atuação consolidada na defesa de direitos dos povos da floresta e conservação ambiental. E, atualmente é o gestor da Resex Médio Juruá.

Diante da situação de perigo iminente, os membros do Fórum Território Médio Juruá estão em mobilização. Eles lamentam que a demanda ilegítima dos garimpeiros tenha sido acolhida pela justiça e alertam que a iniciativa se configura como retrocesso à política ambiental de fiscalização e controle.

“Como forma de reaver a lancha apreendida, os garimpeiros entraram com uma ação dissimulando outro fato na justiça, acusando Manoel Cunha de ter furtado a lancha e conseguiram via decisão judicial a recuperação do bem, fragilizando o papel de proteção ambiental e territorial da região”.

Alerta que as ameaças a Manoel atingem a todos. “Entendemos todas essas ameaças como uma forma de represália pela ação desenvolvida no território para expulsão da atividade garimpeira da região e garantia da conservação da região”.

Fonte: Mídia Ninja. Foto:  (Divulgação PF). Este artigo não representa a opinião da Revista e é de responsabilidade da autora.


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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