MOCHO-DIABO: MISTÉRIO, LENDAS E CIÊNCIA NA MESMA AVE

MOCHO-DIABO: MISTÉRIO, LENDAS E CIÊNCIA NA MESMA AVE

MOCHO-DIABO: MISTÉRIO, LENDAS E CIÊNCIA NA MESMA AVE

A mocho-diabo, de nome científico Asio stygius, tem um nome que, literalmente, significa: “coruja orelhuda do inferno”. É uma coruja conhecida por suas orelhas pontudas, os olhos grandes amarelados e pelo grande porte, o que a torna uma das mais imponentes entre as aves noturnas

Por Thaís Silveira 

A ave pertence à família dos estrigídeos, grupo que inclui quase todas as espécies de corujas brasileiras, com exceção da coruja conhecida na Região Nordeste como rasga-mortalha, uma ave que, segundo a crença popular, ao passar sobre uma casa e cantar, pode trazer mau agouro.

A mocho-diabo apresenta hábitos essencialmente noturnos, período em que sai em busca de alimento. Sua dieta é bastante variada: inclui pequenos roedores e morcegos, capturados em pleno voo, outros pequenos vertebrados, além de aves menores, como pombos, demonstrando grande capacidade de adaptação.

Na hora da caça, destaca-se pela estratégia e precisão. Geralmente permanece imóvel em um poleiro, observando atentamente o ambiente antes de lançar um voo rápido e silencioso em direção à presa. 

O sucesso na caça noturna se deve, principalmente, à capacidade das corujas de não emitir som durante o voo, pois suas asas são silenciosas. As penas das asas não são contínuas, apresentando pequenas irregularidades e espaços entre si, como se fossem levemente recortadas, além de serem macias e com estrutura aveludada.

Essa estrutura permite que o ar passe com mais suavidade durante o voo, evitando a produção de ruído. Além disso, a envergadura larga de suas asas lhe garante sustentação durante o voo; dessa forma, bate as asas menos vezes, garantindo o silêncio durante a sua caçada, sem afastar suas presas.

O medo das pessoas, relacionado às crendices populares, associa a coruja a criaturas ruins por suas penas na cabeça, que lembram chifres, e pelo fato de seus olhos ficarem avermelhados quando a luz de lanternas é projetada em sua direção. Para os indígenas, as corujas urukure’a, do tupi-guarani, são importantes comunicadoras entre o mundo espiritual e o mundo dos vivos, podendo anunciar acontecimentos ou transmitir avisos.

Além disso, a presença das corujas está frequentemente ligada à sabedoria e à observação, já que são animais silenciosos e atentos ao ambiente. Dessa forma, diferentemente das crenças populares negativas, para os povos indígenas as corujas possuem um significado mais profundo e respeitoso dentro da natureza e da espiritualidade.

Os preconceitos relacionados às características da coruja mocho-diabo e os mistérios que a cercam, somados aos seus hábitos discretos, contribuíram para manter as pessoas afastadas da espécie. Esse distanciamento, embora baseado em crenças, acaba favorecendo sua preservação, já que se trata de uma ave importante para o equilíbrio ambiental, atuando no controle natural de pragas.

Thaís SilveiraThaís Silveira – Bióloga, graduada pela Universidade Estadual de Santa Cruz (RS), pós-graduanda em gestão para sustentabilidade pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Capa: Foto: Ron Knight / Flickr / CC BY 2.0;

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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