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Menos de um ano depois de voltar à natureza, loba-guará Pequi morre atropelada

Menos de um ano depois de voltar à natureza, loba-guará Pequi morre atropelada

Reintegrada à natureza em abril deste ano, Pequi foi atropelada na noite de quarta-feira (13), em Goiás, ao tentar atravessar uma rodovia.

Por Redação/O Eco

“Infelizmente a Pequi foi atropelada e morreu”, conta o veterinário Otávio Maia, um dos que monitorava as andanças da loba-guará que passou a viver em liberdade após dois anos de cativeiro. “A humanidade caminhou para um modelo de civilização que é incompatível com a natureza, com a vida”, desabafou.

A breve vida de Pequi foi marcada pela tragédia. Órfã de mãe aos 30 dias de vida, foi resgatada junto com quatro irmãos por pesquisadores  do Onçafari e acolhidos pela Fundação Jardim Zoológico de Brasília, onde permaneceram por seis meses. A mãe da Pequi era monitorada por radiocolar e a morte dela – cuja causa não foi possível determinar – foi notada pelos pesquisadores, que foram em busca dos filhotes.

Os filhotes ficaram sob os cuidados de diferentes instituições. Pequi passou um tempo na Bahia, sob os cuidados do Parque Vida Cerrado, centro de conservação da biodiversidade, pesquisa e educação socioambiental do oeste baiano, sediado em Barreiras. A partir daí, surgiu a campanha #AjudeaPequi, uma vaquinha virtual que ajudou a dar continuidade à reabilitação da Pequi no Distrito Federal, em fevereiro de 2022, sob os cuidados da zootecnista Ana Raquel Gomes Faria e da Jaguaracambé, organização não governamental sediada em Brasília.

Nos 15 meses que se seguiram, Pequi foi reabilitada, com a construção de um cercado na Reserva Ecológica Paraíso da Terra em Brazlândia, DF, de propriedade do Instituto Teosófico de Brasília, inserida na Área de Proteção Ambiental (APA) de Cafuringa. Duas câmeras transmitiam e gravavam imagens do recinto e do seu entorno 24 horas por dia. Em 17 de abril deste ano, Pequi recebeu um radiocolar e foi solta. Visitou o recinto onde passou meses aprendendo a viver em liberdade algumas poucas vezes. Os pesquisadores criaram uma campanha “você viu a Pequi?”, para monitorar o avistamento dela por fazendeiros, chacreiros e residentes da APA da Cafuringa. As duas ações, a soltura e a campanha, foram temas de coluna publicadas aqui em ((o))eco entre maio e setembro deste ano. 

Na noite da última quarta, por volta das 23h30, Pequi foi atropelada na BR080/GO424, a 4 km da cidade de Padre Bernardo, uma rodovia de grande movimentação e de longas retas, que ela já tinha cruzado outras vezes, sempre à noite ou de madrugada.

Consternada, a condutora do veículo de passeio envolvida no acidente chegou a contatar a Jaguaracambé por meio de uma rede social. A motorista não conseguiu evitar a colisão, pois naquele trecho da rodovia há uma sucessão de aclives e declives, e a rodovia é margeada por barrancos com vegetação.

Pequi estava retornando de uma incursão, iniciada na véspera, a uma região desconhecida localizada a 10 km do que parecia ser a área escolhida para se estabelecer, formada por cinco fragmentos de cerrado incrustrados em duas propriedades produtoras de grãos. Há três meses Pequi perambulava entre esses fragmentos muito próximos entre si.

“Muitas pessoas se envolveram na reabilitação desde que ela foi resgatada, ainda bebê, com pouquíssimas chances de sobreviver. Dessas pessoas, algumas estiveram mais presentes, mais próximas da Pequi, outras mais distantes. E um outro tanto de gente, sem participação direta, ficou acompanhado os trabalhos por meio das notícias. Dentre essa gente, queridos amigos e familiares. Todos estamos muito tristes, todos estávamos torcendo para encontrar a Pequi, no próximo ano, acompanhada de seus filhotes. Junto com a dor da perda, vamos lembrar das alegrias, dos encontros emocionantes que tivemos com ela, e do sucesso indiscutível, arrisco a dizer, do trabalho feito com dedicação, empenho e amor. Nós demos à Pequi a oportunidade de viver, ainda que por poucos meses, como um verdadeiro lobo-guará, andarilho e solitário. E ela soube nos agradecer com fidelidade, lambidas e longos choramignos por porções de fígado e bananas, nas suas aparições, sempre dócil e cabisbaixa. Viva a Pequi!”, escreveu o veterinário Otávio Maia, em conversa com nossa reportagem. 

Por conta da periodicidade do envio das localizações pelo radiocolar, por meio do GPS, só foi possível recolher o cadáver da Pequi às 15h da última quinta-feira (14), o qual foi transportado para a Escola de Veterinária da Universidade de Brasília, onde será submetido à necrópsia e taxidermia. “Essa autorização [para a taxidermia] visa atender ao propósito de manutenção simbólica e representatividade da lobo-guará – Pequi, a qual, durante monitoramento remoto, foi encontrada atropelada na BR 080, oito meses após a soltura”, é a observação que consta na autorização emitia pelo ICMBio/Sisbio.

A reabilitação de lobos-guarás está prevista no Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Canídeos Silvestres (PAN Canídeos).

Fonte: O Eco. Foto de capa: Pequi -Otávio Maia.

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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