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Marcos 1

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Marcos 1

O patriarcado e o machismo são regras impostas pela nossa sociedade, lutamos contra ele constantemente, tivemos avanços e retrocessos. É preciso reconhecer que há muita habilidade de todos os atores, principalmente, dos que detém os privilégios em manipular os discursos e adequar os avanços na medida e proporção que lhes interessa para se manterem no topo…

Por Giselle Mathias

Não digo que há uma pessoa ou um grupo específico pensando, articulando e nos tratando como marionetes e que nossos desejos e ações sejam totalmente induzidas, mas acredito que, considerada as devidas proporções, o processo cultural e como é transmitido com a possibilidade mínima de contraditório e construção de outras formas de enxergar o mundo e as relações, nos impele a agirmos e pensarmos dentro do que é de interesse desse sistema hierarquizado, opressor e escravizador.

Reconheço que ainda reproduzo inúmeros padrões – apesar de questioná-los. Cresci e fui construída lendo, contemplando e observando os modelos determinados e, sempre que ajo de forma diferente ao que é imposto, ainda assim me colocam em caixinhas, me enquadram no que é conhecido e superficial, e o que sou e sinto é desconsiderado, gerando os típicos comentários depreciativos como: ser uma mulher “insensível”, “exigente demais”, “falsa” porque construiu uma “personagem” para justificar meus questionamentos sobre os padrões, “solitária” e tantos outros adjetivos que vão nos minando, tirando nossa autoconfiança e a possibilidade de nos construirmos enquanto humanos.

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Nosso sistema subverteu a essência humana da cooperação e sociabilidade para nos transformar em seres violentos, opressores e escravizadores. Criamos estruturas de poder baseadas na violência seja física ou psicológica e somos bombardeados pelos padrões que, em tese, evitariam sermos excluídos e marginalizados de nossas “tribos”, mas entendo que eles servem para estruturar e manter a lógica do privilegiado em um grau de escalonamento onde aqueles que estão nos últimos lugares precisam ser moldados para apenas se conformarem em serem explorados, subjugados e escravizados. Para tanto os padrões construídos culturalmente nos impõem, sem possibilidades de questionamentos, os lugares que devemos ocupar sob várias justificativas que vermos na psicologia de auto-ajuda, nos filmes, novelas, livros e tantos outros meios que nos cooptam e aprisionam em conceitos que insidiosamente fazem crer que é normal a hierarquia do humano e a sua instrumentalização pelo mercado e também pelo outro.

Na internet proliferam tutoriais e coaches de relacionamentos que estão a todo momento reforçando os padrões do masculino e feminino. Ensinam o quê e como fazer, como se fosse possível definir precisamente o afeto; somos cada vez mais conduzidos e moldados para que não possamos sequer viver e sentir a vida, mas escolher o que é determinado como sucesso e, para tanto, somos produzidos em série, negamos o que sentimos e buscamos a superficialidade dos encontros para que não sejamos “infelizes”, sem perceber o quanto vamos nos esvaziando e permanecendo em um estado amorfo, insípido, sem cheiros, sem cores e luzes, reservando sorrisos, alegrias, dores e lágrimas as telas dos celulares por meio das redes sociais. Transferimos a nossa vida para selfies, curtidas e emojis, vivemos a “eternidade” e a “juventude” tão almejada permitindo que nosso sangue, nossas emoções e potência de vida sejam consumidas e sugadas por algoritmos e a falsa ideia do viver; estamos apenas passando pela vida, nos perdendo, nos isolando, nos bloqueando, travando e vestindo armaduras só para não sentirmos as tristezas e frustrações, mas com isso também não vivemos as alegrias e gozos reais, regados a emoções, sentimentos e desejos.

Minha vida não foi permeada por muitos Marcos, pelos inúmeros obstáculos e limites que estão à nossa volta – pelo menos não estavam em minha mente – no que sou e no que desejo, mas sei que os criei e permiti que eles se colocassem à minha frente. Confesso que os respeitei, pois assim como todas as mulheres, algumas mais outras menos, nos colocamos dentro dos padrões impostos, conscientemente ou não. É uma questão de sobrevivência no mundo em que nascemos, em como nos veem e como nos colocamos para vivermos e muitas vezes nos reconhecermos.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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