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Marcia Tiburi: expulsa do seu próprio país

Por: Rodrigo Couto – Entrevista exclusiva para a Revista Xapuri 

“É difícil ver Marcia ter que optar por morar longe seu país, pelo qual tanto lutou e luta. Sei de sua dor, sei da dor que sofrerá o país. Neste cenário dominado pelo caos, é forte a mensagem que nos transmite com sua decisão. Mas fico feliz por saber que ela busca, mais uma vez, com mais força, com mais garra, seguir, onde quer que esteja, pensando e registrando nossos tempos, nossas barbáries, e lutando por sua existência de mulher num mundo tão misógino que a expulsou de seu próprio país.”

Com essas palavras, o jornalista Guto Alves informou, no portal O Cafezinho, a saída de Marcia Tiburi do Brasil, por razões de ameaças de morte, em março de 2019. Passado um mês do autoexílio de uma de nossas intelectuais mais engajadas e respeitadas, o jornalista Rodrigo Couto, de Brasília, a entrevistou via internet com exclusividade para a Revista Xapuri.

VEJA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA: 

X – Como você se sente agora, fora do Brasil?
MT– Não é bom deixar o país pelos motivos que eu deixei. Ninguém se sente bem tendo que se ausentar fisicamente da própria luta. Mas não foi possível ficar. Então aqui estou, firme na resistência, mas de um outro modo, em um outro espaço, do outro lado do Oceano.

X – O que a fez partir? O que mais a assustou?
MT – Saí do Brasil por conta das inúmeras ameaças de morte que vinha recebendo e, em consequência delas, da inviabilidade de continuar minha participação como escritora em eventos públicos.

X – O que pensa fazer aí fora?
MT – Ainda estou me organizando, mas continuo escrevendo livros. Esse direito não vão tirar de mim, não mesmo.

X – Como você se sente com relação ao processo do Presidente Lula? O que acha que pode ser feito? O que você pode fazer? O que podemos fazer?
MT – Ninguém pode fazer nada sozinho. Há um arranjo judiciário que levou as coisas a esse ponto. A meu ver, hoje apenas uma pressão vinda das ruas e uma forte pressão internacional podem provocar algum efeito.

X – Recém completamos um ano sem Marielle. Como você se sente com relação a essa perda, aos resultados da investigação até agora, e o que acha que vai acontecer daqui pra frente?
MT – Marielle era uma grande companheira de luta. Precisamos manter sua memória viva. Esse é o recado que precisa ficar claro para quem acha que assassinar lideranças as torna invisíveis. #MarielleVive!

X – O Brasil passa neste momento pela tragédia do atentado à Escola de Suzano. Por que isso acontece? O que pode ser feito para prevenir novas tragédias? Armar a população é a solução?
MT – Armar a população nunca será a solução. Violência gera violência. Vamos ter que refundar o Brasil com educação, cultura e instituições amparadas na democracia. Vamos ter que começar do zero depois dessa onda fascista.

X – Governo Bolsonaro. Uma avaliação crítica dos primeiros 100 dias leva a crer que…
MT – … o projeto de destruição do Brasil está dando certo.

X – Rio de Janeiro: Uma avaliação crítica dos primeiros 100 dias leva a crer que…
MT – … o projeto de destruição do Rio de Janeiro está dando certo.

X – Meio Ambiente e Cidadania: Em dezembro completamos 30 anos sem Chico Mendes. Em março, um ano sem Marielle. Como podemos compreender os legados das nossas lideranças que tombam na jornada, como podemos defender esses legados?
MT – Não era para isso ter acontecido. Precisamos de uma sociedade em que haja respeito à vida. Era isso que essas pessoas defendiam. É isso que precisamos seguir defendendo também em memória da luta e do sacrifício delas.

X – O que é preciso ser feito para o Brasil ser feliz de novo?
MT – Vamos levar muitos anos para consertar os estragos. Talvez não tenhamos nova chance. Mas vamos seguir sonhando, vamos seguir lutando!

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Foto: Rodrigo Couto

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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