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LIBERDADE: UM POEMA DE CARLOS MARIGHELLA

Liberdade

Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.

Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.
E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome”

São Paulo, Presídio Especial, 1939.

Fonte: Café com Marx – uma iniciativa de Marcelo Pires Mendonça, publica sempre textos essenciais para formação de seres humanos críticos, conscientes e solidários. O texto abaixo, publicado no site Controvérsia , informa um pouco sobre este militante lendário da esquerda brasileira.

Quem foi Carlos Marighella e por que você deveria saber disso?

A pergunta é: Por que se fala tão pouco de pessoas como Carlos Marighella? De pessoas que colocaram um ideal de libertação acima da própria vida?

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Carteira de filiação ao Partido Comunista

Esse trecho foi retirado de uma biografia resumida no site do PCB e possivelmente é como a maioria das pessoas — dentre as poucas que conhecem o episódio — devem se referir a ele. Uma anedota da história.

O que eu sei sobre o fato: em 9 de maio de 1964, Carlos Marighella e Clara Charf estavam em um aparelho — nome dado as casas usadas de esconderijo na ditadura — vivendo de forma ilegal e escondendo quaisquer rastros de existência. Marighella tinha marcado um encontro com uma amiga em frente a um cinema na Tijuca para reaver algumas roupas que haviam ficado para trás na última fuga.

Clara diz, no documentário, que o companheiro teve um pressentimento e começou a recolher todos seus pertences do apartamento, pedindo para ela fazer o mesmo. Quando saiu do apartamento, de frente para o elevador, Marighella optou pela escada. A polícia, pelo elevador. Oxóssi protege seus filhos.

Próximo ao cinema, agora sozinho, Marighella percebeu a polícia de tocaia, vigiando. Fez sinal para a amiga entrar e seguiu atrás. Pegou o pacote, se despediu rapidamente e sentou-se em meio a sessão da tarde, lotada de crianças e famílias. Pouco tempo depois, as luzes do cinema foram acesas e ele foi cercado pelos policiais instaurando o caos no local. Lutou o quanto pôde com socos e gritos de “Abaixo a ditadura militar fascista” e “Viva a democracia”, mesmo baleado covardemente a queima roupa.

A bala fez quatro furos, entrando pelo lado esquerdo do tórax, saindo pelo direito e atravessando o braço de Marighella. Ainda assim, relatos dizem que quase uma dezena de policiais foram necessários para colocá-lo dentro da viatura. Desse episódio, surgiu o relato de próprio punho que deu origem ao livro “Porque resisti a prisão”.

Vê a diferença?

A primeira vez que realmente ouvi sobre Carlos Marighella foi nesse clipe do Racionais MC’s. Podia não ser um nome estranho para mim, mas estava longe da grandiosidade desse personagem.

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Quem era esse mano que merecia um som do Racionais e eu, universitário, morador da periferia e negro, não fazia a menor ideia de onde tinha saído?

“Às oito e meia da manhã de 15 de agosto de 1969, um destacamento de doze guerrilheiros da ALN (Ação Libertadora Nacional) invadiu a estação transmissora da Rádio Nacional em Piraporinha, perto de Diadema (Grande São Paulo). Dominados os funcionários, um dos invasores interrompeu a ligação com o estúdio e ligou ao transmissor de ondas curtas uma gravação. Com o Fundo musical do Hino da Internacional Comunista e do Hino Nacional, a gravação anunciou o nome da Carlos Marighella e reproduziu o manifesto lido por ele. Na meia hora em que a estação esteve sob controle da ALN, deu tempo para repetir a gravação. No mesmo dia 15, o jornal paulistano Diário da Noite lançou uma segunda edição com o texto integral do manifesto de Marighella captado pelo o rádio escuta ”.

(A imagem que eu tenho da tomada da Rádio Nacional é Mano Brown, KL Jay, Edi Rock, Ice Blue e Dexter chegando em um fusca, fortemente armados, vestidos como se estivessem em 1964 e gritando: “Quieto senão morre. Quieto. Quieto. Entra caralho”. O vigia rendido é levado até a sala de transmissão onde se encontra o locutor, que é enquadrado por KL Jay ao som de “Ajoelha, caralho! ”.

E o discurso feito por Marighella no ato entrando na sequência.

Teria como ser diferente?

Carlos Marighella era muito diferente do Brown ou do Dexter? Ou de mim e de você?

Por que a gente não aprende isso na escola?

Por que o inimigo número um da Ditadura Militar nunca é citado nos livros didáticos?

Fontes: PCB Documentos Revelados  Medium


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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