O O MACHISMO SEM CORAÇÃO NO CORAÇÃO DO PODER

O MACHISMO SEM CORAÇÃO NO CORAÇÃO DO PODER 

O MACHISMO SEM CORAÇÃO NO CORAÇÃO DO PODER 

“Ninguém é mais arrogante em relação às mulheres, mais agressivo ou desdenhoso do que o homem que duvida de sua virilidade.”

(Simone de Beauvoir)

Por Geraldo Lopes de Souza Júnior

No domingo, 7 de dezembro, nas cidades de 20 estados do Brasil pipocaram manifestações contra o aumento assustador dos casos de feminicídio e outras formas de violência contra mulheres, segundo o Movimento Levante Mulheres vivas. O machismo estrutural é reforçado pela família e outros aparelhos ideológicos de Estado, mas o seu combate também.

Aprendi cedo, ainda menino, que homem não levanta a voz para mulher. Homem escuta. Isso não veio de livro, nem de discurso bonito sobre igualdade. Veio do jeito como meu pai falava baixo, mesmo cansado, e do jeito como minha mãe nunca precisou gritar para ser respeitada. Veio da divisão das tarefas, do pedido de desculpas quando alguém errava, da regra silenciosa de que dignidade não se negocia dentro de casa.

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Talvez por isso hoje, caboco, me cause tanto espanto – e uma raiva que acende o fígado – ver o país inteiro aplaudir homens públicos que não sabem sequer tratar com humanidade as mulheres dentro da própria casa.

O Brasil sempre teve um carinho especial pela esposa de político, desde que ela saiba exatamente “qual é o seu lugar”. De preferência, atrás. Em silêncio. Sorrindo para a foto. No máximo, segurando um curumim no colo ou como figurante de família feliz em comercial de margarina institucional.

Se sair disso, já dizem que “se meteu onde não foi chamada”.

Tu te lembras, caboco? Não faz muito tempo que esse molde ficou famoso naquele retrato de “bela, recatada e do lar”, usado para embalar Marcela Temer como se fosse uma peça de porcelana chinesa: bonita, frágil e feita para não se mover. O problema é que o Brasil real não é vitrine. É zona de impacto.

Aí, quando uma primeira-dama resolve não se comportar como item de decoração, a República dá pane. Bastou Michelle Bolsonaro contrariar o próprio PL para surgir um espanto quase infantil:

– “Ué…, mas a esposa pode pensar?” 

Pode. E pode errar também. Porque aqui a defesa não é de santa nem de sigla partidária — longe de mim defender o PL (vixe, vixe!). Quero defender a mulher. Ponto.

DE NORTE A SUL

Enquanto isso, longe do marketing eleitoral e perto do chibé nosso de cada dia, muita esposa virou denúncia antes de virar nota de rodapé.

Lá em Maceió, ainda nos anos 2000, Jullyene Lins acusou Arthur Lira (PP, AL) de agressões, estupro conjugal e violência psicológica. O tempo passou, os processos envelheceram, as reportagens sumiram por ordem judicial. Ele cresceu. O caso ficou suspenso no limbo – esse lugar aonde o Poder vai quando não quer responder.

Em Brasília, em 2017, Élida Souza Matos foi à polícia denunciar Admar Gonzaga, então ministro do Tribunal Superior Eleitoral. Teve olho machucado, medida protetiva, denúncia da PGR. Anos depois, absolvição por falta de provas. A Justiça encerrou o processo, mas o corpo não recebeu o memorando.

Em São Paulo, a história se atualiza com outros figurinos, mas o mesmo roteiro. Cíntia Chagas denunciou Lucas Bove (PL, SP) por agressões, controle e intimidação. Parte do inquérito corre em segredo de Justiça, esse biombo aveludado que protege mais o sobrenome do que a vítima.

Aí, em Goiânia, a violência atravessa a porta do próprio Parlamento. Marussa Boldrin (MDB-GO) denunciou o ex-marido, Sinomar Júnior, por agressões físicas e psicológicas. Teve nota de solidariedade da Câmara. Mas solidariedade institucional ainda não substitui a coragem de romper com a cultura que normaliza a brutalidade doméstica.

Noutra sala de Brasília, o caso não virou boletim de ocorrência, mas virou vexame público. Antônia Lúcia Câmara (Republicanos, AC) expôs Silas Câmara (Republicanos, AM) por traições, humilhação psicológica e abandono. Não foi crime tipificado. Mas foi abuso. E abuso também destrói – só demora mais para aparecer no laudo.

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Durante a pandemia, quando o país enterrava gente em ritmo industrial, Andrea Barbosa falava de manipulação, infidelidade, festas e controle psicológico praticados por Eduardo Pazuello (PL, RJ). Ela não depôs na CPI por medo. Porque aqui, às vezes, o terror não vem de ameaça explícita – vem do tamanho do cargo.

No Rio de Janeiro, entre eleições, púlpitos e delegacias, o casamento de Rosinha Garotinho com Anthony Garotinho (PRP, RJ) virou ringue público. Política e vida conjugal misturadas como combustível e fogo. Depois vieram prisões, escândalos, decadência. O amor já tinha pedido exoneração muito antes.

Em Belo Horizonte, nos bastidores mineiros do poder, surgiram relatos envolvendo o ambiente familiar de Aécio Neves (PSDB, MG): constrangimento moral, exposição, influência política dentro de casa. Nada virou processo doméstico. Porque há violências que continuam sendo tratadas como “assunto privado” – desde que o agressor seja público.

E em São Paulo, lá em 2000, quando Nicéia Camargo acusou Celso Pitta (PTB, SP) de negociar vereadores para barrar uma CPI, a carreira política desabou junto com o casamento. Um raro momento em que a casa caiu antes da narrativa conseguir varrer tudo.

Mais recentemente, o episódio envolvendo o deputado federal Paulo Bilynskyj (PL, SP) mostrou que essa engrenagem não faz parte do passado – esse passado que não passou e está em plena rotação. Antes mesmo de qualquer conclusão judicial, versões viraram munição, redes sociais viraram tribunal, e o corpo da mulher voltou a ser território de disputa política. 

Não importava o que se investigaria depois. O julgamento – quase sempre contra ela – já estava pronto. O poder, quando se sente ameaçado dentro de casa, costuma reagir como reage no Parlamento: atacando.

VIOLÊNCIA SEM PARTIDO

O que costura todas essas histórias não é ideologia. Não é esquerda, direita, centrão ou extremidade. Não é conservador nem progressista. Não é slogan nem púlpito. O que atravessa tudo é o machismo estrutural, essa engrenagem invisível que protege o poder e suspeita da mulher antes mesmo de ouvir o que ela diz. A misoginia hoje não precisa gritar: ela carimba, arquiva, desacredita.

E se dentro de casa a violência tenta calar mulheres na intimidade, fora dela também cobra seu preço. Basta lembrar Marielle Franco (PSOL, RJ), uma linda mulher, negra, periférica, eleita para questionar as estruturas que o poder tenta manter intactas.

O assassinato de Marielle não foi “caso isolado”, assim como a violência doméstica nunca é “incidente”. Foi parte da mesma lógica que pune mulheres que ousam sair do lugar esperado. O destino de Marielle mostra que, quando o poder se sente ameaçado, ele não só grita – ele elimina.

Meu pai também foi criado sob a brutalidade. Poderia ter repetido. Não repetiu. Poderia ter mandado. Escutou. Poderia ter gritado. Silenciou para não ferir. Por isso eu não aceito como “erro ocasional” aquilo que é escolha. Violência doméstica não é erro: é projeto de poder.

Por isso é preciso dizer sem medo de perder amigo, seguidor ou editor: a defesa é da mulher. Mesmo quando ela não combina com o nosso campo político. Mesmo quando o agressor usa a nossa camisa. Mesmo quando ela não cabe na santinha que a gente gostaria de apoiar.

A violência não pede filiação partidária. A dor não consulta ideologia. E o abuso não respeita slogan.

Eu aprendi que dignidade não é discurso: é gesto repetido. Não se ensina respeito no palanque se ele não cabe na cozinha, no quarto, no corpo do outro.

Enquanto o Brasil seguir tratando esposa de político como cenário de campanha, continuará elegendo homens que governam de dia e oprimem de noite. E isso diz menos sobre eles e mais sobre nós. Porque nenhum machista chega ao topo sem que a sociedade lhe entregue os degraus.

O que vemos no Congresso, nos tribunais e nos palácios não é exceção: é espelho. A violência doméstica praticada por homens públicos não nasce no gabinete – ela só floresce lá porque, antes, foi regada no silêncio das casas, nas piadas de bar, nas desculpas esfarrapadas que a gente repete para proteger o agressor e desconfiar da vítima. Cada voto que normaliza esse tipo de homem no poder é também um atestado de que o machismo ainda encontra abrigo confortável no país que somos.

E não haverá democracia possível onde metade do Brasil segue lutando para sobreviver dentro da própria casa. Porque um país que aceita representantes machistas está aceitando, no fundo, a própria continuidade da violência. 

Democracia nenhuma se sustenta quando precisa calar uma mulher para manter um homem de pé. Uma nação só muda quando a sociedade deixa de reconhecer esses homens como líderes – e passa a reconhecê-los pelo que realmente são: sintomas de uma doença que só se cura com coragem coletiva.

PS: A evolução moral de um país é lenta, quase sempre teimosa. Para que a memória das truculências masculinas – e das desculpas esfarrapadas que as acompanham – não se perca no caminho, deixo aqui algumas leituras que ajudam a entender por que a violência contra a mulher continua sendo um projeto social tolerado por muitos e combatido por poucos:

https://www.taquiprati.com.br/cronica/177-lei-maria-da-penha-jane-black-cisco-big-black–

https://www.taquiprati.com.br/cronica/180-a-alma-do-raimundo-e-os-direitos-da-mulher

https://www.taquiprati.com.br/cronica/183-a-sabinada-metendo-a-colher

https://www.taquiprati.com.br/cronica/238-o-dia-do-julgamento-de-sabino-podrao

Geraldo Lopes de Souza JúniorEstatístico e Cronista em www.taquiprati.com.br/

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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