MULHERES E MERCADO DE TRABALHO: AVANÇOS E DESIGUALDADES

MULHERES E MERCADO DE TRABALHO: AVANÇOS E DESIGUALDADES PERSISTENTES 

A violência de gênero não se limita às agressões físicas ou aos casos de feminicídio. Ela também se expressa de forma estrutural nas desigualdades de acesso a oportunidades, renda e poder. 

O mercado de trabalho é um dos espaços onde essa desigualdade se materializa com mais nitidez, reproduzindo hierarquias históricas que limitam a autonomia econômica das mulheres. 

As informações recentes sobre o mercado de trabalho nacional indicam que o Brasil atravessa, desde 2022, um ciclo de crescente melhoria das condições de inserção produtiva. 

Nos últimos três anos, conta-se com contínuo aumento no número de ocupados e recuo do nível de desocupação, cujos patamares são os menores já registrados. Esses avanços, porém, não têm sido suficientes para promover a emancipação econômica das trabalhadoras. 

Quando desagregados por gênero, os indicadores positivos do mercado de trabalho mostram que as dificuldades enfrentadas pelas mulheres na inserção produtiva permanecem profundamente maiores que as dos homens.

Os números expressam não apenas a existência de mais obstáculos para acessar trabalho, mas também a maior presença feminina em postos com salários mais baixos. 

MULHERES E MERCADO DE TRABALHO: AVANÇOS E DESIGUALDADES
Fonte: IBGE. Pnad Contínua
Elaboração: DIEESE

A diferença de rendimentos persiste mesmo entre aqueles que possuem nível de ensino superior. Outra evidência está nos cargos de direção e gerência, em que a desigualdade de acesso e de rendimentos é mais intensa.

Por outro lado, o fato de haver mais mulheres, especialmente negras (uma em cada sete trabalhadoras negras é doméstica), empregadas no trabalho doméstico, reflete a persistência da atribuição social do papel feminino de cuidadora. 

Para esta seção do Boletim, foram utilizados dados da PnadC-IBGE (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), com ênfase no triênio entre o 4º trimestre de 2022 e o 4º trimestre de 2025. 

A população feminina em idade ativa chegou a 90,5 milhões em 2025, o que representa crescimento de 2,3% entre 2022 e 2025. O número de ocupadas também aumentou no período: 6,6% ou 2,8 milhões de mulheres, e totalizou 44,9 milhões de ocupadas, o que correspondeu a 49,6% da população feminina em idade ativa. A redução do contingente de desempregadas foi de 1,6 milhão de mulheres. 

Desses movimentos, no cômputo geral, resultou a ampliação da presença feminina no mercado de trabalho, quantificada em 1,1 milhão de trabalhadoras incorporadas à força de trabalho (2,4%). 

As mulheres fora da força de trabalho somaram 42,7 milhões em 2025, o equivalente a 47,2% da população feminina em idade ativa. Esse contingente aumentou 931 mil em relação ao 4º trimestre de 2022, apesar da quantidade de trabalhadoras desalentadas ter recuado em 783 mil. 

Ao serem perguntadas sobre a razão pela qual não estavam trabalhando, 30,5% das mulheres fora da força de trabalho responderam que tinham que cuidar dos afazeres domésticos, do(s) filho(s) ou de outro(s) parente(s). 

Ou seja, cerca de um terço das mulheres não estava na força de trabalho porque estava em casa trabalhando para a família. A taxa de desocupação geral caiu de 7,9% para 5,1%, entre 2022 e 2025. Entre as mulheres, passou de 9,8% para 6,2%, no mesmo período, dois pontos percentuais acima da dos homens, que foi de 4,2% em 2025.

 Para as negras, a taxa de desocupação passou de 12,0% para 7,5%, entre 2022 e 2025, enquanto para as não negras foi de 7,3% para 4,7%, o que põe em evidência a dupla discriminação de raça/cor e sexo. 

A taxa de informalidade no triênio passou de 38,9%, em 2022, para 37,6%, em 2025. A queda se deve à diminuição da informalidade feminina, que caiu de 37,5% para 35,5% no mesmo período. Entre as negras ocupadas, a taxa de informalidade ficou em 39,9%, nove pontos percentuais maior do que entre as demais mulheres. 

A maior presença de negras na informalidade se explica, em parte, porque elas são maioria nos serviços domésticos sem carteira. Cerca de 14,5% das mulheres negras ocupadas eram trabalhadoras domésticas.

Em 2025, 3,7 milhões de pessoas, ou o equivalente a 3,6% do total de ocupados, estavam em cargos de direção e gerência, o que correspondia a uma pessoa nessa situação para cada 27 ocupados. 

De maneira geral, as mulheres ascendem com mais dificuldade nas carreiras, mas marcadores de raça/cor são decisivos para a contenção das trajetórias ocupacionais. Entre as negras ocupadas, 508 mil ou 2,1% eram diretoras ou gerentes. Ou seja, entre as mulheres negras, uma a cada 47 trabalhadoras estava em algum cargo de chefia no trabalho. Entre os homens não negros, essa proporção era de um a cada 18 ocupados. 

Esse quadro, embora ainda expressivo, revela leve melhora em relação ao trimestre de 2022, quando a desigualdade era de 22%: naquele momento, as mulheres ganhavam, em média, R$2.670, e os homens, R$3.440. No mesmo período, o rendimento médio feminino cresceu 13,9%, taxa superior à registrada entre os homens (12,3%). 

Esse avanço relativamente maior contribuiu para uma pequena queda da diferença percentual no período, mas não foi suficiente para eliminar a disparidade, que permanece significativa. Em 2025, 38% das mulheres ocupadas recebiam até um salário-mínimo, enquanto os homens com essa mesma remuneração correspondiam a 28%. A diferença era ainda maior: 42% das mulheres e 31% dos homens. Ou seja, a diferença se reduziu um pouco ao longo do período. 

Ainda no mesmo ano, as mulheres eram maioria (55%) entre os 10% de trabalhadores com menores rendimentos. À medida que os salários aumentam, a participação feminina cai: elas representam 34% entre os 10% mais ricos, 25% entre o 1% mais rico e apenas 16% entre os 0,1% com maiores rendimentos. 

Nos maiores salários, a distância entre os rendimentos de homens e mulheres foi ainda maior. Em 2025, os ocupados do sexo masculino com ensino superior receberam, em média, R$ 8.357, e as mulheres, R$ 5.409, cerca de 35% a menos. 

Em um ano de trabalho, essa diferença significa que as mulheres ganham R$35.386 a menos que os homens. Entre os que estiveram em cargos de direção e gerência em 2025, o rendimento médio recebido pelos homens foi de R$10.492 e, pelas mulheres, de R$7.546, ou seja, elas ganharam 28% a menos. 

Em um ano de trabalho, essa diferença significou menos R$35.360 no rendimento feminino. 

Fonte: DIEESE: “As múltiplas formas de violência contra a Mulher” – Boletim Especial 8 de Março de 2026 – Dia Internacional da Mulher. Para mais informações e referências, consulte o documento na íntegra: –https://www.dieese.org.br/boletimespecial/2026/2026mulher.pdf

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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