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Matadouro Brasil: Vidas perdidas em um genocídio tropical

Matadouro Brasil: Vidas perdidas em um genocídio tropical

ou (Notícias sobre um genocídio tropical)

Por Pedro Tierra

Humano não é o impulso
de partilhar a sorte de alguém,
cujo rosto nunca vimos,
mas por algum sinal do sangue
na parede ou no destino
reconhecemos irmão?

Quem de nós ignora
que morremos um pouco
no corpo de quem tomba
ao nosso lado, alvo de um balaço,
ou sufoca a caminho do hospital?

Afinal, o que foi feito do berço
de águas e verdes e afetos
que imaginávamos cultivar?
O que foi feito dos sons
do surdo e do tamborim,
da sanfona, do triângulo e da zabumba,
da viola sertaneja
que nos acalentaram
e desenharam o mapa
dos nossos corações?

Devastado pela dor e pelo ódio,
já não o reconhecemos como o lugar
que moldamos para nascer e amar
na geografia afetiva da alma.

A palavra do poeta seja sopro
sobre a brasa adormecida
de nossa indignação.
E possa acender as chamas
da ira diante do intolerável.

Não temer a ira!
A sagrada explosão da ira
diante do injusto
é que nos faz humanos!

Pergunto aos palácios de vidro
erigidos pelas mãos
dos pedreiros candangos:
que país será construído
sobre os ossos dos povos
condenados ao matadouro?

Guarani, Kaiowá, Yanomami,
Krenak, Cinta-larga, Tikuna,
Karajá, Suruí, Caiapó, Rikbatsa,
Tapirapé, Kaxinawá, Parakanã, Kamaiurá…

Os Xavante
sobreviveram ao facão,
ao garimpo e aos massacres.
Às roupas contaminadas com sarampo,
à ferocidade do latifúndio,
devorando veredas e buritizais.
Sobreviverão alcançados
pela maldição do vírus
e pelo silêncio cúmplice dos genocidas?

Ouço na Esplanada
sob o violento azul do inverno
de nossas desesperanças
um difuso clamor.
Que minha voz ecoe o pranto
das mães Yanomami
em busca dos corpos
de seus filhos enterrados.

A morte aqui tem nome e lugar:
favelas, mocambos, aldeias, quebradas.

O inverno já nos alcança
enquanto ainda buscamos flores
da primavera pública que se perdeu…
para coroar a tumba dos encantados
nessa semeadura de cruzes.

Hoje, cinquenta e seis mil mortos,
sufocados pela peste,
batem à porta do genocida.
Quem responderá pelas vidas
que a indiferença
transformou em cruzes?

O holocausto é real.
Os nomes são reais.
A dor é real. O luto é real.
Quem responderá por eles?

Sobre nós o Sol
e o olho do drone.
O olho do drone não chora,
não conhece o sal das lágrimas.

Registra a morte, apenas.
Uma geométrica colmeia de assombros
cavada no barro vermelho
do coração do país.

O olho do drone registra o plantio
para entregar um dia aos segadores
a sinistra colheita da morte.

O país dos abraços
aprende, na dor
das distâncias medidas,
um novo idioma de gestos:
Eu te amo,
mas não te toco.
Eu te amo
e porque te amo
não te toco.

Contra o escárnio,
que a palavra do poeta
seja sopro e se faça vento
sobre a brasa adormecida
de nossa indignação.

Pedro Tierra – Poema lido na Cerimônia de Encantamento de quem partiu nas asas da Covid-19, na Esplanada dos Ministérios, em 28 de junho de 2020. 

[authorbox authorid=”” title=”Sobre o Autor”] 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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