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“Mulheres são julgadas pela aparência até quando morrem”

“Mulheres são julgadas pela aparência até quando morrem”. Mariliz Pereira Jorge responde artigo sobre Marília Mendonça na Folha 

Colunista da Folha responde ao texto de Gustavo Alonso que revoltou internautas neste sábado: “retrato da gordofobia e da misoginia que pautam a sociedade”

Do 247 – A jornalista Mariliz Pereira Jorge, colunista da Folha, respondeu, também com um artigo, à coluna de Gustavo Alonso no mesmo jornal sobre Marília Mendonça que revoltou internautas neste sábado (6) por trechos como “nunca foi uma excelente cantora”, “era gordinha e brigava com a balança”, “seu visual também não era dos mais atraentes para o mercado” e “vinha fazendo regime radical”.

“Não porque essas frases sejam o retrato da gordofobia e da misoginia que pautam a sociedade. O autor pode ter acreditado que apenas resumia uma impressão coletiva. Fiquei incomodada porque é uma visão preguiçosa sobre o que tem acontecido na sociedade, na qual Marília Mendonça se mostrou uma das maiores representantes de sua geração. Mas talvez o jornalismo não esteja preparado para isso”, escreve Mariliz.

“Marília nunca deixou de ser julgada. Quando não se enquadrava no padrão barbie do mundo artístico e, também, quando perdeu peso. A sociedade cobra respostas para tudo. Tanto faz suas motivações, se era por saúde ou por achar que se sentiria melhor com outra aparência.
O julgamento sempre vem, sempre haverá alguém para dizer como cada um de nós deve se vestir, se parecer ou se pesar. O que não dá mais é que isso seja endossado pelos meios de comunicação”, completou.
Capa: O Globo. 

Marília Mendonça
Marília Mendonça (Foto: Divulgação)


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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