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Nós, mulheres negras, podemos falar?

Nós, mulheres negras, podemos falar?

Nós, mulheres negras, podemos falar?

Nós, mulheres negras, podemos falar? Poderia ficar aqui, desenvolvendo um longo texto, desses pra dizer da importância feminina no mundo do trabalho, nas cidades e no campo. Registrar a importância da nossa participação no Parlamento, na Saúde, na Educação.

Por Iêda Leal

Enfim… sem nós, mulheres, não haveria outros ou outras; sem nós não haveria coração pra compreender as subjetividades da vida, não haveria o dom de amparar as situações mais delicadas…  E não poderiam os homens terem ido tão rápido para o mundo.  Pois quem ficaria como guardiãs das casas, das famílias, da organização de dentro sem irmos para fora?

Falaria ou escreveria aqui durante horas sobre os diversos feitos das mulheres em casa, da doçura de criar e recriar os filhos dos filhos, da esperteza de se dedicar a uma vida cheia de tarefas domésticas “bem domesticadas”, e assim arrancar agradecimentos em discursos de posse ou em dedicatórias de livros. Poderia ficar aqui elogiando essas mulheres que fazem muitos turnos e ainda se sentem parte da humanidade quando alguém lembra delas no 8 de março, no dia das mães, ou que às vezes são esquecidas ali no cantinho, por conta de alguma data mais importante.

Sim! Eu poderia ficar aqui falando e escrevendo sobre mulheres que são homenageadas porque sabiamente se fizeram invisíveis para dar vez aos donos das casas (filhos, maridos, namorados, noivos, pais, pastores, amantes, padres, patrões, prefeitos, governadores).

Poderia escrever páginas e páginas sobre nós, mulheres negras… Da nossa importância, das nossas histórias, dos nossos sofrimentos. Somos guerreiras, sim! Conseguimos dar as mãos aos homens negros para que pudessem sobreviver nessa sociedade racista, que em determinado momento da construção de nossa história aqui, nessas terras, os arrancaram dos nossos seios, dos nossos braços e os reduziram em meros reprodutores e trabalhadores sem nenhum reconhecimento intelectual; atirados a uma servidão opaca ao mundo branco, esquecendo-se de nós, do seu pertencimento civilizatório.

bia kalunga por iasmin reis 2Bia Kalunga por Calleb Reis

Mas achei melhor não perder meu tempo falando dessas situações que causam uma tristeza sem fim. Não vou escrever sobre essas coisas, não!!!

Irei me concentrar em reafirmar quem faz a luta diária para sobreviver nesse mundo machista/racista/homofóbico/branco/cristão, que insiste em nos empurrar para um lugar no qual nós não queremos ficar e não nos pertence.

Não somos mulheres sonhadoras, não somos mulheres apenas sensíveis, não! Não somos mulheres boazinhas, não somos mulheres somente meigas, só apaixonadas pelo que fazemos, nós não somos mulheres de vida fácil, não! Nós não somos só mulheres compreensivas e bem-comportadas, nós não somos sexo frágil, não… nós não somos bobinhas.

Somos MULHERES. Absolutamente mulheres que sobrevivemos há séculos num mundo que quer nos subordinar e não nos garante tranquilidade para sermos o que somos. Então, nós nos transformamos diariamente em Lélias, Luizas, Clementinas, Dandaras, Acotirenes, Hildas, Joanas, Marias, Margaridas, Iracemas, Chicas, Billies, Dolores, Elizetes, Carmens, Antonietas, Abutas, Aídas, Neumas, Laudelinas, Citas, Terezas, Aqualtunes, Efigênias, Auzitas, Adelinas, Anastácias, Saraís.

Mulheres Negras… São Negras Mulheres que foram empoderadas ao longo das suas vidas e ensinaram ao mundo que todo o compromisso tem de estar ligado à nossa ancestralidade. Somos conectadas com a esperança civilizatória, buscando sempre comprometer-se com a nossa negritude como um projeto político que dê sustentação ao nosso Bem-Viver.

Portanto, 8 de março ou qualquer outra data serve para dar maior visibilidade às nossas lutas; são datas de referência para darmos continuidade ao nosso plano de resgate da autodeterminação do povo negro no mundo.

Precisamos transformar todos os nossos dias em dias de luta. E, assim, continuaremos honrando as histórias de cada uma. São exemplos de sobrevivência negra.

Lutaremos, sempre, por um mundo melhor, por uma concepção de vida coletiva que respeite a diversidade humana e garanta as relações com todo o universo de forma harmônica.

Que venham então todas as datas. Estamos preparadas para uma luta que será liderada por nós, todas as mulheres do mundo.


[authorbox authorid=”” title=”Sobre a Autora”]


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cópia de revista xapuri 80 WEB

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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