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Moro, quem te viu, quem te vê…

Moro, quem te viu, quem te vê…

Por Helena Chagas

Jair Bolsonaro está fazendo Sergio Moro beijar a cruz. Para quem surpreendeu o país no comando da maior e mais implacável investigação de corrupção  realizada em terras brasileiras, acusada inclusive de abusos resultantes de seu furor investigativo — sempre negados por ele —, o ex-juiz e atual ministro da Justiça está sofrendo um inusitado castigo. É autor de um ofício ao Procurador Geral da República questionando uma investigação policial antes mesmo de ela ser concluída.

O presidente da República teve seu nome citado no depoimento de um porteiro sobre a entrada de um dos acusados do assassinato da vereadora Marielle Franco no condomínio em que Bolsonaro reside, sendo supostamente autorizado a entrar com destino à sua casa. Bolsonaro estava em Brasília nesse dia, e talvez bastasse provar isso de forma cabal. Não poderia ter se reunido com o suposto assassinato no dia do crime — e, embora o fato de o miliciano acusado ter dito que ia à sua casa seja altamente constrangedor, não comprova qualquer crime.

 

Ou seja, quem não deve, não teme. E se Bolsonaro não se reuniu com o sujeito, não se reuniu. Não há como incriminá-lo se isso de fato ocorreu. O próprio PGR Augusto Aras parece  acreditar nisso, e está remetendo o caso à procuradoria no Rio.

Tampouco soa legítima, porém, a interferência do Executivo na investigação. Bolsonaro, com o apoio de Moro, quer que o porteiro seja novamente ouvido. Mas nem o presidente da República e nem seu ministro da Justiça têm prerrogativa legal para interferir em investigações e diligências em curso, recomendando novos depoimentos ou retificações sobre eles.

O ex-juiz da Lava Jato aponta “possível equívoco” na investigação e “eventual tentativa de envolvimento indevido do nome do presidente da República no crime”, advertindo que tais atos podem configurar crimes de obstrução à Justiça, falso testemunho ou denunciação caluniosa.

Moro, quem te viu, quem te vê!

Fonte: Os Divergentes

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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